Servidores da UPA Norte sofrem com agressões e falta de equipamentos

Recepção e laboratório da UPA Norte
Trabalhadores denunciam falta de segurança e de equipamentos para trabalhar (Arquivo Pessoal)

Inaugurada no último dia 6 de agosto, a nova sede da UPA Norte, no bairro Aarão Reis, já apresenta diversos problemas. Todos os dias, os profissionais de saúde precisam lidar com a violência, com a escassez de equipamentos, e com quedas constantes de energia elétrica. Estas e outras precariedades foram temas de denúncias feitas pelos trabalhadores, por representantes do Conselho da UPA Norte e pelo Sindibel (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte). As queixas foram encaminhadas para a PBH (Prefeitura de Belo Horizonte).

Os representantes dos órgãos também cobram que agentes da Guarda Municipal de BH atuem no local para evitar episódios envolvendo agressões e invasões. Por meio de nota (leia na íntegra abaixo), a PBH informou que o local é equipado com câmeras e garantiu que a atuação da Guarda Municipal será reforçada para garantir mais segurança. A SMSA (Secretaria Municipal de Saúde), por sua vez, informou que um plano para solucionar todos os problemas já foi elaborado (saiba mais abaixo).

O Sindibel enviou um ofício à SMSA, no dia 25 de agosto, pontuando as principais queixas apontadas pelos servidores da UPA e pedindo melhorias. De acordo com o sindicato, a secretaria prometeu que solucionaria os problemas apontados até o dia 30 de setembro. A pasta afirma que “medidas estão sendo tomadas para que o funcionamento da unidade ocorra da melhor forma possível tanto para os trabalhadores quanto para o atendimento de toda a população”.

Sem exames

Um dos principais problemas enfrentados pelos servidores da saúde é a falta de recursos para fazer exames e procedimentos cotidianos na unidade. Um aparelho de raio-X digital, adquirido para modernizar o atendimento, ainda está dentro da caixa e parado em um corredor da UPA, já que a parede de drywall [gesso] da sala designada para a instalação do aparelho não sustenta a máquina.

Desde que a unidade foi inaugurada, os pacientes que chegam para fazer um exame de raio-X precisam ser levados à sede antiga ou a outras UPAs. O transporte, que é feito por ambulâncias. No entanto, é exigida uma quantidade mínima de pessoas para que o transporte ocorra, o que faz com que os pacientes esperem horas pelo atendimento. Questionada sobre o problema, a SMSA garante que a instalação do equipamento está prevista para o fim deste mês.

Aparelho de raio X digital dentro da caixa no corredor da UPA Norte
Aparelho nunca foi instalado e pacientes não podem fazer raio-X (Sindibel/Divulgação)

Sem energia elétrica

A diretora da área da saúde do Sindibel, Cleide Donária de Oliveira, também conta que a energia elétrica do laboratório da UPA não é suficiente para garantir o funcionamento ideal de todos os equipamentos. Os profissionais precisam usar ventiladores e até gelo para resfriar equipamentos e evitar superaquecimentos, já que o ar condicionado não pode ser ligado.

Quedas de luz não são raras e, assim como no caso dos exames de raio-X, há situações em que os pacientes precisam ser levados a outras unidades para receber o atendimento necessário. O resultado dos exames, que também depende de um bom desempenho dos equipamentos, acaba atrasando e irritando os pacientes.

“A princípio, havia sido prometido que teríamos equipamentos novos, além da sede nova. Mas hoje, 80% dos equipamentos da UPA são antigos. Eles construíram a estrutura, mas os aparelhos estão tão sucateados que só isso não resolve o problema. Não adianta nada ser linda por fora, se por dentro não funciona “, conta uma representante do Conselho da UPA Norte e servidora da unidade, que preferiu não se identificar.

Agressões

Os atrasos e as transferências para outras unidades não agradam os pacientes e, às vezes, os profissionais de saúde da UPA Norte chegam a ser agredidos enquanto tentam trabalhar com os recursos escassos. “Só nesta semana, já tivemos quatro agressões e uma ameaça de morte. Há 10 dias, levaram um soco no rosto. É cada dia mais frequente”, conta a representante.

Mensagens relatam agressões sofridas por profissionais da UPA Norte
Servidores pedem que agentes da Guarda Municipal façam plantões no local para evitar agressões (Arquivo Pessoal)

Uma enfermeira registrou um boletim de ocorrência, no dia 21 de agosto, após levar um soco no nariz de um paciente conhecido pelos profissionais da UPA Norte. De acordo com o registro policial, ele vai ao local frequentemente para se alimentar e dormir, e acredita-se que ele seja usuário de drogas. Depois da violência, que não teve motivo aparente, ele entrou em um ônibus e foi embora.

Em mensagens, enfermeira conta que foi agredida
Enfermeira relata que foi agredida no trabalho (Arquivo Pessoal)

Sem segurança

As agressões sofridas pelos servidores reforçam um dos maiores pedidos feitos por eles: mais segurança para trabalhar. Além de reivindicar que agentes da Guarda Municipal façam plantões no local, os funcionários também pedem que a SMSA instale grades de proteção que impeçam o acesso às áreas restritas.

“Os refeitórios, banheiros, vestiários dos funcionários podem ser acessados por qualquer um. As grades e a atuação da Guarda Municipal trariam mais segurança”, conta Maria Madalena Lopes, técnica de saúde bucal que atua na UPA Norte. “Os funcionários ficam apreensivos, trabalham o dia todo com medo da violência, dessa falta total de segurança. Está tudo muito complicado”, completa Maria das Graças Nascimento, presidente do conselho da unidade de saúde.

