De flopados a lotados: Bares de BH experimentam extremos na noite de ‘reestreia’

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Bar lotado na Alberto Cintra e outro vazio na Savassi (Vitor Fórneas/BHAZ + Giovanna Fávero/BHAZ)

A noite de reestreia dos bares de BH, nesta sexta-feira (4), foi de extremos. Após mais de cinco meses proibidos de funcionar em sua plenitude, os símbolos da noite belo-horizontina – os botecos – receberam o sinal verde para receber clientes e vender bebida alcoólica, mesmo que com restrições. Do Sul ao Norte da cidade, teve de tudo: estabelecimentos às moscas, com movimento controlado e lotados, excedendo as restrições da PBH (Prefeitura de Belo Horizonte).

Em um extremo, alguns bares da Savassi e da Alberto Cintra. Pessoas aglomeradas na rua, mesas com mais de quatro pessoas e até mesmo trânsito digno de horário de pico tradicional ou véspera de feriado – mas sem pandemia. “Acho um absurdo mesmo, eu aqui me arriscando por causa de trabalho e os outros por causa de cerveja. Se bem que se eu não tivesse que trabalhar hoje ainda, eu faria igual também”, reclama uma mulher, em um ponto de ônibus no Centro de BH, ao ver o movimento em bares – e ilustra o dilema de muitos.

VOLTA DOS BARES EM BH! Na primeira noite de botecos liberados, a Alberto Cintra tem engarrafamento digno de horário de…

Posted by BHAZ on Friday, September 4, 2020

Em um estabelecimento na rua Fernandes Tourinho, a reportagem do BHAZ chegou a ser intimidada, mesmo no meio da rua. O bar estava com até sete pessoas amontoadas em uma mesa. Entre as restrições impostas pela prefeitura (veja todas abaixo), está o distanciamento mínimo de dois metros entre as mesas e de um metro entre os ocupantes de um mesma mesa. Nessa região, quem dependia dos aplicativos para se locomover precisou esperar.

No tradicional quarteirão fechado entre a a rua Paraíba e as avenidas do Contorno e Getúlio Vargas, movimento intenso, mas as normas respeitadas. “Acho que é legal voltar porque é muito forte na cidade isso, né?! Antes todo mundo saía pra tomar uma, a gente usava muito mais a rua. Eu tô feliz de poder finalmente sair de novo, encontrar meus amigos. Acho que, se for com cuidado, não vejo problema”, afirma Felipe Braga, de 26 anos. “Mas é aquela coisa, né?! Também não vou ter coragem de ficar dando rolê todo dia”, complementa.

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Quarteirão fechado da Savassi (Giovanna Fávero/BHAZ)

“Olha, pra ser muito sincera eu acho que já devia ter aberto há muito tempo. Igual a gente tá aqui eu não vejo problema, todo mundo separado, cumprindo as regras, cada um cuidando do seu… É uma situação péssima? É, mas vamos fazer o quê?”, argumenta uma cliente de um bar da Savassi, que pede o anonimato. “Eu acho que é importante a gente ajudar também, esses lugares ficaram fechados esse tempo todo aí e ninguém fazendo nada por eles. Não tem nada fácil não, a gente tem é que ir arrumando um jeitinho mesmo né. Pelo menos eu acho, pra mim tá maravilhoso”.

Alberto Cintra

Em outro ponto conhecido pela vida noturna na cidade, extremos novamente. Na parte lotada, no “fim” da Alberto Cintra para quem veio do Centro, trânsito intenso (veja vídeo acima). “Estou meio apreensiva pois ainda estamos na pandemia e temos que nos cuidar. Me sinto insegura de vir para bar, ainda mais porque aqui, nesta avenida [Alberto Cintra], está muito cheio e não sabemos se as pessoas estão se prevenindo”, opina a designer gráfico Cristina Carneiro, antes de ponderar: “Estava com saudades de frequentar os bares e com vontade de sair porque ficar o tempo todo em casa é complicado”.

