Nilmário quer ônibus de graça, fibra ótica nas favelas e guarda sem armas

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Nilmário Miranda é o quinto sabatinado na rodada de entrevistas do BHAZ (Moisés Teodoro/BHAZ)

O ex-deputado federal e estadual e candidato à PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) pelo PT, Nilmário Miranda, promete criar um dia com ônibus gratuitos em Belo Horizonte e implementar a tarifa zero. O também ex-secretário de Direitos Humanos do Governo Lula propõe, ainda, levar internet com fibra ótica para todas as favelas da capital; criar um auxílio para quem recebe o bolsa família e fazer parcerias com os hospitais privados para zerar a fila da saúde na capital. Essas e outras informações foram reveladas pelo concorrente durante entrevista exclusiva concedida ao BHAZ. 

O ex-parlamentar é quinto a participar da sabatina que o portal realiza com todos os 15 postulantes a assumir a PBH a partir de 2021. Acompanhe a cobertura das eleições municipais em todas as nossas redes e clique no nome do candidato para conferir as entrevistas realizadas:

O petista também defendeu o desarmamento da Guarda Civil Municipal de BH; a volta dos trocadores para os coletivos da cidade; e uma frente ampla de investimentos para retomar a economia da capital. Nilmário afirmou, ainda, que, apesar de uma onda de renovação política, com nomes mais jovens sendo lançados, o PT preferiu apostar em seu currículo. “A opção pelo novo em 2016 e 2018 foi péssima, um desastre e um retrocesso no Brasil. O novo não quer dizer renovação sempre. Às vezes, renova para pior. Hoje as pessoas querem gestão e experiência”, afirma.

Fibra ótica nas favelas

Uma das promessas apresentadas por Nilmário é levar internet de qualidade para os aglomerados da capital, por meio das unidades de ensino da PBH, com auxílio da Prodabel (Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte) “Toda escola municipal vai ter fibra ótica para os alunos, para a família e para vizinhança. As escolas serão polo. A fibra ótica tem que subir o morro, aí é a Prodabel, a prefeitura que faz, porque o mercado não faz isso não, só vão onde dão lucro”, disse. “A pandemia mostrou que tem duas BH, a incluída e a excluída do mundo digital”, acrescentou o ex-deputado. 

Questionado sobre o recurso investido para levar esse recurso para a periferia da capital mineira, Nilmário disse se tratar de um “processo”. “Isso é fundamental se não você vai manter a cidade na exclusão digital? Metade da cidade ou mais da metade está excluída no mundo digital? É a forma perversa da exclusão. É um processo”, respondeu. “A cidade não pode ser só do capital, não pode ser do mercado. O capital já tem, não precisa de poder público. Quem precisa é quem não tem acesso ao digital, a moradia, transporte, saneamento…”, complementou.

Tarifa zero e catraca livre

Questionado sobre a existência de uma “caixa-preta” na BHTrans, Nilmário disse que trata-se de uma invenção. “Isso é falso inimigo. Transfere a culpa para outro alvo. Ele [Alexandre Kalil, prefeito de BH] teve quatro anos para abrir a caixa-preta, porque ele permitiu a passagem chegar a R$ 4,50 hoje? Passagem cara, uma das mais caras do Brasil. Que caixa-preta é essa que o prefeito passa quatro anos e não contesta um aumento e não interfere. Claro que foi com a anuência dele ter reduzido a frequência de ônibus na pandemia. É uma péssima coisa ter tirado os cobradores, que só beneficiou empresários e prejudicou a cidade como um todo”, disse. 

Na sequência, o petista afirmou que pretende criar o dia da catraca livre e implementar a tarifa zero na capital. “Quero estender o passe livre para estudantes, desempregados, estender o dia da catraca livre, que é um dia de alegria na cidade. E pretendo chegar em algum momento, não neste momento de crise, a tarifa zero, construindo a primeira tarifa zero na cidade”, afirmou. 

‘Guarda não é polícia’

Em relação à segurança, Nilmário disse que vai desarmar a Guarda Civil Municipal e fazer com que ela cumpra uma função de intermediação e resolução de conflitos. “Não é polícia, não tem função de polícia. Vou lutar para desarmar essa cidade. O armamentismo é coisa de fascismo, nós somos da mediação pacífica e prevenção da violência”, disse. 

“A guarda não é polícia. Isso aí tá errado, nós temos que trabalhar junto com as polícias e a Guarda Municipal, mas cada um em suas funções. Eu acho que ela deve ser uma guarda que deve estar equipada digitalmente para acompanhar tudo que está acontecendo na rede de segurança pública e cumprir o seu papel de ser um agente educador através das escolas municipais. Ela é importante na prevenção da mediação pacífica de conflitos. Ela tem papéis fundamentais para evitar a violência, agora polícia não. E nem tem base legal, isso é demagogia de quem fala isso”, finalizou. 