Mais de uma vez, homens se passaram por funcionários de uma equipe de manutenção da SMSA para tentar entrar na UPA. Em uma das ocasiões, alguns armários dos funcionários foram arrombados. Em outra, os próprios servidores conseguiram expulsar os golpistas, já que não havia agentes da Guarda Municipal.

Funcionários da UPA Norte alertam sobre golpe
Homens tentaram entrar na UPA afirmando trabalharem para a SMSA (Arquivo Pessoal)

Celulares furtados e bolsas remexidas já foram consequências sofridas pelos servidores da UPA Norte por causa da falta de segurança no local. “A própria estrutura do lugar deixa os trabalhadores vulneráveis: o muro do fundo é muito baixo, a recepção é baixa, as janelas também”, explica a diretora da área da saúde do Sindibel. Ainda nesta semana, foram instaladas correntes e placas que sinalizam as áreas onde o acesso é restrito, mas, para os funcionários, as medidas não são suficientes.

Uma corrente e uma placa sinalizam o acesso restrito
Servidores pedem grades de proteção onde há correntes (Arquivo Pessoal)

A PBH garante que a UPA Norte é protegida por “rondas constantes durante o dia e vigilância fixa presencial no período noturno”. Além disso, a pasta afirma que a SMSA está em processo de contratação de porteiros, que atuarão na unidade 24 horas por dia. Também foi garantida a instalação de grades nas janelas da unidade e de um sistema de acionamento eletrônico dos portões.

Riscos e reivindicações

O ofício enviado pelo Sindibel à SMSA também menciona que a sala de descanso dos profissionais de saúde da UPA é tão pequena que não permite que seja feito o distanciamento adequado durante a pandemia de Covid-19. E não são só os servidores que acabam mais expostos aos riscos de contaminação: a quantidade de pacientes transportados nas ambulâncias para fazer exames em outras unidades também representa um risco.

“Às vezes, um paciente que está com suspeita de Covid-19 vai apertado na mesma ambulância com uma pessoa que não está”, conta a presidente do conselho da UPA Norte. “Os problemas não causam transtorno só para os trabalhadores, mas para a população também”, relata outra representante do conselho, que completa: “Se os problemas não forem resolvidos até o dia 30 de setembro, vamos organizar um ato em frente à UPA”.

Nota da SMSA

“A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informa, que mantém diálogo constante com o Sindibel. Após a Prefeitura retomar e concluir a obra para inauguração da Upa Norte, a nova unidade foi aberta para a população no mês passado. Medidas estão sendo tomadas para que o funcionamento da unidade ocorra da melhor forma possível tanto para os trabalhadores quanto para o atendimento de toda a população. Um plano de ação para sanar todos os questionamentos feitos já foi apresentado. O relatório a baixo mostra as melhorias que já estão em andamento:

Segurança

UPA Norte conta com câmeras de segurança, além da presença da Guarda Municipal em rondas constantes durante o dia e vigilância fixa presencial no período noturno. Para ampliar a segurança, também serão instaladas grades nas janelas da unidade e sistema de acionamento eletrônico dos portões. A Secretaria Municipal de Saúde também está em processo de contratação de porteiros, que atuarão na unidade, 24 horas, todos os dias.

A Guarda Municipal atua na segurança das unidades de Saúde da capital por meio da Patrulha SUS, que consiste em uma frota de 40 motos com dois agentes, cada uma, que são utilizadas no patrulhamento preventivo das unidades, com rondas realizadas durante todo o período de funcionamento das mesmas. A conduta da Secretaria Municipal de Saúde em situações de violência segue duas linhas estratégicas. A primeira delas é o acolhimento da vítima por meio do Núcleo de Acompanhamento Sócio Funcional – NASF.

Quando o profissional sofre ameaça que coloca em risco sua integridade física e psicológica, ele recebe todo o apoio dos técnicos responsáveis pelo Acompanhamento Sócio Funcional que realizam o acompanhamento da situação e todas as medidas administrativas são tomadas. A segunda estratégia de vigilância em saúde é a notificação desses episódios de violência, sendo esta ação considerada um dos passos. Foi implantado fluxo de abordagem a episódios de violência nos serviços da Secretaria, que direcionam o gestor, o trabalhador e/ou usuário na tomada de decisão. Este fluxo orienta quais providências e quem acionar em cada tipo de violência.

Raio-X

A instalação no equipamento de raio-x está prevista para o fim deste mês. A nova unidade conta com equipamento móvel que é utilizado em alguns casos específicos, e os demais são levados de ambulância para a realização do exame em outra unidade, sem prejuízo da assistência ao paciente”.

Nota da PBH

“A Prefeitura de Belo Horizonte informa que a UPA Norte conta com câmeras de segurança, além da presença da Guarda Municipal em rondas constantes durante o dia e vigilância fixa presencial no período noturno. Para ampliar a segurança, também serão instaladas grades nas janelas da unidade e sistema de acionamento eletrônico dos portões. A Secretaria Municipal de Saúde também está em processo de contratação de porteiros, que atuarão na unidade, 24 horas, todos os dias.

A Guarda Municipal atua na segurança das unidades de Saúde da capital por meio da Patrulha SUS, que consiste em uma frota de 40 motos com dois agentes, cada uma, que são utilizadas no patrulhamento preventivo das unidades, com rondas realizadas durante todo o período de funcionamento das mesmas.”

Edição: Aline Diniz
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

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