Bolsonaro reclama de protestos no G20 e expõe ao mundo o racismo no Brasil

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Bolsonaro nega e expõe ao mundo nosso racismo (Arquivo EBC + Reprodução/Twitter)

Ele já negou o fogo na Amazônia, a Covid-19, briga contra a cura da doença e, agora, ignora o racismo no contexto do brutal assassinato de um gaúcho negro e do dia da Consciência negra. Como seu vice, Hamilton Mourão, que tem mais traços de negro e de índio do que de branco, Bolsonaro afirmou, neste sábado (21), que a indignação ao racismo é tentativa de importar tensão alheia. Negou o racismo em um fórum internacional (G20), pautado para debater a retomada da economia e o combate à pandemia do coronavírus. Ao reclamar dos protestos, expôs ao mundo o histórico e odioso racismo brasileiro.

João Alberto de Freitas, negro e pai de família, foi covardemente espancado até a morte por seguranças do Carrefour, nas dependências do hipermercado em Porto Alegre. A agressão se deu na quinta (19), um dia antes do Dia da Consciência Negra.

O pai da vítima, João Batista Freitas, foi incontestável ao identificar o episódio de racismo. “Basta ver a força da agressão. Primeira coisa que perguntei foi: ‘Ele estava roubando?’. Se não estava, por que ser agredido? E por que ser agredido brutalmente pelos seguranças?”.

Mourão finge que não vê o crime

O vice-presidente da República ainda recorreu à sua experiência nos states – morou lá por dois anos- pra dizer que aquilo que viu lá é que era racismo. O odioso preconceito não se manifesta apenas na segregação. Antes da segregação e violência física, esse tipo de ódio está presente em vários sutis e flagrantes aspectos da realidade brasileira.

Basta contar, se houver, quantos ministros negros estão no governo federal. Quantos são governadores de Estado e quantos ocupam cargos de direção relevantes na área pública e na área privada?

Prefeitos negros eleitos são só 32%

Entre os prefeitos eleitos no primeiro turno dessas eleições municipais, 32% se declararam pretos ou pardos, contra 67% que se descreveram como brancos. Em 2016, 29% eram negros e 70,4%, brancos. Na população, os negros são 56%.

E mais, os salários pagos aos negros são menores do que o dos brancos. Nos cursos superiores, os negros são minoria. Por outro lado, nas estatísticas da violência, os pretos são maioria.

A taxa geral de assassinatos de negros no país, de 2008 a 2018, saltou 11,5%; a de não negros recuou 12,9%. Segundo o Atlas da Violência 2020, 67% das vítimas de feminicídio são pretas e pardas. Para as não negras, teve queda de 11,7%.

Desigualdade existe e tem cor

O próprio Mourão se contradisse ao reconhecer que, no Brasil, existe desigualdade e que ela, por coincidência, afeta mais aos negros. “Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas, e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidade da sociedade moderna, são gente de cor”, apontou, recorrendo a um eufemismo para não dizer preto ou negro.

Antes de João Alberto, em fevereiro de 2019, Pedro Henrique Gonzaga, 19, foi sufocado por um segurança em um supermercado Extra na Barra da Tijuca (RJ). Em setembro do mesmo ano, um adolescente foi torturado por seguranças do supermercado Ricoy, em São Paulo. Adivinhe a cor de ambos, vice-presidente Mourão?

Se ele e o presidente são negacionistas, uma série de autoridades condenou o brutal episódio de racismo da morte de João Alberto. Desde o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, e outros ministros da Corte, os do Senado e da Câmara dos Deputados, governadores, deputados.

Presidente tenta se justificar ao mundo

Ao se manifestar, pela primeira vez, sem os necessários votos de pesar, Bolsonaro o fez internacionalmente, durante a cúpula do G-20. Num crasso e primário erro de porta-voz, ele disse para o mundo que ele nem o Brasil são racistas. O debate do encontro internacional era a Covid-19 e comércio entre países, cara pálida. Não preciso nem escrever aqui o que estão falando dele lá fora.

Além desse, o assassinato de João Alberto teve outros requintes de crueldade racial, com 15 funcionários do Carrefour assistindo, gravando e ainda narrando a infame agressão pelo rádio.

Comparação com EUA é inevitável

O Instituto-Geral de Perícias de Porto Alegre apontou, preliminarmente, a asfixia como a causa mais provável da morte. Não há como não comparar o caso ao do norte-americano George Floyd, assassinado, em maio deste ano, em circunstâncias semelhantes. Lá como cá, foi causador de forte onda de protestos raciais pelos EUA.

Provavelmente, o presidente e seu vice irão negar também que houve escravidão no Brasil e que o país foi campeão na importação de negros. Foram contrabandeadas cerca de 4 milhões de vidas que importam do tráfico negreiro internacional. E agravante da crueldade da elite nacional, foi o último país a abolir a escravatura por várias manobras do poder branco de seus senadores da época.

A pergunta que fica é como combater o racismo em um governo negacionista?

Orion Teixeira
Orion Teixeiraorionteixeira.orionteixeira@gmail.com

Jornalista político, Orion Teixeira recorre à sua experiência, que inclui seis eleições presidenciais, seis estaduais e seis eleições municipais, e à cobertura do dia a dia para contar o que pensam e fazem os políticos, como agem, por que e pra quem.

É também autor do blog que leva seu nome (www.blogdoorion.com.br), comentarista político da TV Band Minas e da rádio Band News BH e apresentador do programa Pensamento Jurídico das TVs Justiça e Comunitária.

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