Adotados por conveniência: Abandono de animais se multiplica na pandemia

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ONGs relatam dificuldades para lidar com o aumento dos pedidos de resgate durante a pandemia (Amanda Dias/BHAZ)

Quando a pandemia de Covid-19 atingiu o cotidiano do brasileiro, em meados de março, houve um “boom” na procura por animais de estimação conforme a população começou a aderir às medidas de isolamento social, passando mais tempo em casa. Cerca de quatro meses depois, o cenário mudou a ponto de o maior do problema não ser uma simples queda na procura por adoção: instituições e relatos revelam que, além da pandemia do novo coronavírus, o Brasil passa por uma “epidemia” de abandono de animais.

Os motivos para abandonar os animais variam entre a falta de dinheiro, tempo, disponibilidade ou vontade para cuidar do animal, e até mesmo o medo de que ele transmita o novo coronavírus, mas o resultado é sempre o pior: o bichinho acaba nas ruas ou é devolvido para a instituição onde foi adotado. O cenário reflete uma sobrecarga das ONGs (organizações não governamentais) que cuidam de animais em todo o país, e algumas chegam a enfrentar dificuldades que podem fazê-las fechar as portas.

Cenário crítico

Apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre o aumento no abandono de animais durante a pandemia, diferentes relatos de representantes de ONGs e alertas feitos por instituições como o CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) evidenciam a gravidade da situação. Um levantamento informal feito pela ONG Vida Animal Livre, que atua em Belo Horizonte, estima que os abandonos aumentaram em cerca de 30% na capital mineira, entre março e julho deste ano. 

Mesmo antes da pandemia, a situação já era crítica: de acordo com um levantamento do IPB (Instituto Pet Brasil), em 2019, o país tinha 3,9 milhões de animais em condição de vulnerabilidade, ou seja, aqueles que vivem sob tutela das famílias classificadas abaixo da linha de pobreza, ou que vivem nas ruas, mas recebem cuidados de pessoas. O número não engloba os animais abandonados, que costumam ficar sob cuidado das ONGs, ou seja, a dimensão do problema é ainda maior.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que, só no Brasil, existam mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em cidades de grande porte, como BH, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. Além de todos os danos causados ao animal e até à segurança e à saúde pública, as instituições ressaltam que o abandono e os maus-tratos a animais são considerados crimes, com pena de detenção de três meses a um ano, e devem ser denunciados. 

O que leva ao abandono

São várias as razões listadas por representantes de organizações para que uma pessoa abandone um animal durante a pandemia. Val Consolação, presidente da ONG Vida Animal Livre, acredita que a crise econômica enfrentada no país seja o principal deles. “As pessoas perderam os empregos, as rendas diminuíram, e acaba sobrando para os bichinhos”, conta.

Outras situações mostram que o motivo do abandono foram adoções feitas de maneira irresponsável, por “conveniência”, ainda no início da pandemia. “No final de março, 100% das pessoas estavam em casa. Várias queriam uma companhia e acabaram adotando um animal, tanto que a procura por eles dobrou em comparação ao que é visto neste período. O que acontece é que, uma hora ou outra, as pessoas voltam a sair para trabalhar, não têm mais disponibilidade para cuidar e abandonam o animal”, explica Val Consolação.

Ela ainda acrescenta que, no início da chegada do novo coronavírus no Brasil, houve um medo de que os animais pudessem transmitir a doença. Val acredita que, após muita divulgação de informação por parte das ONGs, de especialistas e da imprensa, ficou mais claro que os animais não transmitem a Covid-19 e ela não enxerga mais esse temor como um motivo atual para o abandono.

Até o momento, a OMS afirma que não há evidência significativa de que animais de estimação transmitam o novo coronavírus. Ainda assim, o CFMV orienta que pessoas infectadas evitem o contato com seus cães e gatos. Segundo o órgão, o tutor infectado, ao espirrar ou tossir, poderá espalhar partículas com vírus na pelagem do animal, o que pode causar a transmissão caso outra pessoa toque no pelo. Há relatos raros, fora do Brasil, em que se suspeita de que animais tenham sido contaminados pelos próprios tutores, mas não há riscos de que o contrário aconteça.

Sobrecarga

O aumento do abandono dos bichinhos de estimação causa uma sobrecarga direta nos voluntários que trabalham com a proteção de animais no Brasil. Só nesta semana a ONG GARRA Animal (Grupo de Ação, Resgate e Reabilitação Animal), que atua no Rio de Janeiro, já resgatou duas ninhadas diferentes, com cinco filhotes cada, de cães que tinham os cordões umbilicais amarrados em sacos de lixo, além de três outras cadelas com filhotes, abandonadas na beira da estrada.

“O número de pedidos de resgate e de socorro aumentou assustadoramente, principalmente a partir de maio, e não conseguimos atender todos. Além disso, a ajuda diminuiu muito neste período e tivemos uma queda de mais de 70% nas arrecadações., enquanto os pedidos de resgate aumentaram em mais de 80%. Estamos de mãos e pés atados, correndo o risco de fechar as portas”, conta Renata Prieto, fundadora e presidente do GARRA.

