Ricardo Eletro demite 3.500, fecha todas as lojas e pede recuperação judicial

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BH possui diversas lojas da Ricardo Eletro, com esta no Centro (Reprodução/Google Street View)

Por Júlia Moura

A Máquina de Vendas, controladora das varejistas Ricardo Eletro, Insinuante, City Lar, Salfer e EletroShopping, entrou com pedido de recuperação judicial na última sexta-feira (7), na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo (SP). A empresa, que estava em recuperação extrajudicial desde 2019, também decidiu fechar todas as suas lojas físicas e focar o comércio eletrônico.

No processo, cerca de 3.500 funcionários ligados à operação física foram demitidos. Sobram mil, sendo 850 de suporte, ligados à logística e entrega, e 150 no escritório. Segundo a varejista, a pandemia de Covid-19 interrompeu o seu processo de retomada com a reestruturação da rede, após troca na administração no segundo semestre de 2019.

“A Ricardo Eletro, assim como grande parte do setor varejista, vem enfrentando os impactos da pandemia de forma avassaladora”, diz nota à imprensa, que cita “um estrangulamento de caixa provocado pelas necessárias medidas de distanciamento social”.

A companhia também relata dificuldades no recebimento de produtos chineses para renovação de estoque desde janeiro, com a paralisação de fornecedores. “Nesse contexto, a recuperação judicial mostra-se como o caminho mais viável para que a empresa siga com suas operações e promova a reorganização administrativa e financeira necessária para superar a situação momentânea de crise e ajustar-se estruturalmente para a nova realidade com varejo, no pós-pandemia.”

A Máquina de Vendas cita necessidade de adequar o tamanho da companhia e os custos fixos considerando dificuldades a médio prazo. Com o crescimento do ecommerce na pandemia, o número de visitantes diários no site da Ricardo Eletro foi de 50 mil em março para 350 mil em agosto. A empresa também expandiu seu marketplace e passou a ofertar produtos médicos e alimentícios.

Outra aposta é a implementação de revendedores, semelhante ao modelo da Natura. “Um ponto forte da marca é o regionalismo, atendendo fora dos grandes centros, algo que vamos expandir com nossos revendedores, que vão poder auxiliar o cliente com a venda assistida”, diz Ana Garini, responsável pela transformação digital da Ricardo Eletro.

Os revendedores, que podem ser pessoa física ou jurídica, ganham, em média, 12 e 15% de comissão dos serviços financeiros e produtos vendidos, todos disponíveis no site da varejista. Já são 1.500 revendedores cadastrados. Destes, 100 são ex-funcionários das lojas físicas da Ricardo Eletro. “Queremos chegar a 15 mil parceiros até o fim de ano”, diz Ana.

As 320 lojas físicas da rede estavam temporariamente fechadas ao público devido à pandemia. Destas, 30% chegaram a reabrir, mas tiveram que fechar por determinações de governos estaduais ou municipais.
No momento, 313 já foram fechadas definitivamente e sete encerram as atividades nos próximos dez dias.

A empresa afirma ainda que todas as compras e entregas serão atendidas nos prazos.

Ricardo Eletro

A Ricardo Eletro foi fundada por Ricardo Nunes no interior de Minas Gerais, em 1989. Ela chegou a ter mais de 1.100 lojas pelo Brasil, com mais de 12 mil colaboradores diretos, sendo a 5ª maior varejista do país em 2011, segundo o ranking elaborado pelo Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado).

Em 2019, ela foi para o 22º lugar no mesmo ranking, com receita anual estimada em R$ 5,5 bilhões. Em agosto de 2020, o quadro de funcionários caiu para 2 mil.

Hoje, a empresa é controlada pela MV Participações, que teve Nunes como diretor até 9 de outubro de 2019. Na mesma data, Pedro Henrique Torres Bianchi foi escolhido diretor da MV Participações e, em janeiro, o executivo assumiu a presidência da Máquina de Vendas.

Prisão

Em julho, Nunes foi preso na operação Direto com o Dono, que investiga suposta sonegação fiscal de R$ 387 milhões de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e lavagem de dinheiro em empresas controladas pelo empresário (relembre aqui).

