Colégio Militar de BH ordena volta às aulas ignorando diálogo e riscos

colégio militar de belo horizonte
Colégio Militar vai retomar as aulas presenciais (Reprodução/StreetView)

Atualizado às 12h20 do dia 17/09/2020 para incluir o posicionamento da SEE-MG.

O CMBH (Colégio Militar de Belo Horizonte) comunicou aos alunos que as aulas presenciais na unidade de Belo Horizonte serão retomadas na próxima segunda-feira (21). A volta das atividades, ordenada pelo Exército Brasileiro, desafia as medidas de combate à Covid-19, e é contestada por especialista, alunos e familiares de estudantes. Todos concordam que a medida é insegura e autoritária.

As aulas presenciais seguem suspensas e ainda sem previsão de retorno em todas as escolas do estado, conforme prevê o plano de retomada do governo, o Minas Consciente. No entanto, a Depa (Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial) do Exército, ignorando o programa, ordenou que as aulas sejam retomadas no colégio militar, localizado no bairro São Francisco, na região da Pampulha. Procurada, a prefeitura de BH esclareceu que não tem informação de retorno às aulas relacionadas à rede estadual. (veja abaixo).

Em nota, a instituição afirma que o colégio pertence a um gênero único, que não se iguala aos outros, e que, por isso, tem autonomia para a decisão (veja a nota abaixo). “Entende-se que os Colégios Militares reúnem excelentes condições para o retorno de seus alunos às atividades presenciais, o que ocorrerá a partir do próximo dia 21 de setembro”, escreveu a Depa em seu comunicado.

Conforme documento, enviado aos pais e alunos, a presença é obrigatória para os alunos dos ensinos médio e fundamental, com exceção apenas para estudantes que fazem parte do grupo de risco, desde que seja comprovada a doença por meio de documentação. As aulas serão intercaladas sendo: segunda, quarta e sexta para o Ensino Médio, e terça e quinta para o fundamental.

Apavorados

Os alunos do colégio alegam que foram surpreendidos com a decisão e estão apavorados com a situação. Uma das principais reclamações é a falta de diálogo do colégio com os estudantes. Em conversa com o BHAZ, uma aluna do 2º ano do Ensino Médio, que não será identificada, disse que a retomada da escola pode trazer riscos.

“Estamos apavorados, pois foi uma decisão de última hora, ninguém estava contando com isso. Tem muito aluno que pega um ou dois ônibus, que vem da região metropolitana de BH. Além disso, às 7h o transporte público está cheio, então estão nos expondo a um risco maior. Estamos sem saber o que fazer, pois a decisão vem de cima e o diálogo é algo complicado” afirmou a estudante.

A aluna revelou que não voltará aos estudos no momento por medo de se expor aos risco e infectar familiares. “De forma alguma vou voltar para a escola. Moro com pessoas do grupo de risco. O colégio vai permitir que alunos do grupo de risco fiquem em casa, mas não deram parecer sobre essa situação de quem mora com familiares deste grupo. Não vou colocar meus parentes em risco. O preço que eu pago por tomar falta é bem menor do que colocar essa pessoas que eu amo em risco”, afirma.

Medo e desrespeito

Uma familiar de um estudante, que também não será identificada, entrou em contato com a reportagem para relatar que a família está com medo de enviar o aluno para a escola. Além disso, ele acredita que a retomada das aulas, neste momento, é um desrespeito por conta da falta de diálogo.

“Estamos preocupados, pois temos minha mãe que é do grupo de risco em casa. Desde semana passada estamos tentando conversar com o colégio mas alegam que a ordem vem de cima. Simplesmente mandaram ir e não abriram discussão sobre a situação das famílias. Os alunos não moram sozinhos”, explicou a pessoa.

‘Não é o momento’

Para a retomada das aulas, o colégio exige que os alunos usem máscaras; façam medição da temperatura corporal; evitem contatos próximos [como abraços, beijos ou compartilhamento de objetos]; e mantenha o distanciamento de, no mínimo 1,5 metro. Alunos com sintomas da Covid-19 ou com familiares que apresentam quadro da doença, serão dispensados de comparecer à unidade de ensino.

