Pandemia piorou qualidade de vida de adolescentes, aponta pesquisa

jovem assiste televisão
Pesquisa da UFMG e da Fiocruz mapeou impactos da crise sanitária em mais de nove mil jovens de todo o país (Imagem Ilustrativa/Envato)

Da UFMG e Icict

Quase metade dos adolescentes do país têm sentido preocupação, nervosismo ou mau humor durante a pandemia. Os jovens passaram a fazer menos atividades físicas, começaram a passar mais horas em frente ao computador, tablet ou celular, e têm cada vez mais dificuldades para dormir e se concentrar. Esses e outros problemas foram relatados por jovens brasileiros na ConVid Adolescentes – Pesquisa de Comportamentos, realizada de junho a setembro de 2020.

O estudo, coordenado pelo Icict (Instituto de Comunicação e Informação em Saúde), da Fiocruz, em parceria com a Escola de Enfermagem da UFMG e a Unicamp aponta que o percentual de jovens que não faziam uma hora de atividade física em nenhum dia da semana mais do que dobrou. Além disso, 70% dos brasileiros de 16 e 17 anos passaram a ficar mais de quatro horas por dia em frente às telas.

O trabalho investigou as mudanças na rotina, nos estilos de vida, nas relações com familiares e amigos, nas atividades escolares, nos cuidados com a saúde e no estado de ânimo dos adolescentes de 12 a 17 anos. Ao todo, 9.470 adolescentes responderam a um questionário virtual. Essa é a segunda etapa da ConVid, que em abril e maio abordou os estilos de vida dos adultos durante a pandemia.

“A falta de atividade física entre os adolescentes foi um dos resultados que mais se destacaram. Em geral, os jovens brasileiros praticam mais atividades coletivas, como aulas de danças e jogos com bola. Com as medidas de restrição social, ficou mais difícil manter a prática de exercícios”, afirma a pesquisadora do Icict Celia Landmann Szwarcwald, coordenadora do trabalho. “Chama muito a atenção também o estado de ânimo desses jovens, que relataram tristeza, ansiedade e a ausência de amigos”, acrescenta.

Diferenças regionais

A pesquisa também abordou aspectos mais diretamente ligados à pandemia, como medidas de prevenção e diagnóstico. O percentual de adolescentes que declarou ter recebido diagnóstico de covid-19 foi de 3,9%. Enquanto a região Sul registrou a menor proporção de jovens com a doença (2,1%), a região Norte teve 6,1% de infectados entre os entrevistados.

A maioria dos adolescentes (71,5%) aderiu às medidas de restrição social, com 25,9% em restrição total e 45,6% em restrição intensa, ou seja, saindo só para supermercados, farmácias ou casa de familiares. Considerando a restrição intensa e a total restrição de contatos com outras pessoas, a maior proporção ocorreu na região Sul (74,1%), enquanto o menor percentual foi registrado no Norte do país (66,1%).

“A região Norte destacou-se pelo maior número de adolescentes diagnosticados com a covid-19 e menor adesão às medidas de restrição social. Foi um padrão que também se repetiu entre os adultos, como indicado na primeira etapa da pesquisa”, compara Celia Landmann.

A professora Deborah Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, destaca que os adolescentes também revelaram boa adesão a práticas de prevenção à covid-19: 71,5% aderiram às medidas de restrição social; entre as meninas, o índice chegou a 74%. Os adolescentes também mudaram hábitos: passaram a lavar as mãos com mais frequência (76%), a usar máscaras (89%) e a não compartilhar objetos (49%).

Saúde física e mental

A piora da saúde na pandemia foi relatada por 30% dos jovens. Diferenças foram encontradas por sexo e faixa de idade: registrou-se entre as meninas maior proporção de piora do estado de saúde (33,8%) do que entre os meninos (25,8%), e os adolescentes mais velhos pioraram mais (37,0%) que os mais novos (26,4%).

O percentual de adolescentes que relataram queda na qualidade do sono durante a pandemia foi de 36% –  23,9% começaram a ter problemas com o sono, e 12,1% informaram que já tinham dificuldades para dormir, e elas se agravaram. A qualidade do sono foi mais afetada entre as meninas e adolescentes de 16 a 17 anos.

Sentimentos de preocupação, nervosismo ou mau-humor foram descritos por 48,7% dos adolescentes, na maioria das vezes ou sempre. Entre as meninas, o percentual foi de 61,6%. Os adolescentes da faixa de 16-17 anos de idade relataram ter esse sentimento mais frequentemente (55,3%) do que os de 12-15 anos (45,5%). 

“Houve diferenças também quanto ao sentimento de isolamento e tristeza, segundo as categorias de gênero e idade. As meninas relataram o sentimento de tristeza com frequência duas vezes mais elevada (43,9%) do que os meninos (20,5%), o que também se repetiu entre os mais velhos (37,5% a 29,6%). Esses aspectos devem ser levados em conta pelas famílias e pelas políticas de apoio social. Adolescentes mais velhos tendem a ter mais contato social e, por isso, podem ter sentido mais o isolamento. O mesmo pode ter ocorrido com as meninas”, destaca Deborah Malta.

Alimentação e atividade física

O consumo de alimentos não saudáveis em dois dias ou mais por semana aumentou: 4% para pratos congelados e 4% para os chocolates e doces. O percentual de jovens que não faziam 60 minutos de atividade física em nenhum dia passou de 20,9% (antes da pandemia) para 43,4% (durante a crise).

No período de pandemia, mais de 60% dos adolescentes relataram ficar mais de quatro horas em frente às telas de computador, tablet ou celular como forma de lazer, além do tempo dedicado às aulas on-line. Entre os adolescentes de 16-17 anos, o percentual alcança 70%. “As telas tornaram-se um meio de conexão com os amigos, via redes sociais ou jogos, mas esse excesso de tempo em frente às telas é preocupante”, aponta Celia.

Deborah Malta relata que o consumo de alimentos saudáveis manteve-se estável, o que diferiu em relação à pesquisa de adultos, que registrou piora nesse item. “Os adolescentes mantiveram consumo semelhante de frutas, hortaliças e feijão, o que foi bastante positivo. Houve pequeno crescimento no consumo de pratos congelados e de chocolates e doces. Manter-se em casa contribuiu para manter uma alimentação saudável”, diz.

“Entretanto, a redução da prática de atividade física e o aumento do sedentarismo foram muito expressivos, mostrando o grave prejuízo nesse hábito”, completa a professora da Escola de Enfermagem. Ainda segundo Deborah, o recomendado é que adolescentes pratiquem ao menos uma hora diária de atividade física, patamar que não foi atingido por 15,7% dos entrevistados – antes da pandemia, essa frequência  atingia 28,7% dos jovens ouvidos no levantamento.

Dificuldade para acompanhar as aulas a distância também foi citada pelos adolescentes: 59% relataram falta de concentração, 38,3%, falta de interação com os professores, e 31,3%, falta de interação com amigos. Em relação à compreensão do conteúdo das aulas de ensino a distância, 47,8% dos adolescentes disseram estar entendendo pouco, e 15,8%, não estar entendendo nada. Apenas um em cada quatro adolescentes de 16-17 anos relatou estar entendendo todo ou quase todo o conteúdo ministrado nas aulas remotas.

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