Morador de rua de BH consegue casa e emprego com ajuda de enfermeiros

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Com apenas uma carta, Antônio viu sua vida mudar radicalmente (Divulgação/Hospital da Baleia)

“O que me surpreendeu foi ver que, em meio a esse caos todo, ainda tem tempo para a solidariedade”. Esta é a lição que Antônio Medeiros Júnior, um belo-horizontino de 37 anos, tirou da reviravolta que sua vida sofreu recentemente. Antônio vivia nas ruas da capital mineira quando deu entrada na UPA Centro-Sul com sintomas de Covid-19 e precisou passar por uma internação inesperada. O que ele também não esperava era que, com a ajuda da própria equipe do hospital, ele sairia tratado, com um emprego e um lugar para morar.

Tudo começou no início de junho, quando Antônio achou que havia contraído o novo coronavírus e resolveu procurar atendimento pela rede pública. “Eu ainda estava na rua e senti uma dor muito grande, mas não sabia o que era, achava que os sintomas eram de Covid, só que na UPA eles me diagnosticaram e mandaram para o Hospital da Baleia”, contou ao BHAZ. O diagnóstico foi negativo para a doença, mas acabou revelando que ele estava com derrame pleural, popularmente conhecido como água no pulmão e, por isso, precisaria ficar internado.

O período de internação no Hospital da Baleia, que durou dois meses, foi o ponto-chave de todas as mudanças que viriam a surpreender Antônio. “Eu sempre senti um certo medo de hospital, achava que era uma coisa sombria. E o tratamento que eu recebi lá quebrou esse clima e quebrou aquela dor que eu sentia”, conta.

Carta de gratidão

Ao longo dos dois meses internado, ele desenvolveu laços de amizade com os profissionais do hospital que o ajudaram a refletir para muito além daquela situação isolada: “Esse carinho todo que eu recebi me fez refletir mais sobre vida até para mim mesmo, pra repensar meus atos. E isso foi me dando esperança pra sair da situação que eu estava”.

Além de cuidar da saúde de Antônio, a equipe de enfermagem que o atendeu se mobilizou para presenteá-lo com roupas e materiais de desenho, seu passatempo favorito. Um dos colaboradores do hospital chegou a dar também um celular antigo para que ele pudesse se comunicar e se distrair enquanto fazia o tratamento. Diante de toda a sensibilidade dos profissionais, o homem sentiu que precisava encontrar um jeito de agradecer.

“Infelizmente, eles estão numa correria danada, apertados e muito focados por causa da pandemia, então eu senti essa necessidade”, recorda. Foi aí que ele decidiu escrever uma carta a todos que ajudaram no seu tratamento. No texto, ele relembra a trajetória no hospital e conta como foi importante receber ajuda: “Nunca imaginei que em plena pandemia da Covid-19, eu seria tão bem tratado. Levarei em meu coração só coisas boas devido ao ótimo tratamento que recebi em um dos momentos mais difíceis da minha vida”.

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Carta foi a forma que o paciente encontrou para agradecer pelos cuidados (Arquivo pessoal)

Tudo que vai…

O que começou como um gesto de gratidão acabou se tornando um passaporte para uma vida mais digna. Com a ajuda de alguns assistentes sociais, a carta escrita por Antônio chegou ao setor de recursos humanos do Hospital da Baleia, que decidiu contribuir de forma ainda mais ativa: hoje ele completa a primeira semana trabalhando na equipe de segurança do hospital.

O emprego contribuiu para uma segunda mudança essencial na vida de Antônio, que, depois de oito meses morando nas ruas, agora tem uma casa para onde voltar ao fim do expediente. “Eu consegui alugar um lugarzinho para eu ficar, e a pessoa que alugou também foi muito legal, fez um valor super flexível para que eu conseguisse pagar”, conta.

‘Abraçado pelo mundo’

Hoje, Antônio ainda está se adaptando ao novo emprego, mas sua chefia está confiante e ele é feliz com a rotina que criou: “Agora no princípio é tudo aprendizado, mas está muito bom. Gosto do ambiente, gosto dos colegas de trabalho… Eu estou gostando muito de tudo”.

O que ele também nunca vai esquecer é a sensação de ver tanta gente se mobilizando para que ele ficasse bem. “É inexplicável. É muito, muito grande a sensação de amparo que você tem quando está todo mundo querendo te ajudar. Você se sente abraçado pelo mundo inteiro”, pontua.

Agora, além de um exemplo de superação, a nova rotina de Antônio – que, numa primeira impressão, não tem nada de extraordinária – é a prova viva de que a empatia e a esperança podem ser transformadoras e de que o “abraço do mundo” tem nome: oportunidade.

Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.