As vidas por trás dos números da Covid-19 em Minas Gerais

Reprodução/Coronavírus-MG

Por Cristiano Martins e Ígor Passarini, do Coronavírus-MG

Dois meses após o primeiro contágio confirmado oficialmente, Minas Gerais ultrapassou nesta quinta-feira (7) a indesejável marca das 100 primeiras vítimas da Covid-19.

Segundo os informes da Secretaria de Saúde, ao menos 106 pessoas, em 50 cidades de todas as regiões do estado, tiveram suas vidas encerradas precocemente pelo novo Coronavírus até este momento.

Enquanto os números vão se acumulando em planilhas a cada boletim epidemiológico divulgado, os familiares, amigos e vizinhos de cada uma dessas vítimas amargam um luto particular. A maioria não teve sequer a oportunidade de velar os corpos e se despedir dos entes queridos.

Inspirado pelo memorial digital Inumeráveis e por este editorial do Jornal Nacional, o Coronavirus-MG.com.br decidiu reunir as histórias conhecidas por trás desses tristes números. São pessoas que deixaram famílias, carreiras, talentos e lições em solo mineiro.

Linha de frente

Pelo menos três das vítimas residentes em Minas Gerais eram profissionais da saúde que estavam atuando na linha de frente do combate à pandemia. Um deles, o fisioterapeuta Wesley Leite Soares de Oliveira, tinha 34 anos de idade e é a segunda vítima mais jovem no estado.

Segundo o Jornal do Sudeste, Wesley morava em São Tomás de Aquino e trabalhava em Franca, do outro lado da divisa com São Paulo, onde vinha atuando diretamente no atendimento a pacientes com suspeita de Covid-19 na região.

“O mais triste é que não vai poder ter velório, não poderemos ver o rosto dele pela última vez para despedir”, lamentou a irmã do fisioterapeuta. De acordo com o jornal, Wesley era uma pessoa querida no município e gostava de tocar instrumentos musicais.

Em Juiz de Fora, profissionais da saúde prestaram diversas homenagens ao técnico de enfermagem Agnaldo do Nascimento Emidio, 41. Ele trabalhava no setor de casos graves da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte e também foi sepultado sem velório após ter contraído a Covid-19.

“Nos reunimos, formamos um círculo, começamos com uma oração, e alguns colegas falaram em homenagem e respeito ao Agnaldo, à família dele e à nossa profissão. Foi muito emocionante”, contou uma diretora sindical à Tribuna de Minas.

Também técnica de enfermagem, Maria Aparecida de Andrade morreu aos 53 anos, em Contagem. Segundo o Conselho Regional da categoria (Coren-MG), ela trabalhava na UPA Ressaca e no Hospital Alberto Cavalcanti, em Belo Horizonte.

“Era uma pessoa muito trabalhadora, esforçada. Estava perto de se aposentar, trabalhando muito para juntar um dinheirinho”, relatou um colega ao portal BHAZ. “Foi tudo muito rápido, questão de uma semana para ela piorar muito e acontecer isso”, acrescentou.

Wesley, Agnaldo e Maria Aparecida fazem parte dos 20% de vítimas com menos de 60 anos de idade em Minas Gerais. Os dois homens apresentavam quadro de comorbidade (outras doenças crônicas preexistentes), ao contrário da técnica de enfermagem, que não fazia parte de nenhum grupo de risco.

Distanciamento social

Desabafos emocionados e alertas a favor do isolamento social feitos pelos familiares em luto marcaram alguns casos em Minas Gerais.

A primeira vítima confirmada da Covid-19 no estado foi Marlene Eunice Vanucci, de 82 anos. Moradora de Belo Horizonte, ela estava internada em Nova Lima e morreu em 29 de março. Em nota publicada pelo portal G1, uma nora da vítima fez um apelo aos governantes e à população:

“Para os que estão defendendo acabar o isolamento. Para os que estão defendendo as falas contra a ciência. Para os que estão defendendo que algumas milhares de mortes não significam nada frente à quebradeira da economia. Só tenho uma coisa a dizer. Espero, fortemente, que não passem pelo que minha família está passando”, declarou.

Em Montes Claros, o filho de uma das vítimas revelou que o pai não havia levado a pandemia a sério. Cláudio Manoel Ricardo, de 69 anos, morreu ao retornar de uma viagem a São Paulo. “Ele dizia que era coisa da mídia. Eu o alertei para não ir viajar, e mesmo sabendo dos riscos ele foi, porque não acreditava na doença. Meu pai era 100% saudável”, declarou o filho ao G1.

Em Divinópolis, a médica oftalmologista Ana Cláudia Monteiro também não resistiu, apesar de ter recebido os melhores cuidados em um CTI dedicado exclusivamente a ela, segundo o marido. Em nota publicada nas redes sociais, Alair Júnior disse que o exemplo dela poderia salvar outras vidas.

“Ana tinha 46 anos, sem comorbidades, e era uma atleta disciplinada. Protejam-se, cuidem dos seus e trabalhem para que não sejam arrefecidos os esforços de isolamento, até que tenhamos uma solução de fato”, publicou.

Assim como Cláudio Manoel e Ana Cláudia, 10% das vítimas do novo Coronavírus em Minas Gerais não apresentavam comorbidade, ou seja, alguma doença crônica preexistente.

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