Wanderson promete abrir mão do salário e estatizar transporte e saúde

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Wanderson Rocha foi o segundo sabatinado na rodada de entrevistas do BHAZ (Moisés Teodoro/BHAZ)

O candidato do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) à PBH (Prefeitura de Belo Horizonte), Wanderson Rocha, se comprometeu a abrir mão integralmente do salário de prefeito; a armar a população pobre e, ao mesmo tempo, desarmar a Guarda Municipal; e a estatizar tanto o transporte público quanto hospitais privados e filantrópicos que recebem dinheiro público. Essas e outras informações foram reveladas durante entrevista exclusiva concedida ao BHAZ.

O professor de 45 anos é o segundo candidato a participar da sabatina que o BHAZ vai realizar com todos os 15 postulantes a assumir a PBH a partir de 2021. Acompanhe a cobertura das eleições municipais em todas as nossas redes e clique no nome do candidato para conferir as entrevistas realizadas:

Wanderson também afirmou que o atual prefeito de BH, Alexandre Kalil (PSD), é “só caô”; que, se eleito, vai implementar um IPTU progressivo na capital mineira, cuja proposta é cobrar mais de pessoas mais ricas; que vai atingir o piso salarial nacional dos professores; que fortalecerá conselhos populares; e que, como uma das principais ações para diminuir a perda de comerciantes, investirá em obras públicas.

‘Só caô’

O transporte público de Belo Horizonte, principalmente os ônibus, foi alvo de intensas críticas durante a pandemia do novo coronavírus, já que os usuários foram forçados a se aglomerar. Wanderson Rocha criticou o prefeito Alexandre Kalil (PSD) ao destacar a compra de vale-transportes de empresas de ônibus, que ficou em torno de R$ 44 milhões.

“Temos um prefeito que é só caô. Fala alto, vamos dizer assim, para aparecer na imprensa. Houve adiantamento de mais de R$ 40 milhões do dinheiro público para donos de empresas de ônibus. Pesquisas do movimento Tarifa Zero e da UFMG mostram que empresas reduziram o número de viagens o que aumentou o número de pessoas [nos coletivos]”.

Para solucionar os problemas da população nos coletivos, Wanderson pretende cancelar os contratos com as empresas que descumprirem o acordo. “Vamos estatizar o transporte e com isso garantir transporte de qualidade. Chega de dar subsídios às grandes empresas, pois recebem e não repassam a quem precisa. Temos uma das passagens mais caras”, pontuou.

“As pessoas têm ideia que, ao repassar às empresas, tudo vai melhorar, mas estamos sofrendo. [Vamos fazer a] Municipalização do transporte público e garantir, de fato, um transporte de qualidade. Enquanto tiver a concentração de poder nas mãos dessas famílias, pode ser Kalil, pode ser outro candidato, vão ter discurso, mas, quando assumir, vão se adequar”, complementou.

Arma para trabalhadores

Uma das propostas mais controversas de Wanderson Rocha é conceder, através do Estado – no caso, a PBH -, armas para “trabalhadores nas periferias, nos quilombos, nas aldeias, nas comunidades de pequenos e médios trabalhadores rurais”. Questionado sobre a medida, o concorrente pelo PSTU alegou que seria uma forma de defesa contra ao que ele chama de “posicionamento da Polícia Militar”.

“Vivemos 338 anos de escravidão. Aqueles que se colocaram na frente para romper com a escravidão foram mortos. Nós, negros e negras, somos assassinados a todo momento. O Estado está armado para nos matar. A PM vai na periferia para atirar primeiro e depois descobrir a nossa identidade. Neste sistema, se a gente não se organizar, o estado vai utilizar a PM, as forças armadas para nos oprimir e matar”.

“A PM tem um lado de defesa. Nós, negros e negras, estamos cansados de morrer. Não abrimos mão de deixar de ter no nosso programa esta pauta de luta”, complementou o professor. Ao mesmo tempo, Wanderson defende que a Guarda Municipal deve ser desarmada e voltar às origens, sendo uma defesa patrimonial.

