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Transexuais e travestis são mais vulneráveis à pandemia da Covid-19

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Do coletivo #VoteLGBT

A partir da aplicação de pesquisa online com participação de dez mil pessoas em todos os estados brasileiros, o coletivo #VoteLGBT desenvolveu um índice inédito que consegue medir a vulnerabilidade LGBT à Covid-19. Após análise de dados envolvendo acesso a serviços de saúde, exposição ao coronavírus e informações sobre renda e trabalho, foi possível aos pesquisadores estruturar todas essas camadas de desigualdades e compreender seus desdobramentos em cada um dos representantes da sigla LGBT+ (veja mais abaixo). O resultado demonstra que as transexuais e travestis são as mais vulneráveis aos impactos do isolamento social, seguidas pelas pessoas pretas, pardas e indígenas.

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O grupo da população bissexual aparece como terceiro mais em risco, e todos esses aparecem na faixa de vulnerabilidade considerada grave.

Um dos resultados alcançados pelo mapeamento foi identificar os contrastes nas diversas fases das vidas LGBT+. “Se na adolescência essas dificuldades de comunicação de identidade são permeadas pela falta de independência financeira, na fase adulta questões de saúde mental são combinadas com ausência de trabalho e renda. Já nas idades mais avançadas, a solidão aparece como um dos maiores desafios”, resume Samuel Silva, demógrafo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que participou do trabalho.

Entenda o índice de vulnerabilidade

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Como a pandemia de coronavírus pode impactar as vidas das pessoas LGBT+ de formas múltiplas e cumulativas, os pesquisadores conseguiram traçar marcadores que envolvem cruzamento de dados sobre acesso à saúde, trabalho, renda e exposição ao risco de infecção ao coronavírus. Analisados em conjunto, esses fatores contribuem no entendimento sobre a capacidade das pessoas em se sustentar e se manter em isolamento social. 

Os pesquisadores também perguntaram os respondentes a respeito do nível de isolamento social praticado, o número de pessoas conhecidas que já foram diagnosticadas com coronavírus, o acesso aos serviços de saúde e diagnóstico prévio de comorbidades. Avaliadas em conjunto, todas essas características possibilitaram o desenvolvimento do índice de Vulnerabilidade de LGBT+ ao COVID-19 (o VLC), que nos informa as diferenças de risco e impactos do coronavírus entre pessoas LGBT+, utilizando da mesma metodologia do índice de vulnerabilidade social do IPEA. 

O VLC é um índice que varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo a 1, maior a vulnerabilidade ao Covid19 do grupo analisado.

Como funciona o Índice de Vulnerabilidade (coletivo #VoteLGBT / Reprodução)

Em linhas gerais, o índice de vulnerabilidade apresenta três principais dimensões que podem ser observadas de maneira separada ou através do índice sintético.  

Veja o Índice de Vulnerabilidade (coletivo #VoteLGBT / Reprodução)

Os resultados encontrados no índice apontam que a população LGBT+ se encontra em um nível de vulnerabilidade alta, segundo as dimensões de renda e trabalho, exposição ao risco de Covid-19 e saúde. Mas as desigualdades encontradas dentro do grupo LGBT+ são ainda mais preocupantes. Três grupos aparecem na faixa considerada grave. São eles os das pessoas trans, das bissexuais e das pretas, pardas ou indígenas. Se avaliado somente o critério que relaciona a exposição ao risco, todos os grupos apresentam alta vulnerabilidade. 

A dimensão de renda e trabalho foi a que apresentou maior pulverização dos LGBT+ entre as faixas de vulnerabilidade, o que torna as desigualdades mais latentes. Enquanto pessoas cisgênero, em especial homens cis, gays, pessoas brancas e asiáticas estão em vulnerabilidade baixa, pessoas trans, mulheres cis, pessoas pretas, pardas e indígenas, lésbicas e bissexuais apresentam vulnerabilidade média. 

Desta forma, o índice de vulnerabilidade consegue materializar e alinhavar as diversas desigualdades que marcam as vivências da população LGBT+ em toda sua diversidade, algo que sempre foi defendido pelos movimentos sociais. Os diferenciais de identidade de gênero, raça/cor e identidade sexual aprofundam a condição de vulnerabilidade, que já é alta entre o grupo, como explica Fernanda De Lena, demógrafa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que integra o #VoteLGBT. “A ideia é sintetizar diversas dimensões relacionadas a vulnerabilidade dessa população em um único índice que pode ser comparável entre as várias identidades que interseccionam nossa comunidade”, acrescenta.

Outras conclusões da pesquisa

  • Pessoas acima dos 55 anos apresentaram 80% mais de chance de reportar solidão como o maior problema quando comparados com as pessoas de 15 a 24 anos.
  • A falta de dinheiro também foi um problema que aumentou sua relevância com o aumento da idade. Entre as pessoas com 45 a 54 anos, a chance de indicar essa como a maior dificuldade da quarentena foi 70% maior em relação às pessoas com entre 15 e 24 anos;
  • Pretos, pardos e indígenas possuem 22% mais chance de indicar a falta de dinheiro como a maior dificuldade da quarentena do que Brancos e Asiáticos 
  • Quatro em cada 10 pessoas das pessoas LGBT+ e metade das pessoas trans (53%) não conseguem sobreviver sem renda por mais de 1 mês caso percam sua fonte de renda;
  • Quase metade (44,3%) das pessoas tiveram tiveram suas atividades totalmente paralisadas durante o isolamento;
  • A taxa de desemprego padronizada entre os LGBT+  foi de 21,6%, quase o dobro do registrado pelo IBGE no restante da população;
  • Três em cada 10 dos desempregados estão sem trabalho há 1 ano ou mais;
  • Um em cada 4 (24%) perderam emprego em razão da Covid19;
  • Durante a quarentena, 7 em cada 10 pessoas (68,42%) só saem de casa quando inevitável;
  • Oito em cada 10 pessoas perceberam uma alteração de humor durante a quarentena; 
  • 28% das pessoas já haviam recebido diagnóstico prévio de depressão, número quatro vezes maior do registrado no restante da população, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde.
  • 47% foram classificadas com o risco depressão no nível mais severo.

Como ajudar as LGBT+?

Como ação efetiva pensada para minimizar impactos do isolamento social durante a pandemia, o #VoteLGBT lança uma campanha que visa arrecadar fundos para apoio de entidades que prestam ações de amparo à comunidade LGBT+. Em parceria com a plataforma Benfeitoria, que está ampliando sua atuação no segmento LGBT, a iniciativa vai apoiar instituições em várias cidades brasileiras, entre elas Casa Satine (Campo Grande, MS), Outra Casa Coletiva (Fortaleza, CE), Casamiga (Manaus, AM), Ultra (Brasília, DF), Liga Brasileira de Lésbicas (Curitiba, PR) e Casa 1 (São Paulo, SP). As informações completas da campanha estarão disponíveis a partir de domingo (28) aqui.

Enquanto a propagação de políticas públicas voltadas à população LGBT+ anda a passos lentos no Brasil, pensar em ações que sejam mais urgentes é uma das preocupações do coletivo de ativistas. “Nesse momento em que a gente dá visibilidade às notícias avassaladoras sobre o impacto desigual da pandemia sobre nossa comunidade, é importante canalizar essa atenção às iniciativas que estão agindo diretamente para ajudar as LGBTs mais vulneráveis. Fizemos a parceria com a plataforma Benfeitoria para potencializar esse trabalho tão importante que tem sido feito lá na ponta”, avalia Gui Mohallem, um dos membros do #VoteLGBT.

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