Mulher trans é esfaqueada mais de 30 vezes por dois homens

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Rebeka Curtts ficou desfigurada após o crime (Arquivo pessoal/Rebeka Curtts)

Uma mulher trans de 28 anos foi esfaqueada mais de 30 vezes por dois homens em Içara (SC), na manhã do último sábado (17). Rebeka Curtts Rodrigues levou mais de 100 pontos por todo o corpo, e teve o carro roubado pelos suspeitos. De acordo com a Polícia Civil de Santa Catarina, um inquérito foi instaurado, e os suspeitos são procurados. Um boletim de ocorrência foi registrado como latrocínio/tentado.

Ao BHAZ, Rebeka conta que, sem oportunidades na vida, virou garota de programa. O caso ocorreu com um cliente frequente dela. “Um dos homens que tentou me matar é um cliente com quem me relaciono há seis meses. Sempre saíamos, e ele parecia ser uma boa pessoa”, começa.

Na quinta-feira (15), o homem queria sair com Rebeka, mas disse que o cartão poderia não passar na hora do pagamento. “Eu falei que tudo bem, que ele poderia me pagar depois. Saímos e realmente o cartão não passou. Disse que ele poderia me pagar depois. Marcamos de encontrar no sábado à tarde, por volta das 16h”, continua.

Rebeka foi brutalmente agredida (Arquivo pessoal/Rebeka Curtts)

Contudo, o homem começou a mandar mensagens na madrugada de sábado para encontrá-la. “Era por volta de 2h e ele começou a falar comigo. Eu disse que estava tarde, que o encontraria mais tarde. Ele ficou insistindo muito, até que aceitei. A gente sempre se encontrava em motéis, mas ele me pediu para ir até a casa dele. Ele me passou o endereço, peguei meu carro e fui. Ele comentou que estava com um amigo, se tinha problema, e eu disse que não”.

Rebeka demorou um pouco para achar o local. Por volta das 6h encontrou com o homem e o amigo. A vítima estava dirigindo, o homem no banco dianteiro do passageiro e o amigo no de trás. “No mesmo momento já fui testar o cartão dele, pois não queria fazer outro programa sem me pagar. O cartão não passou, novamente. Aí encostamos um pouco na estrada para tentar de novo”.

Crime brutal

Enquanto tentava passar o cartão de novo, Rebeka percebeu que o homem estava com uma faca por baixo da camisa. “Eu falei com ele: ‘Não faça isso’. O amigo dele também estava com uma faca, e ele já veio e me golpeou no rosto. Os dois começaram a me esfaquear. Eu estava presa no cinto de segurança, sem conseguir fugir daquela situação. Eu gritava por socorro, mas não adiantou”.

Ela conta que tentou colocar as mãos no volante e levou uma facada logo abaixo de um dos olhos. “Logo depois um deles furou as minhas pernas. O meu cliente voltou com a faca para cima de mim. Ele acertou no peito, depois meu rosto. Eles me deram mais de 30 facadas. Me deu uma fraqueza, uma tontura. O cliente começou a me enforcar, me mandou calar a boca e ir para o banco de trás. O outro não parava de me dar facadas”.

“Quando finalmente tirei o cinto, consegui destravar a porta e me joguei para fora do carro. Eles tentaram arrancar o carro por algum tempo, e eu fiquei no chão. Acho que não estavam conseguindo por ser [um carro] automático. Ele [o carro] estava quase sem gasolina. Aí abandonaram um pouco depois”, continua.

Mais de 100 pontos

Rebeka conseguiu ir até um sítio próximo e pediu socorro. “Eu estava sangrando muito, achei que iria morrer. Quando cheguei no hospital, lembro que vieram sete profissionais para me costurar, levei mais de 100 pontos. Uma enfermeira até me deu uma correntinha de Nossa Senhora, disse que eu estar viva era um milagre”.

A vítima está há 10 anos na prostituição, sendo que há sete mora em Criciúma (SC). “Já passei por muita coisa, mas essa foi a mais cruel de todas. Uma trans sofre muito preconceito, e a Justiça na faz nada, é só mais uma na estatística, é como se não existíssemos. Se fosse eu esfaqueando alguém, eu já estaria presa. A polícia já teria batido na minha porta. Mas como é uma pessoa ‘normal’, está livre”.

Vida na prostituição

A vida na prostituição, segundo Rebeka, é uma forma de sobrevivência. “Estudei até os meus 18 anos, me formei no ensino médio. Cheguei a me matricular na faculdade de direito, mas não comecei o curso. Fiz dois meses de enfermagem, mas também não pude continuar. Pedi ajuda para o meu pai, mas ele disse que me ajudaria se eu estivesse vestida de homem. Mas essa sou eu, sou uma mulher trans, não poderia aceitar isso”.

“Eu precisei entrar nessa vida. Procurei alguns empregos, mas é muito difícil. Não é qualquer lugar que aceita uma pessoa trans. Eu tive que passar por mais de 20 entrevistas, e acabei contratada. Mas não passei nem no período de experiência, simplesmente por ser trans. Acaba sobrando somente essa opção, infelizmente”, desabafa.

Rebeka está fazendo um curso de culinária, e sonha em ser chefe de cozinha e largar a prostituição. “Eu já estava no meu quarto mês de curso, estava muito feliz. Estava tudo muito bom, até que isso aconteceu. Não quero mais essa vida, mas é difícil sair”, explica.

Nesta quarta-feira (20), por meio das redes sociais, Rebeka convocou uma manifestação em prol da visibilidade trans. “Queremos pressionar o Ministério Público, as autoridades em geral, para que entendam que existimos e merecemos respeito. Quero justiça, quero esses dois presos pelo que fizeram. Sabe-se lá quantas outras pessoas esses monstros já feriram”. A vítima também iniciou uma vaquinha online para custear tratamento e cirurgias que ainda serão necessárias. Quem quiser ajudá-la, basta acessar este link.

Procurados

Em entrevista ao BHAZ, o delegado Marcelo Viana, responsável pelo caso, disse que os responsáveis são procurados pela polícia. “O caso aconteceu no sábado e foi atendido por um delegado de plantão. Agora, o caso nos foi entregue e estamos dando procedimento com as investigações. Um inquérito policial foi instaurado para apurar a autoria do crime. Já sabemos que são dois suspeitos, que já foram identificados, mas ainda não foram localizados. Devemos pedir a prisão preventiva de ambos”.

Edição: Roberth Costa
Vitor Fernandes
Vitor Fernandesvitor.fernandes@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018 e 2019) e Sindibel (2019).

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