Criança vive com enjoos, falta de apetite e tristeza após estupro coletivo

viatura da policia
Vítima de estupro coletivo tem apenas 11 anos (Amanda Dias/BHAZ)

Vítima de um estupro coletivo, a garotinha de 11 anos está sem apetite, com muito sono e enjoos. Desde domingo (18), quando sofreu a violência sexual, ela tem que tomar muitos remédios. Além de lidar com a dor de ter sido tão violentada, a criança precisa evitar as doenças sexualmente transmissíveis. “Ela vai ter que ir toda quinta-feira [ao hospital], o que eu sinto é muita tristeza. Não consegui dormir e estou abobada, inquieta. Fico me perguntando o que está se passando na cabeça dela [vítima]”, disse a mãe, ao BHAZ, na noite de hoje (relembre o crime aqui). O abuso foi cometido por quatro meninos, com com idades entre 12 e 13 anos.

O estupro foi gravado por um jovem de 23 anos. Foi por meio do compartilhamento da filmagem, que a mãe da vítima e a família ficaram sabendo do crime. A mulher chamou a polícia e, depois disso, começou a ser ameaçada. Ela e a família precisaram se mudar às pressas de casa. Uma vaquinha foi criada para que a família consiga pagar pelo novo lar (saiba mais abaixo). “Eu não consigo descansar, foi muita covardia. E ainda falaram que iriam matar meu marido, que estupro era muito ‘pesado’, e que tinham filhos. Eu respondi que ela é a minha filha”, acrescentou a mãe. Por segurança, as identidades dos envolvidos e o bairro onde a família mora serão preservados.

‘Afetou a todos’

A família também vai receber ajuda psicológica. “Afetou todo mundo. Meu marido está inquieto, meu filho mais velho tem pensamentos ruins, e o mais novo também está agitado”, revelou a mãe. A vítima também conversou com a reportagem. Abalada e receosa, ela contou que tem ficado só em casa, e que passa o tempo brincando com o irmão mais novo. “É triste. A casa nova é legal, me sinto protegida”, disse.

Força

Após uma noite na delegacia, a mãe da garotinha de 11 anos não teve paz. Logo após a saída do marido e dos filhos da residência, três homens apareceram e a ameaçaram. “Entrei em desespero. Arrumei carreto e dinheiro emprestado. Juntei as coisas de qualquer jeito. Não dava mais para ficar lá [no endereço antigo]”, lamenta. A mãe “fortaleza” ainda impediu que o filho mais velho ou o marido cometessem qualquer tipo de violência. “Eu fiz o certo, chamei a polícia”, explica.

O homem que filmou a cena também foi detido e levado à delegacia. Procurada pelo BHAZ, a “Polícia Civil de Minas Gerais informou que ratificou o flagrante do homem de 23 anos e que os adolescentes envolvidos foram imediatamente encaminhados à audiência. O processo encontra-se no Poder Judiciário, na Vara da Infância e Juventude em Belo Horizonte”.

Solidariedade

Chocados, os empregadores da mãe da vítima resolveram criar uma vaquinha online, a partir da qual contaram o caso usando nomes fictícios. “Vou começar do começo. A Joviana é empregada doméstica há muitos anos. Começamos a nossa relação com faxinas semanais e logo ela passou a ser exclusiva e com carteira assinada. Já são 21 anos!”, inicia o texto.

“Joviana foi mãe de cinco filhos. Nesse tempo, acompanhei o crescimento de três desde pequeninos e o nascimento de outros dois. Infelizmente vivenciei com ela a morte dos dois mais velhos, 18 e 16 anos. Destino cruel de muitos jovens negros da periferia. Joviana, mesmo despedaçada, seguiu firme. Tinha mais três pra cuidar”, continua.

“Dentre eles, a Carolina, que se parece com Catarina, nome da minha filha mais velha. A gravidez da Carolina ocorreu junto com a da Sarah, minha outra filha. Carolina completou 12 anos [a vítima ainda tem 11 anos]. Estuda. Brinca na rua de pegador. No último domingo, dia 18 de outubro, estava com amigas na rua de casa justamente brincando de se esconder quando foi abordada por um adolescente que ela já conhecia. Saíram juntos e o que se seguiu foi o horror”, afirma, antes de relatar o estupro coletivo.

A vaquinha tem o intuito de quitar o aluguel do novo lar encontrado às pressas pela família da vítima e equipar minimamente a residência. A veracidade do ato de solidariedade foi checada pelo BHAZ. Para saber mais e contribuir, clique aqui.

Crime sexual

O crime de estupro é previsto no art. 213, e consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. Mesmo que não exista a conjunção carnal, o criminoso pode ser condenado a uma pena de reclusão de seis a 10 anos.

O art. 217A prevê o crime de estupro de vulnerável, configurado quando a vítima tem menos de 14 anos ou, “por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. A pena varia de 8 a 15 anos.

Já o crime de importunação sexual, que se tornou lei em 2018, e é caracterizado pela realização de ato libidinoso na presença de alguém e sem sua anuência. O caso mais comum é o assédio sofrido por mulheres em meios de transporte coletivo, como ônibus e metrô. Antes, isso era considerado apenas uma contravenção penal, com pena de multa. Agora, quem praticá-lo poderá pegar de um a 5 anos de prisão.

Edição: Aline Diniz
Aline Diniz
Aline Dinizaline.diniz@bhaz.com.br

Editora do BHAZ desde janeiro de 2020. Jornalista diplomada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) há 10 anos e com experiência focada principalmente na editoria de Cidades, incluindo atuação nas coberturas das tragédias da Vale em Brumadinho e Mariana. Já teve passagens por assessorias de imprensa, rádio e portais.

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