Sufocado pela pandemia, setor de eventos luta por sobrevivência em BH

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Há quase sete meses sem renda, trabalhadores reclamam de negligência com o setor (IMAGEM ILUSTRATIVA: Banco de imagens/Unsplash + Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Quase sete meses se passaram desde que todos os comércios de BH se viram obrigados a suspender as atividades por causa da pandemia de Covid-19. Aos poucos, aqueles que sobreviveram ao hiato puderam voltar e lutam para se recuperar. No entanto, a realidade não é a mesma para o setor de eventos e entretenimento, conhecido por agitar a rotina da capital. Parados desde março, enfrentando uma crise sem precedentes, sem perspectiva de retorno e com dificuldade para dialogar com as autoridades, os profissionais da área organizaram uma manifestação para reivindicar mais atenção ao setor.

O ato será na próxima segunda-feira (5), a partir das 15h, na Praça da Liberdade, região Centro-Sul de BH, e contará com a presença de técnicos, produtores, artistas e outros agentes da indústria do entretenimento, que emprega diretamente 25 milhões de pessoas em todo o Brasil e é responsável por 13% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, conforme a Amee (Associação Mineira de Eventos e Entretenimento). Além disso, é preciso considerar ainda o impacto em toda a cadeia que o setor movimenta.

Ao BHAZ, Ederson Clayton, que integra a diretoria da Amee, contou que o setor envolve tantas atividades que ainda é difícil estimar o tamanho do prejuízo geral. “Para construir um evento, a gente usa vários setores da economia: pessoal da segurança, hotéis, os taxistas que levam as pessoas para a região… A gente contribui muito com a economia da cidade, não é só o produtor e as pessoas trabalhando ali. Há estudos que mostram que a cada R$ 1 gasto no evento, R$ 7 são gastos no entorno”, explica.

‘Não é só festa’

Apesar do impacto gigantesco, os profissionais da área compreendem que se trata de uma situação delicada e que a volta do setor exige muito cuidado. “A gente tem consciência, a gente não tá falando que quer voltar com evento amanhã, mas a gente precisa saber o que falar com os nosso funcionários, ter alguma noção do que vamos fazer. Não é só festa, é trabalho”, pontua Ederson. O que incomoda os trabalhadores é a falta de atenção com um setor que impacta tantas vidas.

“Tem muita gente que quebrou, muita empresa mandou funcionário embora e não tá conseguindo manter. Normalmente, você consegue segurar uns três meses, hoje a gente tá no dobro disso”, explica o diretor da Amee. Ederson afirma ainda que o diálogo com as autoridades também não é fácil: “Nós apresentamos até um protocolo tanto para a prefeitura quanto para o Minas Consciente, mas eles não nos retornam, não nos respondem”.

O BHAZ procurou a PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) e o Governo de Minas. Ambos afirmaram que estão analisando frequentemente as possibilidades para o setor (veja no fim da matéria).

Setor agonizando

Apesar de todas as tentativas, a Amee não tem muitas esperanças de que a situação se resolva nos próximos meses – e, mesmo que haja uma definição das autoridades, o processo será lento. “Soltar um evento hoje é mais complicado, ele exige uma pré-produção muito grande. Você não consegue fazer isso em 30 dias, por exemplo”, explica Ederson.

Enquanto isso, os trabalhadores precisam “se virar” para encontrar outras fontes de renda, acumulam dívidas e muitos precisam de ajuda até para colocar comida na mesa: “Na verdade, [o dinheiro] não tá vindo de lugar nenhum. Tem muita gente que está desesperada, porque realmente não tem mais o que fazer. Se nada for feito, 2020 será marcado como o ano em que mais empresas de eventos fecharam as suas portas em toda a história. O nosso setor está agonizando”.

Quanto maior, pior?

Cristiano Carneiro é uma das 180 mil pessoas que a indústria do entretenimento emprega diretamente na Grande BH. Mesmo o fato de ser dono de uma das maiores empresas do setor na capital – a Nenety Eventos – não o ajudou a amenizar os impactos da pandemia no trabalho. “No mês de março, percebemos a gravidade da situação e cancelamos o primeiro evento por precaução. As autoridades mesmo ainda não tinham tomado muitas medidas”, lembra, em conversa com o BHAZ.

Desde então, assim como a cidade, a empresa de Cristiano vive uma aflição sem precedentes. Antes da pandemia, a Nenety organizava uma média de dez shows por mês – os maiores, realizados no Mineirão, empregavam cerca de 3 mil pessoas: “Agora, isso tudo foi por água abaixo. O segmento está completamente parado, o único que consegue desenvolver alguma coisa é o artista, que teoricamente é o que menos precisa. Ele ainda consegue fazer as lives, mas o produtor, o técnico de som, o garçom, a cozinheira, a equipe técnica, o carregador? Todo mundo parado”.

‘De mãos atadas’

Assim como o diretor da Amee, Cristiano também não tem esperança de que as atividades possam ser retomadas neste ano e também sente falta de uma postura mais atenciosa das autoridades. “O governo parece estar mais perdido do que a gente. Não justifica liberar um ônibus com 60 pessoas e não liberar um cinema, que tem capacidade pra 200, mas você consegue vender cadeiras definidas, com espaço grande entre uma e outra, por exemplo”, argumenta o empresário.

