Mulher ataca homem com xingamentos racistas: ‘Macaco nojento’

Mulher ataques racistas
A vítima contou ao BHAZ como foi abordado ‘do nada’ pela mulher que o atacou (Leandro Xavier/Arquivo Pessoal)

Leandro Xavier, de 39 anos, voltava para casa, no distrito de Jabaquara, em São Paulo, quando foi abordado por uma mulher que não conhecia. “O que foi, preto nojento?”, disse a desconhecida. Confuso, o homem questionou o motivo dos xingamentos e o que ouviu em seguida tirou o sono dele nas últimas quatro noites. “Lixo! Preto! Macaco! Chimpanzé!”, gritou a mulher, entre outras ofensas racistas.

O caso aconteceu no último sábado (12) e parte do ataque foi flagrada por Leandro, em um vídeo que circula nas redes sociais. Em conversa com o BHAZ, o auxiliar de serviços gerais falou sobre a angústia que sentiu ao ser vítima dos brutais xingamentos racistas. “O que mais doeu foi que meu filho, de 12 anos, estava comigo. Eu tive que conversar com meu filho e explicar o que havia acontecido. É difícil, não foi fácil”, relatou.

No vídeo, a mulher passa perto de Leandro e se exalta enquanto faz uma série de ofensas racistas contra o homem. “Preto! Macaco! Chimpanzé! Orangotango! Fedido! Fedorento! Sai, lixo!”, diz, sem se intimidar por estar sendo filmada.

A mulher ainda ameaça processar Leandro, caso a filmagem fosse divulgada. Ela diz que teria “carta branca”. “Você tem mesmo? Educação você não tem nenhum, né?”, rebate o homem. Segundo o auxiliar, os xingamentos continuaram mesmo após o fim da gravação e só cessaram quando ele se afastou.

O trauma e a luta por justiça

O caso aconteceu há quatro dias, mas, para Leandro, a dor dos ataques ainda vai permanecer por um tempo. “Eu estou há quatro dias sem dormir direito. As palavras que ela falou mexem com a cabeça da pessoa. Eu não tive mais coragem de ver o vídeo. Na hora, eu me senti uma pessoa inútil, pensei ‘não é possível que isso está acontecendo comigo'”, desabafou.

Leandro conta que, em nenhum momento, pensou em reagir com violência contra os ataques que sofreu. A única reação que teve foi de filmar a situação. A intenção era reivindicar seus direitos. “Isso aí sempre acontece de todas as maneiras, todo dia acontece algum tipo de racismo. Antigamente, acontecia e nem todo mundo tinha acesso a aparelho para filmar. Eu decidi filmar para que eu tivesse provas, porque se eu fosse numa delegacia sem provas, nada aconteceria”, detalhou.

O homem agora aguarda que a investigação policial identifique a mulher, para que possa receber orientações de um advogado sobre como proceder com o caso. “Eu quero justiça, que isso não aconteça novamente e que ela não faça isso com mais ninguém. Eu vou até o fim para que ela pague pelo que ela fez”, garantiu.

Ao BHAZ, a Polícia Civil informou que o caso foi registrado como injúria racial e está em investigação. “As diligências estão em andamento visando a identificação da autora e o esclarecimento dos fatos”, acrescentou por meio de nota (leia na íntegra abaixo).

Legislação branda

A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

Segundo o advogado especialista em crimes raciais, Gilberto Silva, conforme a legislação, a injúria racial é considerada um delito de menor potencial ofensivo. A pena varia entre um a três anos. No entanto, em casos de réus primários a pena pode nem chegar a ser cumprida.

“O que a gente tem em pensamento é que o legislativo deve equiparar a injúria racial a racismo. Ainda penso que a pena desse crime deveria ser maior. Muitas pessoas, sobretudo aquelas com maior poder aquisitivo, praticam os crimes raciais na certeza de não serem punidas pelo estado”, considerou.

Gilberto explica também que a lei de racismo 7.716, de 1989, compreende outras formas do crime que podem acontecer com uma única pessoa, mesmo que não sejam voltadas para a coletividade. “A proibição de entrar em alguns locais por causa da cor. A proibição de entrar no elevador por ser preto. Não deixar a pessoa entrar em boate porque é preta. Isso é racismo pela lei”, exemplifica.

No caso de Leandro, o especialista ainda acredita que existem outras questões que cabem à autoridade policial averiguar. “No vídeo, existem outros xingamentos caluniosos”, acrescentou.

Nota da Polícia Civil da íntegra

“O caso foi registrado como injúria racial pelo 35º DP e é investigado pelo 97º DP, responsável pela área. A vítima foi orientada, no momento do registro, a apresentar as imagens na delegacia responsável pelas investigações. As diligências estão em andamento visando a identificação da autora e o esclarecimento dos fatos.”

Edição: Aline Diniz
Guilherme Gurgel
Guilherme Gurgelguilherme.gurgel@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco nas editorias de Cidades e Variedades no BHAZ.

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