Rigor na volta às aulas

A volta às aulas, um dos temas mais debatidos do momento por conta da pandemia, será tratada com rigor caso Nilmário seja eleito. Segundo o petista, antes de discutir o retorno, será preciso conversar com representantes dos setores. “Você tem que ouvir as famílias, criar fórum para discutir isso [retorno das aulas]. Tem que falar com os profissionais e trabalhadores da educação, não só professores, mas todos que trabalham na escola. E tem que discutir com a ciência quais são os riscos”, afirma. 

“Sou contrário à volta às aulas este ano, isso para mim está fora de cogitação, pois nós não temos controle da pandemia, é um vírus diferente, não existe precedentes a que se recorrer. Então, a gente não pode correr risco e nem botar pessoas em risco. Crianças têm contágio mais difícil, mas tem contágio e podem levar para casa, levar para pessoas de grupos vulneráveis. Então não tem cabimento voltar aula este ano”, pontua. 

De acordo com o petista, a pandemia ainda é desconhecida e não tem respostas. Por conta disso, será necessário preparar a estrutura física das escolas para um possível retorno com segurança. “Para receber pessoas caso tenha que manter o isolamento social, para proteger crianças, os trabalhadores e as famílias que estão lá fora, tem que fazer isso”, diz. 

“O mais urgente é no dia 2 de janeiro dizer, em alto e bom som, que vai voltar a escola integral de zero a seis anos. É um absurdo Belo Horizonte ter retroagido nisso”, destacou o candidato, que tem a proposta como mote de sua campanha.

Reabertura da economia

O petista elogiou a postura do atual prefeito Alexandre Kalil (PSD) no enfrentamento à pandemia e disse que faria o mesmo. “Eu o apoiei. Eu acho que, se eu fosse o prefeito no lugar dele, teria feito o que ele fez. Recorrer à ciência, trazer a orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde), a orientação de pessoas vinculadas à universidade e a ciência, como um todo, e fazer a quarentena e isolamento duro. Quem fez isso, se deu bem. Quem não fez, provocou mortes evitáveis”, disse Nilmário. 

Segundo o ex-legislador, caso eleito, a reabertura seguirá o mesmo ritmo, obedecendo os parâmetros epidemiológicos e podendo fechar a economia a qualquer momento em caso de agravo. O candidato espera que Kalil faça o mesmo. “Quanto a reabertura, espero que ele [Kalil] mantenha o mesmo padrão, consultar a ciência. Se houver a aprovação da ciência, tem que resistir a qualquer tipo de pressão empresarial, porque a vida vale mais do que isso”, afirmou. 

Investimentos 

Para retomar a economia da cidade, o candidato pretende atacar em várias frentes, como o retorno dos cobradores, ampliação das creches e fortalecimento das regionais. “É um absurdo tirar cobradores. Parece pouca coisa, mas não é. Além de ser um desconforto generalizado para o usuário de transporte, que é a maioria do povo, tirou empregos. Houve um retrocesso ao fechar escola integral na jornada alternativa. Voltar isso gera empregos”, destacou. 

“BH tem nove cidades, as regionais. É um absurdo ter esvaziados as regionais, era uma espécie de subprefeituras. Então nós vamos recompor as regionais. Elas serão com uma espécie de desenvolvimento local. Eu trabalho com dois eixos de ideia: um é a vocação de BH para ser uma cidade inteligente, com o BHTec e parque tecnológico. Tem que retomar isso”, disse. “Um outro [eixo] popular para gerar trabalho e renda e o máximo possível de empregos e retomar projetos democratizadores como o da cidade inteligente”, acrescentou. 

Auxílio para pobres 

Além disso, Nilmário propõe a criação de um auxílio para as famílias mais pobres da capital, que dependem do Bolsa Família. “Defendo a renda municipal. A obrigação é do governo central, do governo do perverso lá [Jair Bolsonaro]. Mas, não sei o que vão fazer, o Ministério da Economia trabalha na lógica do capital financeiro, não é do povo. É uma lógica neoliberal radical do Paulo Guedes”, disse. 

“Defendemos a manutenção do Bolsa Família, agora, podemos acrescer uma renda municipal. Porque, com o desemprego, as famílias que têm Bolsa Família e tem renda baixa, tinham emprego, tinham trabalho, agora não têm nem renda e nem trabalho. Então, só a renda da Bolsa Família é insuficiente para uma família: R$ 170 para cada pessoa. Complementar é justo, fazer um programa municipal de complementação a Bolsa Família, isso é justo”, afirmou o candidato. 