“Guarda Municipal não tem que ser armada e não tem que ficar batendo em camelô, em trabalhador no dia a dia. Ela voltar mais para o patrimônio, objetivo original da Guarda. Hoje houve afastamento. Ao mudar a origem da Guarda para torná-la armada e repressiva, perdeu totalmente o que era o objetivo inicial”, alegou.

Perguntado se o PSTU seria tão extremistas quanto o bolsonarismo, Wanderson negou. “Quem está do lado da classe trabalhadora e do povo pobre tem um posicionamento firme. PSTU não abre mão de seu princípio, abrir mão dentro desse sistema é nos levar a ficarmos submissos ao poder econômico. Somos radicais no nosso princípio”.

Salário doado

O professor garante que, caso eleito, vai abrir mão do salário superior a R$ 30 mil. “Temos o compromisso no nosso programa de não receber dinheiro dos políticos. Temos um prefeito que recebe mais de R$ 30 mil e vereadores que recebem um absurdo. Passou da hora de reduzir o salário. Seja Wanderson, seja Firmínia [Rodrigues, vice] ou Vanessa [Portugal, postulante à vereança] não vamos receber salários para que não percamos nossa identidade”, prometeu.

Wanderson Rocha acredita que o momento é de mobilização para que aconteça a redução dos salários dos políticos e caso isso não aconteça, os vencimentos dele, se eleito for, serão “colocados à disposição dos movimentos”. “Queremos que Belo Horizonte se torne uma trincheira na defesa dos direitos do povo pobre. Vamos receber nosso salário de professor”.

Homem como cabeça de chapa?

O PSTU disputa as eleições na capital mineira desde 1996. Por 12 anos seguidos, sempre foi lançado o nome de uma mulher ao cargo de chefe do Executivo municipal. Agora, a legenda optou por um homem. Apesar disso, o postulante não acredita que o PSTU está indo na contramão, visto a abertura, ainda que lenta, para a participação das mulheres.

“Somos o partido com a maior proporção da composição de nossa chapa de negros e negras. Tirar mulher e colocar um homem negro não é retrocesso. O PSTU dá passo adiante para representação do povo negro. O recorte nosso é raça e classe. Não são todos os negros e negras e nem todas as mulheres que nos representam”, diz.

O candidato exemplifica a fala citando integrantes do governo Jair Bolsonaro. “A Damares [Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] com a política de regressão. O Sérgio [Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares] é um retrocesso às políticas defendidas pelo movimento negro. Colocamos avanço na cidade com negros e negras e estando na Prefeitura de Belo Horizonte”.

Educação

Wanderson se colocou contrário à volta às aulas presenciais neste momento de pandemia do novo coronavírus. “As escolas devem estar fechadas para preservar vidas. O PSTU é contra o retorno presencial, não só em Belo Horizonte”, disse. Mas, apesar de concordar com a postura de Kalil nesse aspecto, o postulante afirmou que a educação é um dos gargalos da gestão atual.

“Os professores foram tratados como caso de polícia. Cito o caso de 2018, a greve das professoras da educação infantil que reivindicavam algo prometido. A greve teve apoio da cidade, pelo fato que ocorreu com o Batalhão de Choque lançando bomba de efeito moral e jato d’água nas professoras. A atual gestão optou por ficar do lado do opressor dizendo que era greve política”, relembrou.

O candidato se comprometeu a pagar o piso nacional aos educadores alegando que o Executivo municipal tem recursos, pois sua candidatura fez “análises das contas da prefeitura”.

‘Tragédia anunciada’

A chegada do período do chuvoso traz o medo de novas tragédias devido às enchentes. Para Wanderson Rocha, “já existe uma tragédia anunciada” caso a atual gestão seja mantida. “Temos que avaliar a questão da Vilarinho, ver a situação da região Oeste, [avenida] Tereza Cristina. Nossa preocupação está com aqueles que ainda estão desabrigados”, disse.

As chuvas de janeiro mostraram, na visão do candidato, que o “socorro” chegou primeiro na área Central, enquanto as periferias passaram por dificuldades. “Chega deste discurso de falar que vai governar para todos. O PSTU apresenta proposta de mudança. Áreas de risco serão prioridade para que não tenhamos tragédias previstas”.