Renata também aponta para outro problema: a ONG tem recebido muitos pedidos de resgate de animais de estimação que pertenciam a pessoas que morreram em decorrência da Covid-19. Sem espaço para cuidar de tantos bichinhos, os voluntários do GARRA também fazer um trabalho de tratamento e cuidado no local onde eles vivem, conversando com a vizinhança e contando com a ajuda dos moradores ao redor para alimentarem os animais. Desta forma, eles conseguem diminuir a frequência das visitas, mas continuam acompanhando a situação de longe.

Val Consolação também aponta para mais uma mudança que percebeu no período da pandemia: segundo ela, o abandono de animais de raça aumentou em cerca de 70% desde março. “Com o aumento dos pedidos de resgate, começamos a ver bichinhos que não víamos ser abandonados antes: cachorros de raça, bem cuidados”, conta.

Adoção responsável

A importância da adoção responsável e de critérios rigorosos a serem avaliados pelas ONGs antes de um adotante ser “aprovado” foi ressaltada pelas duas representantes. Renata, do GARRA, e Val, do Vida Animal Livre, explicam que as organizações fazem entrevistas com os possíveis adotantes, visitam as casas para avaliar as condições de se abrigar um animal e organizam um processo complexo de triagem antes de permitir que o pet seja adotado.

Ainda assim, no caso da ONG belo-horizontina, ainda há casos de devolução do animal. “Duas semanas atrás, alguns animais que haviam sido adotados há seis meses foram devolvidos. Nesta semana, uma pessoa que adotou um pet há dois meses também devolveu porque vai voltar a trabalhar e não tem ninguém para cuidar do bichinho”, lamenta val Consolação.

“Sempre ressaltamos que, se for para devolver, que devolva para a gente. Se a pessoa passar o animal para alguém que não conhecemos, entramos na Justiça. As pessoas precisam ter responsabilidade na hora de adotar, precisam entender que animal não é brinquedo. Pais que têm crianças em casa, por exemplo, podem considerar o bichinho um refúgio, mas eles têm que pensar que estão adotando uma vida, que exige cuidado e traz despesas”, completa.

O caso da atriz Claudia Ohana (relembre aqui), que chamou a atenção nas últimas semanas, é considerado pela ONG Projeto Toca do Bicho um caso de adoção irresponsável. A organização acusa a atriz de devolver dois cachorros que haviam sido adotados em dezembro de 2019, porque ela estava tendo dificuldades para cuidar dos animais durante a pandemia.

“Eu adotei eles pouco tempo antes da pandemia, e aí veio a pandemia e eu fiquei sozinha em casa. Aguentei 3 meses de limpar tudo, eles foram destruindo”, disse a atriz, após a ONG expor a situação nas redes sociais. Ela afirma que ia deixar os cachorros na instituição durante a pandemia e voltaria para buscá-los, mas os representantes do Projeto Toca do Bicho contam que a atriz sequer procurou saber sobre os cachorros durante o período de um mês e meio em que eles ficaram no abrigo.

Maus-tratos crescem

O abandono não é o único problema com o qual os animais estão lidando durante a pandemia de Covid-19. Os maus-tratos, que também configuram crime ambiental, também podem se intensificar durante este período. A bióloga, ecóloga e presidente da AOPA (Associação Ouropretana de Proteção Animal), Luana Clarice das Neves, aponta para mais uma estatística preocupante.

Segundo ela, o aumento da violência doméstica que foi registrado durante a pandemia, com uma maior convivência dentro de casa, também pode significar um aumento dos maus-tratos contra os animais domésticos. Nada impede que as pessoas que violentam membros da própria família também agridam os bichinhos que estão dentro de casa.

De acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, as denúncias de violência doméstica cresceram significativamente desde março deste ano: em abril, houve um aumento de 37,58% em relação ao mesmo período de 2019. Só em Minas Gerais, de acordo com a Polícia Civil do estado, de março a junho deste ano, 44.413 denúncias de violência doméstica foram feitas.

Segundo uma pesquisa realizada pela AADAMA (Associação Amigos Defensores dos Animais e do Meio Ambiente) em 2011, 71% das mulheres que foram vítimas de violência doméstica e que tinham animais de estimação em casa relataram que os pets também foram vítimas da violência dos companheiros, que, em algum momento, ameaçaram, agrediram ou até mataram os bichinhos.

A importância das ONGs

O trabalho das organizações não governamentais que atuam na proteção dos animais vai muito além do resgate e da adoção dos bichinhos. Renata Prieto ressalta que a proteção animal “tem um braço” na saúde e na segurança públicas: o trabalho evita acidentes ao retirar animais das ruas, e a vacinação e os cuidados dos bichinhos evitam a transmissão de zoonoses – doenças transmitidas entre animais e seres humanos – como raiva e leishmaniose.

“É um trabalho muito difícil, com todas as limitações que se pode imaginar, mas tentamos nos manter firmes para salvar o maior número possível de vidas”, conta. O GARRA funciona no Rio há quase 20 anos e é a maior ONG que inclui cavalos do Brasil. Mais de 300 animais estão sob os cuidados da organização, incluindo cães, gatos, cabras e 35 cavalos em sistema de santuário.

Val Consolação, do Vida Animal Livre, também aponta para o papel educacional das ONGs. “Temos um trabalho social de educar pessoas, fazer palestras, visitar escolas. É muito importante se educar para saber se tem condições de criar um animal, porque isso envolve questões como o dinheiro e o emocional. Educação não é ‘piegas’, ela salva o ser humano e o animal”, defende.

Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.