Cem mil mortos: Uma derrota fragorosa

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A marca de 100 mil mortos gerou atos por todo o Brasil, como no Rio de Janeiro (Samantha Ataliba/Futura Press/Folhapress)

É bastante razoável supor-se que a companhia eventualmente comandada pelo capitão presidente se renderia antes mesmo de iniciar qualquer combate. É a conclusão a que se chega ao analisar-se o comportamento de Bolsonaro diante do novo coronavírus.

De forma obstinada, recusou-se a conhecer o inimigo que iria combater. Negou a sua existência, a sua letalidade e o seu alcance. Recomendou que se abandonassem as armas conhecidas, como máscaras e o isolamento social, incentivando a adoção de medidas ineficazes, como o uso de alho, de cânfora, da cloroquina, de vermífugo e até das aplicações de ozônio…

Negava as mortes, enquanto a Covid-19 dizimava o país, ceifando milhares de vidas e contaminando milhões de brasileiros.

Substituiu os ministros responsáveis pelo enfrentamento da crise, preferindo colocar em seu lugar um mais dócil, mais subserviente, que acatava as suas orientações ao invés de adotar os protocolos corretos.

Dividiu o país, brigando com juízes, prefeitos, governadores e congressistas. Optou pelo discurso ideológico, negando-se ao diálogo e ao consenso.

Se Churchill tivesse agido como Bolsonaro durante a Segunda Grande Guerra, poderíamos ouvi-lo dizer que não existiam nazistas, que a Alemanha não atacara a Polônia e que os comunistas é que estariam bombardeando Londres. Afastaria os seus generais mais experientes, recomendaria que a RAF não fosse utilizada e indicaria o uso de estilingues para a defesa. E, certamente, jamais se encontraria com Stalin para debater uma estratégia comum.

A falta de capacidade do presidente para enfrentar uma das mais graves crises da história do Brasil teve um resultado trágico: mais de cem mil mortos, mais de três milhões de contaminados, o fechamento das atividades não essenciais por muito mais tempo do que se previa, o aumento do desemprego e do endividamento das famílias. E isso sem falar-se no cataclismo econômico que se seguirá.

O capitão presidente, inepto para a vida militar, preferiu fugir do combate. Tal como se viu durante os debates na eleição presidencial, faltou-lhe coragem para assumir o lugar que lhe cabia. Escondeu-se por trás de sua matilha virtual e tentou transferir a sua responsabilidade para outros. Não colou: a opinião pública lhe conferiu a pior avaliação mundial no enfrentamento ao vírus, com menos de 35% de aprovação (apenas para se ter uma ideia, é de 70% a média mundial de avaliação positiva dos governos na atual crise sanitária).

É claro que nunca saberemos quais os estragos que a pandemia faria no Brasil ainda que tivesse sido devidamente enfrentada. Um país continental, com bolsões de extrema pobreza, poderia muito bem ter dificuldades para vencer a batalha contra a doença. Ou, então, poderíamos seguir os exemplos da Indonésia ou do Paquistão, países igualmente pobres e com uma população superior à nossa, mas com números de mortos e contaminados muito inferior aos registrados no Brasil.

Sabemos, no entanto, que nem chegamos a tentar. Jogamos a toalha antes do oponente entrar em campo. Não há desonra em lutar e perder. Leônidas deixou seu nome gravado na história mesmo tendo sido derrotado nas Termópilas. Waterloo não diminuiu o brilho militar de Napoleão e Aníbal ainda é lembrado mesmo tendo se passado mais de dois mil anos de sua morte.

O que nos entristece é termos perdido a guerra vendo o comandante em chefe da nação ainda se recusando a enfrentar o inimigo. Hoje sabemos que não podíamos esperar muito do militar excluído de sua própria corporação. Mas isso não consola os familiares e amigos dos mais de cem mil brasileiros mortos pelo vírus, pelo descaso e pela inaptidão do presidente.

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior
Rodolpho Barreto Sampaio Júniorrodolpho.sampaiojr@gmail.com

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior é doutor em direito civil, professor universitário, Diretor Científico da ABDC – Academia Brasileira de Direito Civil e associado ao IAMG – Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Foi presidente da Comissão de Direito Civil da OAB/MG. Apresentador do podcast “O direito ao Avesso”.