Ricos pagam mais

Outra proposta que consta no plano de governo do PSTU é o IPTU progressivo. As famílias mais pobres teriam isenção, enquanto a população rica pagaria mais imposto aos cofres públicos. Para Wanderson Rocha, essa prática não vai provocar fuga desta parcela da população da capital e consequentemente uma queda na arrecadação.

“Nós, trabalhadores, que estamos pagando a conta da crise. O sistema capitalista repassa a conta para os trabalhadores. Nossa ideia é fazer com que os ricos paguem as contas. Estas pessoas terão imposto para taxar imóveis em áreas nobres. Não há receio de fuga, pois eles podem abrir mão de suas fortunas. Os moradores ricos não vão abandonar a cidade. Os ricos devem muito ao nosso país”.

Comércio

Um dos impactos da pandemia do novo coronavírus é o fechamento de comércios e o desemprego provocado por isso. Wanderson Rocha defende a criação de políticas públicas para auxiliar aqueles que foram impactados, já que “Belo Horizonte não é uma ilha e sofre impactos econômicos do mundo”, conforme disse na entrevista.

“O sistema capitalista deixou nítido a quem vai ajudar. As grandes empresas foram socorridas e com as pequenas o governo não se preocupou. A PBH precisa direcionar esse orçamento para pensar nos pequenos negócios e aplicação de políticas públicas que vão gerar emprego, como a parte de construção. Política de obras públicas é fundamental para gerar emprego e aquecer os pequenos comerciantes que estão sofrendo com falta de política, seja por Bolsonaro e Mourão, seja pelo Zema”, afirmou.

Saúde

Para diminuir o tempo de espera dos usuários da saúde da capital, o candidato propõe aumento de leitos nos hospitais públicos. “Temos hospitais privados que recebem verba pública. Estes serão estatizados, assim como os filantrópicos, para que façamos atendimento amplo. BH tem dois imóveis, um que era clínica de atendimento a servidores, e estão abandonados. Eles têm estrutura para funcionar, basta reformá-los”.

Conselhos populares

Wanderson também aposta no fortalecimento de conselhos populares para a construção de políticas públicas e até mesmo na fiscalização – por exemplo, do transporte público. “Apostamos muito nos conselhos populares, uma forma de descentralizar as definições de políticas públicas. Nossa ideia é investir no fomento desses conselhos populares porque, se tem uma organização dos usuários, dos trabalhadores, dos moradores, que ajudam também na fiscalização do transporte… Essa própria consolidação dos conselhos nos ajuda a ter fortalecimento da PBH para fazer enfrentamento”, afirmou.

Disputa encerrada?

Os bons resultados do prefeito Kalil nas pesquisas de intenção de voto não desanimam Wanderson Rocha na campanha. “Participamos das eleições para dizer que este sistema não serve. Apresentamos um programa emergencial voltado para a classe trabalhadora e o povo pobre. Cada voto no PSTU é um voto no programa socialista que tem um lado que é o da classe trabalhadora”, disse.

A candidatura do PSTU é, segundo Wanderson, para “desmascarar o sistema”. “A Câmara [Municipal] não representa os desejos dos trabalhadores. Sejam os donos de ambulância, depósitos ou falsas lideranças religiosas. O PSTU está para desmascarar o sistema. Estamos dizendo que as eleições podem transformar a vida para pior”, conclui.

Edição: Thiago Ricci
Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política.

Thiago Ricci
Thiago Riccithiago.ricci@bhaz.com.br

Editor-executivo do BHAZ desde agosto de 2018, cargo ocupado também entre 2016 e 2017. Jornalista pós-graduado em Jornalismo Investigativo, pela Abraji/ESPM. Editor-chefe do SouBH entre 2017 e 2018; correspondente do jornal O Globo em Minas Gerais, entre 2014 e 2015, durante as eleições presidenciais; com passagens pelos jornais Hoje em Dia e Metro, TVs Record e Band, além da rádio UFMG Educativa, portal Terra e ONG Oficina de Imagens. Teve reportagens agraciadas pelos prêmios CDL, Délio Rocha, Adep-MG e Sindibel.

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