Entretanto, para o infectologista Leandro Curi, mesmo que todos os protocolos sejam atendidos, o melhor é não retomar as atividades no momento, pois o risco ainda é alto. “É impossível controlar as crianças. Dependendo da faixa etária, dá para pensar em adaptação aos protocolos, mas não é o momento. Eu entendo que aulas estão atrasadas, tem muita gente com risco de perder o ano, mas as escolas são lugares mais arriscados”, esclareceu.

“Precisamos pensar no risco biológico. Os alunos assintomáticos podem levar para pais e avós que estão em casa. Além disso tem o transporte, o momento da aula e o retorno para casa. Vejo com preocupação esse retorno. Por mais que estejamos melhor, estamos mal ainda. A pandemia está aí, não temos medicamento, não tem imunidade de rebanho e nem vacina, não é confortável se expor assim neste momento”, acrescenta o especialista.

O que diz a SEE-MG

O BHAZ pediu ao Governo de Minas e à SEE-MG (Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais), um posicionamento sobre o retorno das aulas no colégio militar. Em nota (confira na íntegra abaixo), a secretaria afirma que a decisão do colégio militar “não passa pelo estado”.

Nota da SEE-MG

“A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) informa que o Colégio Militar é vinculado ao Governo Federal, responsável pela sua administração. A decisão sobre seu eventual funcionamento não passa pelo estado”.

Nota da PBH

“A Secretaria Municipal de Educação é responsável pelas escolas municipais e não tem informação de retorno às aulas presenciais de escolas da rede Estadual de ensino”.  

Nota do Depa

A partir do último dia 11 de março, os Colégios Militares tiveram suas atividades escolares presenciais suspensas, em face do reconhecimento da situação de emergência na saúde pública nos diferentes estados da Federação.

Desde então, os alunos tiveram o prosseguimento das atividades escolares em ambiente virtual de aprendizagem (AVA) e os docentes que se encontravam inseridos nos grupos de risco adotaram o teletrabalho e continuaram a exercer as suas atividades pedagógicas. Esse meio virtual não contempla toda a complexidade que envolve o ensino- aprendizagem, em especial o contato direto dos discentes com os seus professores, essencial para o atingimento dos objetivos previstos na proposta pedagógica dos Colégios Militares.

A Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial (DEPA), responsável pela coordenação, controle e supervisão das atividades dos Colégios Militares (CM), embasada nas orientações dos Ministérios da Defesa, da Educação e da Saúde, do Comando do Exército e do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), orientou o planejamento da retomada das atividades presenciais, com uma rígida vigilância sobre os protocolos sanitários previstos para essa situação.

Todos os colégios do nosso Sistema estão muito bem preparados para atender às necessidades de proteção dos seus integrantes em relação à pandemia da COVID-19 e em condições de cumprir as regras sanitárias impostas. O retorno às atividades presenciais ocorrerá de forma gradual, iniciando com os alunos do Ensino Médio.

Na entrada dos Colégios Militares, há postos de triagem, onde estão disponibilizados álcool em gel e/ou borrifador de álcool líquido, para higienização das mãos e de objetos; há, também, equipamentos para a aferição de temperatura. As salas de aula foram adequadas para atender às normas de sanitização, e os alunos estão sendo conscientizados para o cumprimento dos procedimentos de higienização e afastamento, como já ocorre nos Colégios Militares de Manaus, Belém e Rio de Janeiro. As instalações estão desinfectadas e são organizadas de forma que mantenham a distância mínima de 1,5 metros entre as pessoas. As portas e janelas das salas de aula permanecerão abertas durante o seu uso, possibilitando a ventilação e a circulação de ar.

O Sistema Colégio Militar do Brasil, valorizando o seu maior patrimônio, as pessoas, cuida da saúde dos seus integrantes e da qualidade da educação proporcionada ao seu corpo discente. Respeita as necessidades dos alunos e profissionais pertencentes aos grupos de risco, os quais permanecerão conduzindo as suas atividades em AVA. Dessa forma, a excelência do processo ensino-aprendizagem, marca indelével do nosso Sistema, será mantida.

Considerando todas essas situações e pelo seu enquadramento como estabelecimentos de ensino oficial de natureza ‘sui generis’, entende-se que os Colégios Militares reúnem excelentes condições para o retorno de seus alunos às atividades presenciais, o que ocorrerá a partir do próximo dia 21 de setembro”.

Rafael D'Oliveira
Rafael D'Oliveirarafael.doliveira@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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