Família luta por justiça após morte de mulher operada em clínica na Zona Sul de BH

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Fernanda morreu depois de passar por procedimento estético em clínica na Zona Sul de BH (Arquivo EBC + Arquivo pessoal)

Acostumada a fazer procedimentos estéticos, a mineira Fernanda Magalhães foi a uma clínica na Zona Sul de BH para realizar um preenchimento que acabou custando a vida dela. A fatalidade ocorreu há quase dois anos e, desde então, a família tenta conseguir, na Justiça, uma punição para o médico Norberto Paes Campos. Responsável pelo procedimento, ele é acusado de erro médico e negligência no caso da paciente. O médico, que já acumula outras acusações do tipo, defende que tudo foi feito dentro das normas.

Norberto é especialista em nutrologia, ginecologia e obstetrícia, mas realiza procedimentos estéticos em uma clínica no bairro Funcionários, na região Centro-Sul da capital. Fernanda começou a se consultar com ele em 2014 e fez vários procedimentos, até que, em fevereiro de 2019, acabou não resistindo a uma embolia pulmonar após um dos procedimentos. De acordo com Laís Araújo, advogada da família, ela chegou a sofrer várias complicações ao longo dos anos, mas o médico as classificava como “ansiedade” e “estresse”.

“Ele é uma pessoa muito influente, mas tem mais de 11 processos por erro médico e até assédio contra algumas pacientes”, contou Laís ao BHAZ. “Ele é obstetra e se passa por cirurgião [plástico]. Com ela [Fernanda], ele fez aplicação de mais de um litro de PMMA e ela morreu. O processo de indenização já está em 18 milhões e a clínica não dá nenhuma resposta”, diz. Laís conta ainda que o médico chegou a ser denunciado também por um paciente que passou por um procedimento de aumento de pênis mal sucedido.

PMMA

O PMMA (polimetilmetacrilato), substância utilizada no procedimento que tirou a vida de Fernanda, é autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apenas em casos específicos. De acordo com a agência, o uso do produto é permitido em casos de correção de lipodistrofia – alteração no organismo que leva ao acúmulo de gordura em algumas partes do corpo – causada pelo uso de medicamentos antirretrovirais e para correção volumétrica facial e corporal – ou seja, preenchimento.

No Brasil, o uso do PMMA na área da saúde é de classe IV, de máximo risco. Apesar de não proibir, a Anvisa esclarece que não é indicada a aplicação de PMMA para aumento e volume, seja no corpo ou no rosto. A avaliação final sobre a aplicação e orientações técnicas de uso é de responsabilidade do médico, que deve avaliar caso a caso.

‘Doutor bumbum mineiro’

De acordo com Laís, Fernanda conheceu o médico por meio do Instagram. “Ele é muito famoso, fazia procedimentos em pessoas do Brasil inteiro”, conta a advogada, que ainda cita uma coincidência: “Esse caso é igualzinho ao do doutor Bumbum do Rio de Janeiro. Ele era conhecido como “doutor Bumbum mineiro”. Só que lá [no Rio de Janeiro] ele foi preso no dia seguinte. Aqui, faz quase dois anos que nada acontece”.

A advogada conta ainda que antes do procedimento mal sucedido, Fernanda já havia gastado mais de R$ 200 mil em intervenções estéticas, todas feitas com Noberto. “Nesses cinco anos, ela fez vários procedimentos. Rosto, nariz, mão, panturrilha, coxa, costas… Só no glúteo, ele colocou mais de um litro”, conta. Sem desconfiar de que pudesse haver algum problema, a paciente chegou a sofrer complicações, que eram abafadas pelo médico.

“Falava que era estresse pós-procedimento, choque anafilático. Ele sempre falava a mesma coisa: choque de nervosismo, ansiedade, estresse”, lembra. Confiando nas respostas, a paciente continuava com os tratamentos, sem perceber que estava se arriscando: “O médico frequentava inclusive a casa da Fernanda, fazia aplicações na casa dela”.

Final trágico

Apesar de já estar habituada aos procedimentos, isso não foi suficiente para poupar a vida de Fernanda. Hoje, o marido da empresária, Douglas Nunes, busca justiça pela morte da esposa e tenta evitar que a fatalidade se repita. Em uma página no Instagram, ele denuncia o médico que atendia a esposa e divulga casos semelhantes, no intuito de alertar outras pessoas sobre os riscos dos procedimentos estéticos e tentar preservar outras vidas.

O que diz o médico?

O BHAZ entrou em contato com Ricardo Cavalcanti, advogado que representa o médico no caso. O defensor nega as acusações contra o cliente e afirma que Norberto está colaborando com as autoridades. “Todas essas argumentações são completamente inverídicas. Eu não posso falar muito porque está tramitando em segredo de justiça, está sendo apurada uma eventual responsabilidade”, disse.

Ricardo defendeu ainda que as acusações sobre aplicações irregulares não procedem. “Não tem nada disso de aplicação de um litro, tudo foi feito dentro das normas do Conselho Federal de Medicina e da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Inclusive, o produto usado é liberado sim, ao contrário do que eles estão dizendo”, afirmou.

Edição: Roberth Costa
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Redatora do BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura no BHAZ.

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