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App febre nos EUA gera experiências ‘bizarras’ e apavora adolescentes

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Imagine mentalizar um problema, dar alguns cliques no celular e ser direcionado a um lugar que trará todas as soluções. É isso que promete um aplicativo que virou febre entre adolescentes dos Estados Unidos nos últimos dias. O Randonautica oferece endereços completamente aleatórios para cada usuário que, caso decida viajar até o local sugerido, deverá encontrar aquilo que desejava no momento que se cadastrou no app – mesmo que ainda não saiba exatamente o que é.

Ao pesquisar sobre o aplicativo, a seguinte descrição: Randonautica coloca o usuário na cabeça do diretor de uma história de aventura que ainda não foi escrita. Ao usar o aplicativo, o usuário pode romper com sua vida cotidiana e fazer uma jornada de sorte no mundo ao seu redor.

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Funciona assim: você pensa em uma dúvida, questionamento ou algo que deseja atrair, preenche alguns requisitos e o aplicativo, com base em um sistema que capta flutuações no vácuo, gera coordenadas de alta energia de algum local próximo e sugere a viagem. A ideia é “descobrir ‘sincronicidades’, coincidências ou ocorrências fora dos padrões usuais de experiência” e explorar as relações entre o poder da mente e o das máquinas.

As coordenadas são geradas por um programa da Universidade Nacional da Austrália, que busca anomalias no espaço geográfico, e cruzadas com a localização de cada usuário para fornecer um local aleatório próximo que corresponda às energias emanadas pelo usuário. E a subjetividade da interação tem intrigado cada vez mais pessoas: quanto mais popular o aplicativo fica, mais relatos de experiências “bizarras” e assustadoras surgem na internet.

Apesar de ser intrigante, o app oferece uma série de riscos para os usuários, especialmente os mais jovens, e se isenta da responsabilidade de todos eles. É que a parte de termos e condições de uso – aquela que quase ninguém lê – define que o aplicativo pode usar todos os dados fornecidos pelo usuário, que não pode voltar atrás em nenhuma resposta e não pode responsabilizar o app por nenhum incidente (veja no fim da matéria).

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Restos mortais, cemitério e ‘trauma’

Um dos casos mais populares de pessoas que se surpreenderam com o uso do app foi de um grupo de adolescentes de Seattle, nos Estados Unidos. Eles foram até o local indicado pelo Randonautica, em uma praia da cidade, e encontraram uma mala. A princípio, acreditavam que estava cheia de dinheiro, mas, por causa do cheiro forte que saía do pacote, decidiram chamar a polícia.

Mais tarde, as autoridades confirmaram que dentro da mala havia um corpo humano esquartejado e que, no mesmo local, foram encontradas diversas outras bolsas com restos mortais. Uma das adolescentes gravou toda a experiência, desde a diversão inicial até os momentos tensos de contato com a polícia, e publicou com a legenda: “Algo traumático aconteceu e mudou a minha vida”.

@ughhenry

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♬ Creepy, scary, horror, synth, tension – Sound Production Gin

Assim como o caso dos jovens de Seattle, que soma milhões de visualizações em apenas dois dias, a internet foi tomada por relatos de outras experiências bizarras relacionadas ao aplicativo. Um usuário relatou ter sido enviado para um cemitério onde um parente do qual ele não tinha conhecimento estava enterrado e vários outros relataram problemas como carro estragado e telefones com defeito assim que chegaram aos locais indicados.

Outro usuário, que estava sem trabalho há dois meses e mentalizou “próximos passos” ao se inscrever no app, foi enviado para uma agência que ajuda a conectar desempregados a empresas em busca de funcionários. Um terceiro pediu por “algo legal”, que mostrasse que o aplicativo não era uma perda de tempo, e recebeu as coordenadas da casa de um homem que escreveu o primeiro dicionário da cidade.

Relatos parecidos, desde os mais intrigantes até os mais assustadores, inundam as redes sociais dos estadunidenses e mostram que o Randonautica, apesar que incentivar saídas aleatórias ao ar livre, é a nova febre do isolamento social.

‘Não têm amor à vida’

No Brasil, o app ainda não conquistou multidões, mas já tem deixado uma pulga atrás da orelha de muita gente. Os relatos das pessoas que estão curiosas com o aplicativo dividem espaço com aqueles que viram a repercussão internacional e acreditam que tudo não passa de uma grande besteira.

