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Casos de Covid-19 em BH explodem após flexibilização do comércio

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Com Cristiano Martins, do Coronavirus-MG.com.br

O registro de casos confirmados de Covid-19 em Belo Horizonte explodiu após o início da flexibilização do comércio na cidade, no dia 25 de maio. A média de ocorrências diárias saltou de 20, anotada naquela data, para 47, registrada em boletim divulgado nesta quarta-feira (24) pela SES-MG (Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais). Especialistas ouvidos pelo BHAZ são unânimes: a capital mineira precisa restringir o movimento urgentemente, preferencialmente através de um lockdown.

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Outro dado reforça a aceleração de casos confirmados do novo coronavírus em BH: no ranking dos 20 dias com maior quantidade de ocorrências, apenas um é anterior ao início da flexibilização do comércio – 4 de maio. As principais datas são segunda-feira (25), com 345 confirmações; o último dia 10, 283; e terça-feira (24), 239.

Se é impossível – e incorreto – atribuir todos os casos após dia 25 de maio à flexibilização do comércio (leia mais abaixo), a influência dessa reabertura gradual é inquestionável, conforme estudiosos ouvidos pela reportagem. “Houve o aumento da circulação de pessoas e, consequentemente, o aumento do contágio, não achatando a curva, muito pelo contrário”, analisa o médico infectologista Leandro Curi.

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Salto

O gráfico dos casos confirmados – acumulados – de Covid-19 em Belo Horizonte deixa evidente a mudança da curva após a flexibilização do comércio. O primeiro traço pontilhado vermelho, na vertical, mostra a data da primeira onda de flexibilização, no dia 25 de maio. O segundo pontua a segunda onda, duas semanas depois, no último dia 9 (relembre aqui).

A linha azul representa a evolução dos casos confirmados dia a dia (considerando o valor acumulativo), segundo os boletins da SES-MG. Já a linha amarela é uma projeção caso a média registrada no dia 25 de maio se mantivesse. Importante ressaltar que essa é uma projeção meramente ilustrativa e considerada otimista.

“Está ficando mais íngreme o ângulo da curva, isso significa que os casos estão crescendo de maneira acelerada. Significa ainda que o vírus está circulando mais e em uma velocidade de transmissão e infecção maior. Ou seja, o contato das pessoas está sendo maior e isso está refletindo no aumento de testes positivos”, explica Curi. “Se a ideia era frear o crescimento da infecção, o gráfico mostra que isso não aconteceu”.

“Foi uma abertura no momento em que se observava um aumento do número de casos”, afirma o professor de estatística da UFMG Luiz Henrique Duczmal, responsável por estudo repercutido internacionalmente que mostrava a ineficiência do isolamento vertical. O estudioso também previu, no fim de abril, que um relaxamento naquele momento prejudicaria todo o esforço feito até então (relembre aqui).

Os estudiosos não têm dúvida ao apontar a influência da flexibilização do comércio na aceleração do contágio. Ambos ponderaram, apenas, que a acentuação da curva poderia ser influenciada caso o número de testes tivesse aumentado também. Mas a hipótese foi descartada pelo secretário de Saúde da capital mineira, Jackson Machado, em coletiva na sexta-feira passada ao informar que, desde o início da pandemia, a gestão realizou aproximadamente 100 testes diários.

Reabertura do comércio aumentou circulação de pessoas pela cidade (Amanda Dias/BHAZ)

Solução = lockdown

Nesta semana, a capital mineira alcançou o recorde na taxa de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva): 85% no total – 84% para os leitos reservados para Covid-19 e 86% para não-Covid (leia mais aqui). O número foi registrado no último domingo (21), mas atualização da PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) publicada hoje mostra o mesmo índice de 84% de ocupação dos leitos de UTI para o novo coronavírus.

Os especialistas concordam sobre a solução para brecar essa aceleração: lockdown (saiba mais sobre o conceito aqui). “É preciso reforçar o isolamento o mais rápido possível. Um lockdown seria a maneira mais efetiva de se fazer isso. Caso contrário, podemos ver aqui algo semelhante a Manaus ou Rio de Janeiro, onde a situação saiu completamente do controle”, analisa Duczmal.

“Em um contexto com déficit de leitos, déficit enorme de exames, déficit de profissionais da saúde e medicamentos, o isolamento é o que se tem. Vale lembrar que ainda não temos vacina, não temos imunidade, não temos fármacos com ação comprovada contra o vírus. Se continuar assim, é algo preocupante e não vejo melhoras para as próximas semanas”, afirma o infectologista Leandro Curi.

População irresponsável

Mesmo com o evidente crescimento da curva, a PBH decidiu, na última sexta-feira (19), manter a segunda onda de flexibilização do comércio em vigor para esta semana – conforme a própria gestão, o regime reativa 92% dos empregos da cidade. Apesar da decisão, que rendeu críticas de especialistas e do Governo de Minas, Curi alerta para a postura da população belo-horizontina.

“Flexibilização significa que o poder público está dando uma chance à economia, ao ritmo da cidade e, logo, passando a bola para a população assumir sua parcela de responsabilidade. Exigindo a adoção de máscaras, o distanciamento, só sair em caso de necessidade, higienização de mãos, de superfície etc”, afirma o infectologista.

Parte da população ignora a máscara ou deixa o acessório no queixo (Amanda Dias/BHAZ)

‘No escuro’

O gráfico evidencia uma aceleração no número de casos confirmados a partir do dia 25 de maio. Mas as conclusões a partir desse retrato são limitadas justamente pela política adotada pelo poder público, tanto em relação ao número de testes quanto à transparência dos dados.

“Temos adotado no Estado uma política de só testar quem apresenta sintomas ou mortos. Isso é uma ação burra, pois não mostra a realidade da doença. Como vamos tomar medidas de reabertura, se não sabemos de fato em que ponto está a doença?”, afirma o professor de estatística da UFMG Luiz Henrique Duczmal.

Pandemia avança em Belo Horizonte (Amanda Dias/BHAZ)

“Começamos a perder a noção do número exato e a estimativa de infectados não reportados. Hoje estamos no escuro, não sabemos quantos casos realmente existem”, complementa o professor. A PBH, por exemplo, não adotou um boletim padronizado com publicização do número exato de testes feitos diariamente, do dia da notificação da doença (diferente da data da confirmação), do local exato de moradia do contaminado, entre outros pontos relevantes para a definição de políticas públicas e transparência.

Além disso, é essencial observar a demora natural para que um caso seja contabilizado pelo poder público. “Uma pessoa que acabou se infectar demora cinco dias, em média, para apresentar sintomas. Dentro dessa projeção também, essa mesma pessoa deve procurar o hospital em até 10 dias. Por fim, até que essa vítima venha a óbito ou se cure, esse período pode chegar a até 19 dias”, explica Duczmal.

O Governo de Minas, por exemplo, afirma que os dados dos boletins possuem um atraso de 14 dias – tempo estimado para todo o processo citado pelo professor da UFMG, que conta ainda com a possível demora da notificação da prefeitura ao Estado.

Rafael D'Oliveira

Rafael D'Oliveira

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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