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Mulher trans se reconhece em novela e passa por transição aos 60 anos

Transição genero aos 60 anos

“Não tenho vergonha de nada, vou ter vergonha do quê? Eu sou transgênero. Eu nasci uma menina dentro do corpo do José”. É assim que Ana Carolina Apocalypse, de 62 anos, fala de si mesma, com naturalidade e bom humor. A motorista, de São Paulo, chamou a atenção na web após compartilhar sua mudança nos últimos anos.

No processo de adequar o corpo ao que sente, Ana acabou ganhando mais de 40 mil seguidores no Twitter e 16 mil no Instagram. Ao BHAZ, ela conta que as mudanças no corpo são recentes, mas a identificação com o gênero feminino vem desde o nascimento. “Eu coloquei os seios porque, na minha cabeça, eu sou menina. Você está olhando para uma mulher, se você me ver como homem, não vai dar certo”, afirma.

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Uma das grandes conquistas foi a cirurgia para colocar os seios (Ana Carolina Apocalypse/Arquivo Pessoal)

Nas redes sociais, Ana recebe o apoio e o carinho dos seguidores e compartilha a rotina com simplicidade e bom humor. Apesar dos milhares de seguidores, ela garante que não se deslumbra com a fama. “Minha vida é muito simplesinha. Se eu tiver com 100 mil, 1 milhão, vou continuar sendo a mesma. Seguidor me dá fama, fico glamourosa, conhecida, mas não ganho 10 centavos”, brinca.

Novela como inspiração

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Uma das inspirações para que Ana Carolina adequar sua aparência à sua certeza foi a personagem de Carol Duarte, na novela A Força do Querer, da Rede Globo. Na trama, a jovem Ivana Garcia passa por um processo de descoberta como trans. “Em 2017, eu me inspirei na Carol Duarte e fui entender a nomenclatura transgênero”, relata.

Para Ana, a visibilidade de pessoas trans na mídia é importante para ajudar a todos que passam por isso. “A Carol fez aquela personagem: a Ivana, que o Ivan estava dentro dela. Assim como a Ana estava dentro de mim. Apareceu também a filha da Gretchen, com barba, perna peluda. De 2017 para cá, além de ter me ajudado, eu sei que ela projetou muita gente”, comenta.

“Eu nunca me vi na possibilidade de homossexual. Eu ficava olhando essas pessoas. Eu pensava: ‘sou diferente’. Eu sempre me senti uma menina. Cada um se coloca na sua projeção. Eu me projetava como José, mas estou muito realizada dentro do meu tempo”, acrescenta.

‘Sempre fui feliz’

Ana conta que recebe o apoio de sua família em todas suas decisões, que são tomadas com muita naturalidade. E mesmo sem projetar seu gênero feminino ao longo da vida, ela garante que isso não a fez infeliz. “Cresci um menino normal com a Ana Carolina guardadinha dentro de mim. Eu sempre fui muito feliz. Eu não era infeliz, eu sou uma palhaça, durmo rindo e acordo rindo, pareço uma hiena”, comenta.

“Quando eu tinha 12 anos, eu já me sentia menina, na adolescência, sempre fui um menino introvertido. Mas nem celular tinha, eu não tinha conhecimento. Eu cresci, fiquei 17 anos em um casamento com uma mulher, tive uma filha. Eu tive uma vida normal de um homem, mas sempre com a Ana dentro de mim. Meu casamento era mais um capricho da sociedade. Me divorciei em 2005 e fui me projetar de 2017 para cá”, relata.

Vivendo como homem, Ana chegou a ficar casada com uma mulher por 17 anos e ter uma filha (Ana Carolina Apocalypse/Arquivo Pessoal)

“Eu tive uma vida muito boa. Mas se eu tivesse nascido antes, talvez eu estaria morta. Seria agredida na rua, ou teria aids. Não sou exemplo, não sou inspiração. Você quer se projetar com seus 20 e poucos, pode se projetar. Mas a sociedade não saca”, lamenta.

Respeito e dignidade

Para Ana, os comentários maldosos que aparecem nas redes sociais não merecem nem mesmo a sua atenção. “Eu simplesmente bloqueio a pessoa. Não sou essa pessoa que gosta de retrucar. Eu li alguns, mas prefiro dar o desprezo, não responder. Esse tipo de atitude é coisa de criança”, comenta.

Fora das redes sociais, a motorista, que entrega encomendas para uma empresa, valoriza sua rotina de trabalho. Para ela, o importante é manter a dignidade e o respeito. “Eu não vou ficar arrumando encrenca. Tenho tanta coisa na minha vida, tenho que trabalhar, tenho que fazer minhas coisas”, afirma.

(Ana Carolina Apocalypse/Arquivo Pessoal)

Aos mais jovens, Ana deixa um conselho. “Eu sou totalmente aberta, quem quiser falar de mim, pode falar. Mas pra quem é novo, isso dói, a pessoa chora. Se for tocada para fora de casa, a pessoa vai se acabando. Por isso, gente, estudem! O estudo é o melhor caminho”, conclui.

Guilherme Gurgel

Guilherme Gurgel

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco nas editorias de Cidades e Variedades no BHAZ.

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