“Baixei o Randonautica e a parada me deu uma localização no meio de um matagal… Agora me assustei”, publicou um usuário. Uma segunda também não gostou muito do resultado: “Fomos fazer o teste do Randonautica e deu no cemitério”.

O único ponto em que a maioria dos brasileiros que já descobriu a existência do aplicativo parece concordar é o medo. Já cientes dos relatos de usuários de outros países, muitos não têm coragem de baixar o app e outros, movidos pela curiosidade, acabam baixando, fazendo a tarefa recomendada e se assustando com o destino indicado.

“Eu me odeio, mas não a ponto de procurar lugares sinistros pra ir, ainda mais aqui no Brasil que você já se lasca sem procurar, imagine procurando”, disse uma internauta. “Sai pra lá Randonautica… Porém muito curiosa com os pontos que apareceram para mim”, publicou uma segunda.

Todo cuidado é pouco

O próprio criador do aplicativo já explicou que, apesar de incentivar que os usuários estejam abertos a novas experiências, o Randonautica não consegue criá-las. “É aleatório, pode ser qualquer coisa. Pode ser algo muito interessante, da mesma forma que pode não ser nada”, disse em um vídeo de divulgação do app.

No entanto, ele não descarta a veracidade das supostas experiências “sobrenaturais”: “Ele envolve energia? Sim, envolve intenção. Definir suas intenções não é algo que você faz no app, mas faz na sua mente. Você usa suas habilidades mentais para focar no resultado que quer alcançar e essa intenção afeta a distribuição do número aleatório e te leva onde você quer ir”.

O que o desenvolvedor do app não conta nos vídeos de divulgação do serviço é que a aba de termos e condições – que o usuário precisa aceitar antes de utilizar qualquer parte do aplicativo – estabelece uma série de critérios rígidos e pouco receptivos em caso de problemas. Entre as definições estabelecidas pelos criadores do Randonautica, se destacam a faixa etária, o uso de dados e a responsabilização quase total do cliente.

Faixa etária

O aplicativo deixa explícito que o uso é proibido para menores de 18 anos – a menos que tenham autorização formal de um responsável – , o que é preocupante visto que os adolescentes são os que mais se atraem pelas “aventuras”. “O Randonautica declina qualquer responsabilidade relativa a qualquer conduta de uma pessoa com menos de 18 anos, com um sem a permissão de um pai”, declara o documento.

Isenta de responsabilidade

A empresa também deixa claro que se isenta de responsabilidade de quaisquer incidentes ocorridos durante o uso do app por maiores de idade, ponto que é reforçado diversas vezes durante o documento, já que se trata de um aplicativo que prevê a circulação em locais aleatórios, que podem ser perigosos e até mesmo proibidos.

O Randonautica recomenda que não se deve invadir ou ultrapassar propriedade privada ou viajar para locais que ofereçam riscos à saúde ou que pareçam perigosos: “Depois que as coordenadas de localização são fornecidas, a Randonautica não é responsável e não se responsabiliza pela experiência subjetiva do usuário na jornada para o destino. O usuário concorda que explorar locais desconhecidos é feito por sua conta e risco”.

O documento com 21 parágrafos dedica quase metade a explicar que apenas fornece uma localização, mas não se responsabiliza pelo que acontece quando o cliente chega até lá: “É um jogo de aventura e de criar a sua própria realidade, o que significa que seu envolvimento com o ambiente é baseado inteiramente em sua experiência como usuário e não é, de forma alguma, responsabilidade da Randonautica”.

Privacidade

É importante notar que, para participar da brincadeira, o usuário precisa entregar dados como sua localização para que o aplicativo funcione. Uma vez feito isso, os termos de uso preveem as informações fornecidas podem ser usadas pela empresa desde que haja base legal e o usuário não pode solicitar a remoção da localização dos relatórios do aplicativo.

Ao disponibilizar qualquer conteúdo no aplicativo, o usuário automaticamente concede uma licença global, perpétua e isenta de direitos autorais para que o aplicativo possa “usar, copiar, modificar, criar trabalhos derivados, exibir publicamente, executar publicamente, comercializar, promover e distribuir seu Conteúdo de Usuário”.

Além dos direitos citados acima, ao aceitar os termos e condições, o usuário permite que o Randonautica se beneficie livremente dos direitos de “reproduzir conteúdo do usuário por qualquer meio e sob qualquer forma” e de usar o conteúdo para “demonstração, promoção e publicidade para todos os serviços e mídias sociais”, entre outros.

Giovanna Fávero

Giovanna Fávero

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.

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