No caso dele, a situação é ainda mais delicada. É que, como a Nenety organiza eventos de grande porte – como o Festeja Brasil, que acontece todo ano no Mineirão – é quase impossível retomar os trabalhos sem uma solução mais definitiva para a pandemia: “No meu caso, é esperar a vacina. Esses eventos drive-in funcionam muito bem na Europa, que já tem uma cultura disso. No Brasil, várias empresas já tentaram, mas sem patrocínio é muito difícil, você fica de mãos atadas”.

Enquanto isso, o que se observa na empresa de Cristiano é um reflexo do que aconteceu em todas as outras do setor, em maior ou menor escala – e vai continuar acontecendo enquanto não houver uma saída: “Só a minha empresa deixou de empregar, de cara, uns 30 mil empregos diretos por causa da pandemia. Já demitimos todo mundo. Não tinha mais o que fazer, a gente vai ter que começar de novo do zero”.

Como ajudar?

Para tentar amenizar os impactos sofridos pelos trabalhadores do setor, a Amee criou a campanha “Amee ao próximo”, que converte doações em cestas básicas e entrega aos profissionais mais afetados. A associação recebe também doações de kits de higiene e alimentos. Para ajudar, basta entrar em contato pelo site ou pelo Instagram (@amee_oficial).

Outro projeto que apoia os profissionais do entretenimento na capital é o Salve a Graxa BH, que também recebe doações para converter em cestas básicas e também realiza ações solidárias – como o sorteio de itens autografados por artistas consagrados em Minas – com o intuito de ajudar a equipe técnica da Grande BH. Para ajudar, acesse o Instagram (@salveagraxabh).

Também é possível ajudar se juntando aos trabalhadores na manifestação da próxima segunda (5) para cobrar mais atenção ao setor. Conforme os organizadores, a concentração será na Praça da Liberdade, na região Centro-Sul, e, às 15h, o grupo sairá numa passeata em direção à sede da PBH, na avenida Afonso Pena. “O intuito não é atrapalhar a rotina da cidade, mas sim chamar a atenção do poder público e da sociedade para a importância do setor de eventos para a cultura, o entretenimento e à economia”, esclarece o diretor da Amee.

O que diz a PBH?

Procurada, a prefeitura esclareceu, por meio de nota (leia na íntegra abaixo), que está “em constante diálogo” com representantes do setor de eventos e de outras atividades não autorizadas a funcionar, “na busca pela construção de alternativas e de soluções para uma eventual retomada”. A nota explica ainda que alguns protocolos – para teatros, casas de shows, exposições, congressos e seminários – já foram desenvolvidos e estão disponíveis no site.

Segundo o Executivo municipal, serão analisados “os impactos nos indicadores epidemiológicos das últimas flexibilizações – em especial de bares, restaurantes, academias e clubes – para definir sobre avanços nos processos de reabertura”. Questionada sobre a possibilidade dessa reabertura acontecer ainda este ano, a PBH não respondeu.

O que diz o Governo de Minas?

A reportagem também procurou a administração do estado, que afirmou, em nota (leia na íntegra abaixo), que “avalia frequentemente os meios mais seguros para a retomada de atividades em todos os setores da economia, considerando critérios técnicos e científicos, bem como a situação de todos os padrões epidemiológicos”.

O Governo de Minas disse ainda que “os protocolos sanitários para cada setor são elaborados com rigor e divulgados somente a partir de amplas discussões e estudos realizados em consonância com as orientações da Secretaria de Estado de Saúde”. Também não houve resposta sobre possibilidade de alguma liberação até o fim do ano.

Nota da PBH na íntegra

Representantes do setor de eventos – assim como os das demais atividades ainda não autorizadas a funcionar – estão em constante diálogo com a Prefeitura na busca pela construção de alternativas e de soluções para minimizar os impactos da pandemia e para uma eventual retomada. A partir desse trabalho conjunto, foram elaborados, até o momento, propostas para protocolos de funcionamento de teatros e casas de espetáculo, exposições, congressos e seminários. Os documentos estão disponíveis neste link https://prefeitura.pbh.gov.br/reabertura-de-atividades. Regras para outros formatos de evento ainda estão sendo avaliadas.

A Prefeitura analisará os impactos nos indicadores epidemiológicos das últimas flexibilizações – em especial de bares, restaurantes, academias e clubes – para definir sobre avanços nos processos de reabertura.

Nota do Governo de Minas na íntegra

O Governo de Minas avalia frequentemente os meios mais seguros para a retomada de atividades em todos os setores da economia, considerando critérios técnicos e científicos, bem como a situação de todos os padrões epidemiológicos. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SEDE) mantém constante contato com o setor produtivo. Diversas reuniões são realizadas para mapeamento das demandas e encaminhamento ao Comitê Executivo Covid-19. O setor de eventos está incluído nas análises dos dados. Os protocolos sanitários para cada setor são elaborados com rigor e divulgados somente a partir de amplas discussões e estudos realizados em consonância com as orientações da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). 

Edição: Roberth Costa
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Escreve com foco na área de Guia e Cultura no BHAZ.

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