A investigação da força-tarefa composta pela Promotoria de Minas Gerais, Polícia Civil e Secretaria da Fazenda aponta que houve sonegação de impostos ao longo de cinco anos, entre 2014 e 2019.

Para o Ministério Público de Minas, o empresário seguiu à frente da Máquina de Vendas até depois de sua saída como executivo da companhia, o que a defesa de Nunes e a empresa negam.

Nunes ficou detido por um dia, em Contagem, região metropolitana Belo Horizonte, sendo liberado após prestar depoimento. Pedro Magalhães, diretor financeiro da Máquina de Vendas, também foi ouvido pelo Ministério.

Nota da Ricardo Eletro

“A Máquina de Vendas – controladora da Ricardo Eletro – informa que protocolou em 07 de agosto de 2020 um pedido de Recuperação Judicial na 1ª VARA DE FALÊNCIAS E RECUPERAÇÕES JUDICIAIS DO FORO CENTRAL DA COMARCA DE SÃO PAULO/SP.

É sabido, por parte de todos os colabores, credores e fornecedores, o esforço que vinha sendo feito pela empresa para superar as crises anteriores. Havia um processo de retomada em curso, mesmo com a estrutura de capital ainda fragilizada, que foi interrompido por conta da pandemia de Covid-19.

A Ricardo Eletro, assim como grande parte do setor varejista, vem enfrentando os impactos da pandemia de forma avassaladora. Desde janeiro deste ano, a companhia passou a enfrentar dificuldades no recebimento de produtos chineses destinados à renovação de estoques, devido à paralisação de fornecedores. Em seguida, houve um estrangulamento de caixa provocado pelas necessárias medidas de distanciamento social também no Brasil.

Esses fatos comprometeram os esforços de reestruturação que a Máquina de Vendas vinha empreendendo. Nesse contexto, a alternativa da recuperação judicial mostra-se o caminho mais viável para que a empresa siga com suas operações normalmente e promova a reorganização administrativa e financeira necessária para superar a situação momentânea de crise e ajustar-se estruturalmente para a nova realidade com varejo, no pós-pandemia.

A Máquina de Vendas entende que está no caminho certo e vê a recuperação judicial como um momento transitório na jornada de reconstrução do seu negócio. De maneira inovadora, a Ricardo Eletro foi uma das primeiras a usar de forma intensiva os aplicativos e canais digitais para realizar vendas durante a pandemia, ainda em fevereiro.

A empresa foi também a responsável pela realização da primeira feira digital. Paralelamente, expandiu suas áreas de atuação, passando a integrar parceiros de marketplace que antes não faziam parte do negócio central, como linhas médicas e alimentícias. Nesse contexto, é importante ressaltar a força dos canais digitais, com um crescimento nas visitas ao site, desde março, de 50 mil para 350 mil visitas diárias, e a força de vendas versátil e comprometida.

Entretanto, mesmo com essas notícias positivas e que guiarão o futuro da Máquina de Vendas, é necessário adequar o tamanho da Companhia, seus custos fixos e dar o tratamento adequado à sua estrutura de capital, em razão do momento em que estamos vivendo e que ainda viveremos no médio prazo.

Por isso, concomitante à recuperação judicial, está sendo lançado um novo modelo de negócio, inédito para o setor de varejo da Ricardo Eletro, por meio do qual qualquer pessoa, empresa ou loja terá a possibilidade de vender os produtos da empresa, aproveitar a marca, a malha logística e toda estrutura digital da Ricardo Eletro para se tornar sua parceira.

A empresa sabe da sua responsabilidade em razão do momento histórico e está iniciando esse modelo para que todos possam ganhar e criar uma roda virtuosa. A ideia central agora é aproximar os parceiros da Ricardo Eletro do seu consumidor.

É importante ressaltar que o relacionamento da Ricardo Eletro com seus clientes não será afetado. A empresa segue atendendo com a mesma atenção, respeito e eficiência de sempre as centenas de milhares de consumidores. Compras e entregas serão atendidas nos prazos, sejam elas realizadas pela Ricardo Eletro, por lojas parceiras, no site ou no aplicativo”.

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