O estudante universitário Gustavo Rodrigues segue a mesma linha. “Frequento a Alberto Cintra há mais de cinco anos e ficar sem vir aqui tava ruim. Não me sinto seguro de ficar no bar, mas vou arriscar porque tava com muita saudade. Podia ter um jeito de não ficar tão cheio, mas acho difícil isso acontecer, então é conviver”, argumenta.

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Bares cheios na Alberto Cintra (Vitor Fórneas/BHAZ)

“A expectativa é a mehor possível, pois foram quase seis meses fechados. Para nós um dia aberto já é muito bom. Estamos atendendo as normas exigidas pela prefeitura. Uma coisinha ou outra vamos ter que nos adaptar e no geral isso vale tanto para os estabelecimentos como para os clientes”, alega Eduardo Bento Dias, gerente de uma pizzaria.

“O vírus está aí e enquanto não tiver uma vacina eficaz temos que seguir as normas e a gente não pode fraquejar. Não pode aglomerar. Acho que poderia estender um pouco mais o horário de funcionamento, pois do jeito que está faz aglomerar mais, pois as pessoas só vão ter este tempo e isso pode provocar aglomeração. Olha como a rua está”, complementa.

Fiscalização

Equipes de fiscalização da administração municipal visitaram bares na Alberto Cintra, nas avenidas Guarapari, Prudente de Morais e Fleming, além do bairro Santa Tereza. Na Alberto Cintra, o diretor de fiscalização Leonardo de Freitas elogiou a postura dos responsáveis pelos estabelecimentos.

“A gente tem que tomar cuidado para não sair com ideia que está com aglomeração. Quando a gente for olhar, os bares estão cumprindo à risca. O que ocorre é o seguinte: a legislação fala da possibilidade do empresário licenciar o passeio operacional e a área aonde é estacionamento de veículo chamar de parklet operacional e é assim que está sendo feito”, afirmou ao BHAZ.

O diretor reconheceu que o distanciamento mínimo não estava sendo cumprido, mas reforçou que o papel da fiscalização é orientar. “Estamos chegando com a equipe exatamente para fazer esse trabalho de orientação nesse sentido, nessas particularidades. São coisas até difíceis para o comerciante fazer, [exigir] esse zelo das pessoas que estão sentadas na mesa não ficarem muito próximas… Tem situação de casais: ‘não faz sentido, né, por que vou ficar com um metro de distância do meu noivo’. Nosso trabalho orientativo é nesse sentido”, afirmou.

Flopados

No outro extremo, estabelecimentos vazios – ou flopados (gíria oriunda da palavra inglesa flop, ou seja, fracasso ou fiasco). Alguns bares no Centro da cidade, na Savassi, na Fleming e na própria Alberto Cintra receberam poucos clientes – alguns, até mesmo, por opção e respeito aos cuidados exigidos pelo combate à pandemia.

“Hoje nós resolvemos ser mais ponderados, nem mídia nós colocamos, sabe?! Porque nós ficamos com medo de ter aglomeração. O movimento foi bem fraco”, afirma um dos sócios da Santeria, na Savassi, João Augusto Ramos. “Hoje é o nosso primeiro dia que a gente abre. Nós não abrimos a casa com essas liminares de justiça nada disso. Vou te falar, diante de tudo que aconteceu nos últimos seis meses a gente não sabia nem o que esperar”, complementou.

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Uma unidade do Rei do Pastel vazia (Giovanna Fávero/BHAZ)

“Sinceramente, tá ruim demais. Mas, assim, deu uma melhorada da semana passada pra cá, mas igual a gente trabalhava antigamente não tá nem perto. Hoje por exemplo, a gente esperava que ia ser muito melhor, porque liberaram bebida alcoólica, né, mas não foi nem perto”, afirma Filipe Cardoso, funcionário de uma unidade do Rei do Pastel. “Não sabemos se é porque o feriado cai na segunda-feira e o povo tá segurando dinheiro”.

