Padre lança clipe com inclusão LGBT e fala da hipocrisia na igreja

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O padre Denis-Ricard lançou um clipe de inclusão, respeito à diversidade e contra a hipocrisia religiosa (Reprodução/YouTube)

Um padre de São Paulo lançou um clipe falando da inclusão dos LGBTs no ambiente católico e sobre a hipocrisia que permeia fieis até hoje. O sacerdote Denis-Ricard, 35, compôs a música ‘Pra onde foram os bons?’, que tem uma mensagem forte sobre o momento atual da sociedade. Ao BHAZ, o religioso conta que a ideia do clipe surgiu após experiências pessoais com minorias, e diz que a inclusão é necessária.

Gravado em clima urbano em pontos da cidade de São Paulo, de maneira ousada, o roteiro trata sobre preconceito, prostituição, insensibilidade social e convida à empatia, misericórdia e missionariedade. “A composição é minha, surgiu após algumas reflexões e leituras de um livro do Papa Francisco. A música vem muito de encontro com o que o ele apresenta para a nossa atualidade da igreja, de acolhimento, respeito. Também me inspirei na frase do Papa Leão XIII que diz: ‘A audácia dos maus, se alimenta da covardia e da omissão dos bons'”.

O clipe tem relação e é direcionado para o público cristão. “É um clipe que traz a reflexão sobre as questões sociais. É algo que Jesus Cristo sempre disse. Teremos sempre pessoas boas e outras que não tem tantas boas intenções assim. Precisamos saber de onde fazemos parte”.

“Aonde está o amor? Me perguntou um dia o Senhor. Como pode esquecer? ‘Amai-vos como eu vos ordenei'”, diz trecho da letra da música (veja completa abaixo). A canção continua e diz que a igreja está “com tantos corações vazios”. “Servos que não servem. Eu quero amigos. Orgulho, vaidade o que fizeram? Eu ensinei: misericórdia é o que eu quero. Cadê a chama que eu deixei ali?”, segue a música. Asssista:

Baseado em fatos reais

O roteiro foi baseado em fatos reais, com a perspectiva de experiências vividas pelo padre. “Quando eu tinha 20 anos eu saía da catedral e passava por um ponto de prostituição. Eu sempre passava pelo outro lado da rua, até que senti o chamado para ir até elas. Fui até lá, me apresentei, rezei. falei o quanto Deus as amava, foi um momento de emoção, muitas choraram. É uma reflexão sobre a hipocrisia. Quantas vezes mudamos de lado, não só da rua, por conta de alguém que é diferente?”, questionou.

O religioso recorda que ficou anos na pastoral de rua e descreve as experiências foi um encontro que o levou a rever suas estruturas morais também. “Estruturas de preconceito não são da igreja, não são de Jesus Cristo, são nossas. Trouxemos também a questão dos moradores de rua, no clipe aparece uma pessoa que é rejeitada. Jesus está presente nessas minorias que são excluídas”, explica.

Casamento LGBT dentro da igreja

O papa Francisco defendeu, nos últimos dias, a união civil entre homossexuais (relembre aqui). E, segundo o padre, o novo papa traz uma reforma para a igreja católica. “Desde que o papa começou seu pontificado, ele tem nos feito refletir muito sobre a união homoafetiva, sobre os novos modelos de família. A igreja tem dado passos muito grandes, importantes. A fala dele é pelo respeito dos direitos da comunidade LGBT”.

Contudo, o padre acredita que o casamento religioso entre pessoas do mesmo sexo é algo mais complicado. “Estamos em um caminho longo a ser percorrido. Já temos as pastorais da diversidade, que é uma maneira de crescer tanto na reflexão quanto no acolhimento de irmãos. Dentro de uma reflexão teológica existem pontos que trazem uma dificuldade, porem a mudança já está acontecendo. É difícil falar o que poderá vir. Por ser muito sábia, a igreja é cautelosa para ver como a humanidade vai caminhando”.

A produção foi lançada há uma semana e tem pouco mais de 5 mil visualizações no YouTube. De acordo com o padre, o clipe tem surtido efeito entre fieis. “Tenho recebido muitas mensagens. Duas mães se sentiram muito consoladas, pela figura daquela pessoa tatuada. Elas já viram seus filhos sofrerem preconceito por isso. Também recebei mensagens de pessoas da comunidade LGBT, pessoas emocionadas, agradecidas. E, alguns irmãos que pertencem a essas comunidades, têm se sentido mais livres para estar participando das missas”, completa.

Letra de ‘Pra onde foram os bons?’

Aonde está o amor? Me perguntou um dia o Senhor
Como pôde esquecer? “Amai-vos como eu vos ordenei”. (Bis)

Igrejas com tantos corações vazios
Servos que não servem
Eu quero amigos Orgulho, vaidade o que fizeram?
Eu ensinei: misericórdia é o que eu quero o o o Cadê a chama que eu deixei ali?

Pra onde foram os bons?
Deixa brilhar a luz! Tira debaixo da bacia.
Pra onde foram os bons, que expressam meu amor?
Que entregam sem medo sua vida? (2x)

Aonde está o amor me perguntou um dia o Senhor
Como pôde esquecer: és quente ou frio assim eu vos falei.
Aonde está o amor me perguntou um dia o Senhor
Como pôde esquecer: és quente ou frio assim eu vos falei
.

O amor perdoa, é paciente e suporta
Estende a mão. A quem? Isso não importa
Assim conhecerão que sois meus discípulos
Se então lutarem pra viver o que eu digo.
Cadê a chama que eu deixei ali?

Edição: Roberth Costa
Vitor Fernandes
Vitor Fernandesvitor.fernandes@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018 e 2019) e Sindibel (2019).

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