Alunos de baixa renda da UFMG não têm computadores para aulas on-line

ufmg reitoria fachada
Fachada da reitoria da UFMG (Amanda Dias/BHAZ)

Atualizado às 10h05 do dia 05/08/2020 para incluir o posicionamento da UFMG

As aulas da UFMG voltaram de maneira remota, por conta da pandemia do novo coronavírus, nessa segunda-feira (3). Contudo, nem todos os alunos têm computadores para poder participar do novo método de ensino adotado pela universidade. De acordo com o Coletivo de Fumpistas, são 2.400 estudantes de baixa renda que precisam dos equipamentos e dinheiro para pagar internet.

Ao BHAZ, Sara Soares de Barcelo, estudante de Relações Econômicas Internacionais e membro do coletivo, disse que os estudantes de baixa renda ainda não começaram a assistir às aulas por falta de computadores.

“Quando começou a pandemia, a UFMG foi uma das primeiras a suspender as aulas, e isso foi importante para pressionar outros setores. Sabemos que o único remédio eficaz, por enquanto, é o isolamento social. Agora, o problema são os computadores para estudar”, explica.

Verba liberada, mas insuficiente

Após muita batalha, os estudantes conseguiram uma verba de R$ 1,5 mil para comprar os notebooks e mais R$ 100 mensais para pagar internet. Os recursos foram conseguidos via Fump (Fundação Universitária Mendes Pimentel), de assistência estudantil, mas não são o suficiente.

“Acontece que, no mercado mesmo, não existe um computador que tenha qualidade e contemple as exigências para aulas à distância. Todos estão acima de R$ 2 mil. Com isso, estamos buscando ajuda de grandes empresas”, explica.

“É um movimento dos estudantes de baixa renda da UFMG. Estamos buscando parcerias por meio de empresas para aquisição desses notebooks. Criamos um formulário on-line e mais de 500 estudantes já se cadastraram. Muitos não têm condição de pagar essa diferença ou mesmo parcelar”, explica Sara.

Ela ainda relata que a questão do frete é um problema. “Precisamos de parceiros que nos isentem do frete ou façam um preço acessível. Tem estudante que mora no interior de Minas, outros em BH, mas também têm aqueles casos de alunos na região Norte do Brasil, em localidades distantes. As aulas já começaram”, continua.

Parceria com a Dell

“Fechamos uma proposta com a Dell de um determinado valor, mas que ainda sim é superior a R$ 1,5 mil. A gente defende que o auxílio deveria ser maior, pois esse da margem de exclusão e não queremos isso. Não queremos que nenhum estudante fique para trás. Porém, entendemos que isso tem uma relação direta com a ausência, ineficiência e irresponsabilidade do MEC (Ministério da Educação) no processo de investimento necessário na educação para lidar com os problemas da pandemia”, desabafa.

Para a estudante, é uma questão antiga, de acesso digital, que piorou ainda mais por conta da pandemia. “Estamos falando de perspectiva de futuro dos estudantes, sonhos. É uma questão muito preocupante, que pode gerar uma evasão universidade”, completa.

O BHAZ entrou em contato com a assessoria de imprensa da UFMG para questionar o valor destinado aos alunos. Até o momento da publicação desta matéria, a universidade ainda não havia se posicionado oficialmente. Tão logo se manifeste, esta reportagem será atualizada.

UFMG diz que R$ 1,3 mil é suficiente

Por meio de nota enviada ao BHAZ (leia abaixo na íntegra), a UFMG informou que está prestando auxílio aos estudantes, e que o valor destinado é o suficiente. “A UFMG produziu uma nota técnica especificando configurações mínimas para o equipamento que os estudantes deveriam adquirir. Em pesquisa ao mercado realizada pela UFMG em junho de 2020, esses equipamentos especificados estavam avaliados, em média, em R$ 1,3 mil”.

Além disso, a universidade afirma que os professores estão cientes das dificuldades para a retomada remota, e que serão flexíveis. “Os professores da UFMG estão cientes de que no início da retomada podem ocorrer situações de dificuldade de acesso às plataformas digitais e estão orientados a conduzir seus planos de ensino de modo a não aprofundar as desigualdades sociais que marcam nossa sociedade”.

“A UFMG entende que a retomada de suas atividades acadêmicas por meio de ensino remoto emergencial deve se dar em um contexto de flexibilidade, solidariedade e empatia, fortalecendo os vínculos que a instituição têm com seus estudantes e combatendo a exclusão e a desigualdade”.

Transtornos no primeiro dia

Logo após o reinicio das aulas, o Twitter já se encheu de reclamações dos alunos sobre as aulas on-line e o funcionamento do sistema. O nome da universidade foi parar entre os assuntos mais comentados da rede social e a principal queixa é de que o Moodle, plataforma virtual de educação usada pela instituição, não está funcionando.

As reclamações vão desde o sistema fora do ar até barulhos de obras que podem ser ouvidos ao fundo e atrapalham as aulas, e os memes brincando com a situação também tomaram conta da internet. “Moodle da UFMG para de funcionar no suposto primeiro dia de EAD e choca um total de 0 pessoas”, escreveu um estudante no Twitter.

De acordo com a assessoria de imprensa da UFMG, o Moodle está fora do ar porque houve um acesso muito superior ao que havia sido planejado para o horário e o sistema foi sobrecarregado. A equipe de técnicos da universidade já está trabalhando para resolver o problema.

Nota da UFMG

“A UFMG garantiu, até agora, a todos os estudantes com necessidades socioeconômicas, assistidos pela Universidade que solicitaram, isto é, a mais de 2,5 mil estudantes, o valor de R$1.500, para a aquisição de notebooks. Foram atendidos estudantes de graduação, incluídos na Política de Assistência Estudantil, classificados em níveis I, II e III, além de  estudantes indígenas, quilombolas, com deficiência.

O valor para a aquisição de notebooks está sendo depositado desde a última sexta-feira (31/07) nas contas correntes dos estudantes e desde o dia 23/07 os estudantes já estavam autorizados a fazer a aquisição do equipamento. A UFMG produziu uma nota técnica especificando configurações mínimas para o equipamento que os estudantes deveriam adquirir. Em pesquisa ao mercado realizada pela UFMG em junho de 2020, esses equipamentos especificados estavam avaliados, em média, em R$ 1,3 mil.

A UFMG publicou ainda outras chamadas de sua política de inclusão digital  para a aquisição de serviços de internet, empréstimo de equipamentos. Uma segunda rodada de chamadas foi lançada  no dia 30/07, com inscrições até 09/08 para contemplar serviços de internet, empréstimo de equipamento, e atendimento específico para estudantes indígenas e quilombolas. A UFMG/Fump lançou ainda Campanha de Apadrinhamento com o objetivo de atender a um número ainda maior de estudantes.

Os professores da UFMG estão cientes de que no início da retomada podem ocorrer situações de dificuldade de acesso às plataformas digitais e estão orientados a conduzir seus planos de ensino de modo a não aprofundar as desigualdades sociais que marcam nossa sociedade. A UFMG entende que a retomada de suas atividades acadêmicas por meio de ensino remoto emergencial deve se dar em um contexto de flexibilidade, solidariedade e empatia, fortalecendo os vínculos que a instituição têm com seus estudantes e combatendo a exclusão e a desigualdade”.

Vitor Fernandes
Vitor Fernandesvitor.fernandes@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva da UOL.