“Tô seguindo o regulamento do distanciamento. Eu achei que ia ser pior, achei que o pessoal ia chegar acelerado, sabe?! Porque já tava já muito tempo sem vir, achei que eles não iam respeitar… mas tá rolando bacana. O pessoal chega, pergunta como tá funcionando, espera a gente explicar. Tá tendo respeito”, diz Franz dos Santos Júnior, dono do Bar do Fernando, no Centro de BH.

Quais as restrições?

A partir de hoje, bares e restaurantes poderão comercializar bebida alcoólica entre 17h e 22h às sextas-feiras e das 11h às 22h durante sábado e domingo.

Veja as regras para esse segmento:

Capacidade, disposição de mesas e distanciamento

  • Impedir a entrada de pessoas sem máscara ou que não estejam utilizando a máscara de forma adequada;
  • Exercer controle sobre a capacidade do estabelecimento e filas. Não internalizar a espera de clientes;
  • Espera externa e filas de pagamento devem assegurar distanciamento de 2m (dois metros) entre as pessoas, com as devidas marcações;
  • Priorizar a disposição dos clientes em área externa do estabelecimento e/ou em locais com maior ventilação;
  • Distanciamento mínimo de 2m (dois metros) entre as mesas e 1m (um metro) entre ocupantes na mesma mesa;
  • Máximo de quatro pessoas por mesa;
  • Em salões ou espaços com mesas e cadeiras fixas, marcar e isolar mesas e cadeiras que não devem ser ocupadas, em observância ao distanciamento mínimo estabelecido;
  • Vedado o consumo fora de mesas na parte interna e externa do estabelecimento;
  • Permitido o consumo em balcões, desde que o local seja higienizado sempre que necessário, os clientes estejam sentados, os bancos sejam; fixos e haja um espaçamento de pelo menos 1m (um metro) entre eles.
  • Adotar, sempre que possível, atendimento mediante reservas pelos clientes.

Serviço:

  • Eliminar o cardápio físico, podendo ser utilizadas soluções digitais, cartazes, painéis ou descartáveis. Caso não seja possível, poderá ser utilizado o modelo plastificado que deve ser higienizado após cada uso;
  • Eliminar comandas em cartões e materiais plásticos;
  • Eliminar compras de fichas físicas;
  • Vedada a disposição de alimentos para degustação;
  • Refeições, lanches, tira-gosto, devem ser entregues montados aos clientes;
  • Para a modalidade à la carte a refeição deve chegar coberta à mesa do cliente;
  • Vedado o modelo de self-service. Admite-se serviço com buffet com isolamento dos alimentos em relação aos consumidores e montagem do prato por profissional do estabelecimento devidamente paramentado, visando diminuir a manipulação de pegadores e outros utensílios por diversas pessoas, observada a distância de segurança;
  • Os alimentos no buffet devem ser totalmente protegidos por meio de protetores salivares e balcões expositores com fechamento frontal e lateral;
  • Oferecer talheres higienizados em embalagens individuais de papel (ou talheres descartáveis), além de manter os pratos, copos e demais utensílios protegidos;
  • Na fila, fazer marcações no chão com a distância de 2m (dois metros) entre as pessoas;
  • Galheteiros, saleiros, açucareiros e outros dispensadores temperos, molhos e afins ficam proibidos, sendo obrigatório prover sachês de uso individual;
  • Os estabelecimentos deverão oferecer guardanapos de papel e copos descartáveis aos clientes ou limpeza dos utensílios conforme normas sanitárias;
  • Orientar os consumidores a fazer o pagamento preferencialmente com cartões ou por tecnologia de aproximação, evitando a manipulação de notas e moedas. No caso de pagamento com notas e moedas, o estabelecimento deverá disponibilizar funcionário específico para receber os pagamentos;
  • Cobrir a máquina de pagamento com filme plástico, para facilitar a higienização após o uso.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.

Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política.

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