Segundo Nilmário, as propostas de crescimento econômico precisam priorizar os mais pobres. “A saída dela [da crise] tem que ser uma saída que não favoreça o capitalismo. Durante a pandemia, os ricos ficaram mais ricos, os milionários ficaram bilionários e os trilionários ficaram mais ricos. E o povo empobreceu, voltamos a ter fome, desalento, então nossa visão como socialistas nós temos que preocupar com todos, mas especialmente com os mais pobres”, disse.

Metrô e bike

Nilmário propôs dar sequência ao plano de construção de ciclovias na capital, algo que, segundo o próprio, demoraria muito tempo para ficar pronto, caso siga sob a gestão de Kalil. “Aqui tem um programa para 411 km de ciclovias, e não foi feito nada. Se pegar o ritmo do Kalil, vai demorar 50 anos para fazer esse programa e ele é fundamental para reduzir o carbono a emissão de gases e para o cidadão bem viver. Então, fazer ciclovias hoje na cidade do bem viver é fundamental”, disse.

Quanto ao metrô, apesar de ser um assunto da esfera federal, o candidato disse que pretende ampliar o diálogo com os governos para conseguir trazer novas linhas para BH. “Fazer o ramal Calafate ao Barreiro é fundamental. Não sai da prefeitura, mas ele [o prefeito] tem o dever de articular. São R$ 2 bilhões, isso não é uma coisa extraordinária. Você pode conseguir com uma bancada, com emendas de bancada, buscar verbas onde tiver, mas pode ser feito o metrô que é muito importante também”, destacou. 

‘Kalil, mãe de empresário’

Ao BHAZ, o prefeito Alexandre Kalil disse que o sistema de transporte da capital não tem solução. Questionado sobre a afirmação do atual gestor, Nilmário discordou. O petista afirmou que o prefeito foi conveniente com os empresários do ônibus. “Claro que tem solução, é óbvio que tem. Só que a solução dele [Kalil] não é a que interessa à cidade”, disse. 

“Por exemplo, a retirada de cobradores é indefensável sob qualquer ponto de vista. Em meio à perda de empregos, perdemos empregos e a vida do motorista e dos usuários virou um inferno. E ele [Kalil] entrou em um ônibus, talvez nunca tenha entrado antes, durante a eleição de 2016, foi da casa da empregada dele até um terminal e falou que iria abrir a caixa-preta da BHTrans e enfrentar empresários. Eu nunca vi uma mãe para empresário igual o Kalil foi”, concluiu Nilmário.  

Convênios e mutirões na saúde 

A pandemia aumentou a fila de espera por consultas e cirurgias na capital. O candidato do PT disse que pretende atacar o problema com a mobilização de mutirões e parcerias com os hospitais privados da cidade. “Vai ter que fazer um esquema de emergência. A cidade está preparada para isso, os profissionais estão preparados para poder fazer tudo isso. Já existe um monitoramento do que está atrasado, então já se sabe o que tem que ser feito”, disse. 

“Só o sistema público está sobrecarregado, então, teria que ver o sistema privado também, de alguma maneira, ser usado para zerar essa cirurgia eletiva, por exemplo. Com parcerias, não teria custo para o cidadão em hipótese nenhuma, sobretudo os mais pobres”, propõe. 

Ainda na área da saúde, Nilmário disse que vai abrir a maternidade Leolina Leonor, construída na região de Venda Nova. “Nós temos um orçamento do hospital Leolina Leonor, uma maternidade que está fechada há 11 anos. Está construída e fechada. A Saúde da Família, que é um programa maravilhoso, é insuficiente. Vamos completar a saúde, as lacunas da saúde, do melhor sistema de saúde conhecido, um dos melhores do mundo que é o SUS”, afirmou. 

PT parou no tempo? 

Questionado sobre a escolha de seu nome para a disputa do pleito municipal em detrimento de figuras mais jovens, Nilmário destacou sua candidata a vice Luana de Souza, de 24 anos, e negou que o partido tenha parado no tempo. “De jeito nenhum. Eles tentaram destruir o PT, usaram de forma judicial, aparato judicial para destruir o PT. A Justiça foi usada para tentar destruir um partido e não destruiu, ele está em plena reconstrução. Talvez a grande surpresa dessa eleição vai ser o PT, aqui em Belo Horizonte inclusive”, disse.

Edição: Thiago Ricci
Rafael D'Oliveira
Rafael D'Oliveirarafael.doliveira@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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