Vítima da Backer recebe alta após 6 meses e cobra atitude da cervejaria

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Engenheiro passou mais de 80 dias no CTI (Reprodução/Streetview + Amanda Dias/BHAZ)

ATUALIZAÇÃO ÀS 21h: Matéria atualizada às 21h do dia 16/06 com posicionamento da Backer.

Seis dias após a conclusão do inquérito sobre o caso envolvendo a Cervejaria Backer, mais uma vítima grave da intoxicação provocada pelo dietileglicol, deixou o hospital. Na manhã desta segunda-feira (15), o engenheiro Érico Lucke foi liberado pela equipe médica do hospital Paulo de Tarso, onde passou 186 dias. Na saída do hospital, ele disse que espera que a justiça seja feita e que a Backer assuma que cometeu um erro.

“Sempre houve uma esperança, eu sei que eu entrei forte nesse ciclo, eu entrei de corpo forte e alma fechada e sabia que tudo ia correr bem”, contou Érico. Apesar da positividade, ele lamenta que sua vida tenha sido afetada de maneira tão brusca por uma marca da qual gostava muito.

Érico é uma das 29 vítimas relacionadas no inquérito da Polícia Civil, que culminou no indiciamento de 11 pessoas por crimes diversos, como homicídio, lesão corporal, falso testemunho e extorsão (veja mais aqui). Ele conta que, até hoje, não foi procurado pela cervejaria para discutir os gastos com o tratamento. Oito pessoas morreram em decorrência da intoxicação.

“Eu penso que a Backer deveria, pelo menos, se expressar melhor e não ficar só atrás dos autos se defendendo. Acho que ela tem que assumir o erro que foi cometido e que justiça seja feita”, defende.

Agora, ele passa para uma nova etapa do tratamento, com acompanhamento de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e nefrologia: “Agora eu tenho problemas nos rins, tenho as mãos e pés adormecidos [adormecidos] por causa do veneno, tenho paralisia facial, mastigo com a boca aberta… Enfim, é difícil”.

“Lamentável”

O advogado de Érico, André Couto, acompanhou o engenheiro na saída do hospital e comentou sobre as medidas legais que estão sendo tomadas. André classificou como “lamentável” a atuação da cervejaria e pediu uma postura mais proativa: “Eles deviam ter procurado, ter se aproximado dessas vítimas, pois elas são de fato as vítimas dessa história toda, elas tomaram a cerveja e elas estão prejudicadas”.

O advogado também explicou que ainda não há como calcular os custos do tratamento de Érico, mas que outras vítimas já apresentaram despesas semelhantes que giram em torno de R$ 15 mil. “Eles sempre dizendo que estão buscando as vítimas para dar apoio, é mentira. Isso não aconteceu com nenhuma das vítimas, custearam apenas uma delas por um período curto de tempo”, lembrou.

André também explicou que já existe uma ordem judicial para que a Backer pague as despesas de vítimas como Érico, que, além de gastos com hospitais, precisaram arcar com a contratação de cuidadores e deslocamento de familiares. Ele defendeu que as vítimas tenham esse retorno para que consigam focar no objetivo principal: a recuperação. “Agora é recomeçar, aprender a andar novamente, a fazer uma série de coisas. A gente espera que a justiça seja feita e que eles melhorem cada vez mais”.

O que diz a Polícia Civil?

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informa que o inquérito encaminhado à Justiça relaciona 29 vítimas, e destas 8 foram a óbito e 21 são sobreviventes, inexistindo alteração quanto ao número de pessoas contaminadas pelo mono/dietilenoglicol. As alterações nos números de vítimas serão constantes, considerando que ainda estão sendo realizadas perícias médico-legais.

Das trinta vítimas iniciais, que não haviam sido incluídas no inquérito, três foram descartadas hoje (15) pela investigação. As demais 27 serão chamadas nos próximos dias para apresentar documentos médicos e serem periciadas no Instituto Médico Legal.

O que diz a Backer?

O BHAZ entrou em contato com a cervejaria e aguarda um posicionamento.

ATUALIZAÇÃO: A Backer confirmou que o paciente é uma das vítimas incluídas no inquérito da Polícia Civil e na ação do Ministério Público. “Contudo, ele ainda não apresentou no processo os documentos exigidos pela própria Justiça para receber ajuda da Backer”, disse em nota (leia na íntegra abaixo). 

A cervejaria reforçou também que tem “interesse pleno” na resolução da situação e que “irá honrar com todas as suas responsabilidades junto à Justiça, às vítimas e aos consumidores”.

Nota na íntegra:

“O paciente em questão é uma das vítimas apontadas no inquérito da Polícia Civil que testaram positivo para contaminação por dietilenoglicol. O paciente também integra a ação movida pelo Ministério Público. Contudo, ele ainda não apresentou no processo os documentos exigidos pela própria Justiça para receber ajuda da Backer (comprovante de despesas médicas não cobertas por plano de saúde).
A Backer reitera o interesse pleno na resolução da situação, o mais rápido possível. Porém, todos os bens da empresa se encontram bloqueados pela Justiça, que determinou regras para o reconhecimento e pagamento de auxílio. Na última segunda-feira, a empresa conseguiu um empréstimo inicial no valor de R$ 200 mil e depositou em juízo. Cabe à Justiça definir quando e como esse recurso será distribuído.
Por fim, a Backer reafirma que irá honrar com todas as suas responsabilidades junto à Justiça, às vítimas e aos consumidores.”

Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.