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Dentista pede que paciente vista sacos de lixo durante cirurgia

dentista veste mulher com sacos de lixo

“Eu nem tive reação. Quando eu vesti aquele saco de lixo as lágrimas desceram na mesma hora”. É assim que Cristiane Boneta relembra o momento em que um dentista pediu que ela se vestisse com sacos de lixo para fazer uma cirurgia em uma clínica odontológica em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Ela denunciou o caso, que aconteceu nessa quarta-feira (24), nas redes sociais e recebeu o apoio de milhares de pessoas revoltadas com a conduta do profissional.

Cristiane foi à clínica, na quarta-feira, para fazer a segunda etapa de um tratamento que teve início em março e precisou ser interrompido por causa da pandemia. Ela contou ao BHAZ que tudo correu normalmente da primeira vez, o que só aumentou o susto quando viu os sacos de lixo na segunda consulta. “Faltava só isso para tirar o aparelho e dessa vez eu fui surpreendida com várias sacolas de lixo. Quando eu cheguei e tirei o sapato, eu fui ao banheiro lavar as mãos e foi quando a auxiliar do dentista veio com as sacolas”, conta.

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A esteticista de 28 anos lembra que, nesse momento, sofreu um baque tão grande que nem conseguiu terminar de se “vestir” com as sacolas sozinha: “Eu coloquei por cima da roupa e ela disse que meu cabelo era muito volumoso, que não caberia na touca. Aí ela pegou e foi colocando na minha cabeça, eu não estava acredito que isso realmente estava acontecendo”.

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CARTA ABERTA . Meu nome é Cristiane Boneta, sou esteticista trabalho com atendimento ao público desde minha infância e com saúde a 12 anos. Ontem me submeti a segunda parte da minha cirurgia de gengiva (Gengivoplastia). Devido a todas as circustância que estamos vivendo e com foco na biossegurança o que nos assegura a integridade do profissional e do paciente a minha integridade foi bruscamente violada. Realmente não sei definir se foi racismo ou descanso, mais como profissional da saúde certo eu sei que nao está. Escrevo esta carta aberta devido a grande repercussão que este caso está tendo, eu realmente não imaginava tamanha proporção de pessoas do Brasil e fora Brasil, não estou aqui para aparecer minha forma de me expor é outra, e o meu trabalho fala por mim, mas em respeito a toda solidariedade e apoio eu não posso me calar . Então ontem para fazer o procedimento da cirugia eu tive que vestir SACOS DE LIXO na cabeça (segunda a auxiliar: meu cabelo é muito grande e a touca não comporta ) e no corpo para proteger o profissional que iria me atender. Em um ato de desespero e a única arma que eu tenho é o celular eu comecei a registrar tudo, porque se eu simplesmente te contasse você não iria acreditar, me sentir muito constrangida com a situação e não parava de chorar em todo os procedimento não por causa do procedimento mas por causa da situação que ali se passava. Ao entrar no Consutorio eu questionei com o dentista sobre o saco de lixo e a reposta dele é que o saco estava limpo. Como precisava muito finalizar essa cirurgia eu acabei me submetendo a essa situação. Não tive forças para dizer não e não tive forças para sair dali. Mas consegui registrar boa parte do que aconteceu. Quando acontece com agente é sempre mais complicado de reagir. É muito estranho um profissional fica dizendo aos quatro cantos que tem 37 anos de profissão e não conhecer as normas básicas de biossegurança, até para alguns resíduos especiais existe saco plástico específico para armazenamento. Nas fotos segue o CRO do mesmo (para quem tinha pedido) Quero agradecer imenso carinho de todos e vou deixar os vídeos e fotos para que vocês então melhor.

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‘Minha filha, o saco tá limpo’

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Depois do impacto inicial, Cristiane ainda tentou reagir. Como também trabalha na área da saúde, ela sabia, por experiência, que esse tipo de prática é incorreta e resolveu questionar o dentista. “Quando terminou o procedimento, eu fui fazer o pagamento, porque eu não queria mais ter contato com ele. Eu já tinha conversado com ele rapidamente, mas depois resolvi falar de novo e registrar. Falei que a conduta era errada, que saco de lixo não é EPI [Equipamento de Proteção Individual] e tudo mais…”

Mas nada disso adiantou. Diante dos questionamentos da paciente, o dentista sustentou a decisão – que a auxiliar caracterizou como “prática comum” do consultório – de vestir os pacientes em sacos de lixo. “Ele respondeu ‘minha filha, é só um saco, o saco tá limpo’. Aí eu falei que a vigilância sanitária poderia até fechar a clínica dele por causa dessa prática e ele respondeu ‘você acha? Mas foi só um plástico, não foi nada demais'”, lembra Cristiane.

Sabendo que muita gente não acreditaria no absurdo da situação sem provas, ela decidiu fazer fotos dentro do consultório e gravar parte da conversa com o dentista. Os registros foram publicados em sua conta no Instagram, junto com uma carta aberta em que ela detalha a situação. O material causou revolta diante da atitude desrespeitosa. “O que mais me indigna é ele tentando retrucar. Na saúde, a gente trabalha anatomia, fisiologia, biossegurança. São pilares básicos de quem tá iniciando uma faculdade da área, então ele está precisando fazer uma reciclagem”, disse ao BHAZ.

‘Você tá de sacanagem?’

A indignação foi ainda maior entre os familiares de Cristiane quando viram os registros do que ela havia passado na consulta. “Nem o meu marido acreditou quando eu falei. Ele perguntou ‘você tá de sacanagem?’, achou que era brincadeira”, lembra. Ela conta que, quando postou a foto, chegou a receber ligações de amigas a aconselhando excluir a publicação e dizendo que as fotos poderiam ser constrangedoras, já que ela trabalha com a imagem em palestras e publicações nas redes sociais.

Cristiane pagou R$ 1.600 pelo procedimento e precisou passar mais de três horas com sacos de lixo enrolados no corpo e no cabelo. Diante da repercussão do caso, chegou a ser procurada pelos donos da clínica, que se desculparam e pediram para que ela não tornasse o caso público. Mas o as desculpas e o pedido para vestir sacos de lixo têm pesos muito diferentes e, para ela, o primeiro não é suficiente para apagar o que sentiu com o segundo: “Eu lembro que fiquei indignada, mas estava paralisada, nem tive reação. Fiquei pensando se realmente era verdade”.

O BHAZ procurou a clínica responsável pelo procedimento de Cristiane, mas não conseguiu contato.

Giovanna Fávero

Giovanna Fávero

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.

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