Reportagem expõe assédio sexual de Marcius Melhem a Dani Calabresa

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Revista revelou detalhes sobre os assédios, que se espalharam por mais de dois anos (Reprodução/@calabresadani/Instagram + Marcus Leoni/Folhapress)

Uma reportagem da revista Piauí, publicada nesta sexta-feira (4), detalhou os casos de assédio moral e sexual cometidos pelo humorista Marcius Melhem, que trabalhou por quase 20 anos na TV Globo. As primeiras acusações contra Melhem vieram a público no fim do ano passado, quando ele foi afastado da emissora. Agora, a reportagem divulgou detalhes de áudios e ataques feitos pelo humorista a mais de cinco mulheres – entre elas, a colega Dani Calabresa, a primeira a formalizar uma denúncia junto à alta cúpula da Globo.

Em um dos relatos da denúncia, Calabresa conta que, em 2017, estava em uma festa com colegas do Zorra, programa dirigido e roteirizado por Melhem, quando ele tentou beijá-la à força. A humorista tentou sair e foi para o banheiro do local, mas foi seguida pelo colega. Lá, ele voltou a tentar agarrá-la e chegou a tirar o pênis para fora da calça, mas conseguiu se desvencilhar. Ainda no local, ela caiu no choro e foi consolada por outros colegas do programa humorístico.

Apesar de traumática, a situação não foi um episódio único. A reportagem detalha ainda outros episódios de assédio praticado por Melhem, que chegou a perseguir Calabresa dentro de um set de gravação. Na ocasião, ele disse que “não tinha culpa” pelo ataque na confraternização e completou: “Quem mandou você estar muito gostosa?”. Em outra situação, ele apareceu de surpresa no camarim de Calabresa no dia em que a atriz teria que usar um maiô para gravar um quadro do Zorra.

Denúncia e silêncio

Foi só quando Melhem deixou de integrar a equipe do Zorra que Dani Calabresa encontrou coragem para denunciar os ataques aos superiores na Globo. À época, ela procurou Monica Albuquerque, chefe de Desenvolvimento e Acompanhamento Artístico, setor responsável por ouvir as queixas dos funcionários da emissora. De Albuquerque, ouviu que a denúncia seguiria para investigação e não seria abafada. No entanto, quando o setor conversou com Melhem, a única orientação que ele recebeu foi de que “procurasse terapia”.

Mesmo com a falta de amparo do setor, Calabresa insistiu para levar a denúncia a outros profissionais da emissora. Assim, conseguiu a primeira de uma série de reuniões em que viria a passar horas relembrando os diversos ataques sofridos ao longo dos anos. Entre eles, a atriz citou ainda uma tentativa bem sucedida de Melhem de prejudicá-la profissionalmente. Por causa de conflitos com o colega, ela não conseguiu levar para frente um projeto que propunha à emissora há anos e foi cortada de outros programas, como o “A gente riu assim”, que apresentava ao lado do ex-marido, Marcelo Adnet.

Além do silêncio do setor de Desenvolvimento e Acompanhamento Artístico, Melhem também contou com a ajuda de vários colegas do Zorra. Quando as denúncias avançaram na emissora, mais de 50 integrantes da equipe do programa assinaram a carta, afirmando que Marcius Melhem “em tempo algum praticou assédio moral” contra qualquer um e que a relação era “baseada no diálogo, profissionalismo e respeito”. A carta foi encerrada atacando o que eles chamaram de “maldade”: “Não vai destruir a harmonia entre nós, nem o prazer de trabalhar neste projeto”.

‘O que mais você quer, filha?’

Depois da publicação da carta, Melhem começou a se movimentar para interromper o avanço da denúncia dentro da emissora. Conforme apurou a Piauí, ele chegou a sugerir uma denúncia contra a humorista por “acusação infundada de plágio” e insinuou que ela deveria se calar como forma de “agradecer” pelo espaço que conseguiu na emissora. “O que mais você quer, filha, para calar a boca?”, disse, em um áudio obtido pela reportagem. Durante todo esse tempo, Calabresa insistia que não era a única vítima do colega – e, pouco depois, conseguiu provar.

Além dela, outras cinco mulheres procuraram o alto escalão da Globo para formalizar denúncias semelhantes. Três delas relataram que se sentiam incomodadas ao gravar com Melhem e que ele costumava encostar nelas, roçando o pênis ereto. “Ele fazia isso até quando me encontrava nos corredores. Sempre em tom de brincadeira”, disse uma das vítimas. Outra chegou a ser surpreendida com uma visita do ator em sua casa – ocasião em que ele disse que estava “passando casualmente” pela região e resolveu procurá-la. Enquanto conversavam, ele tentou agarrá-la.

O que diz a Globo?

Procurado pela reportagem da Piauí, Carlos Henrique Schroder, um dos principais nomes da emissora, disse que não comentaria “casos concretos” e, sobre denúncias de assédio em geral, disse que a empresa não fechou os olhos. “Faço questão de reiterar que todo relato de assédio, moral ou sexual, é apurado criteriosamente assim que a empresa toma conhecimento. A empresa não tolera comportamentos abusivos em nossas equipes”, disse. Schroder afirmou ainda que os casos relatados na matéria “não receberam tratamento diferente”.

O que diz o humorista?

A revista também procurou Marcius Melhem, que negou as acusações. “Qualquer pessoa que tenha convivido comigo sabe que eu jamais cometeria algum ato de violência e que nunca forcei ninguém a nada”, disse. Ele ainda defendeu que se trata de uma tentativa da opinião pública de “condená-lo” e colocá-lo num lugar de “quase psicopata”.

Melhem também pediu desculpas às pessoas que magoou, mas disse que “sequer teve o direito de saber que são elas”. “O mundo mudou, comportamentos antes naturais estão sendo revistos, e todos precisamos aceitar as consequências de nossos excessos”, completou.

O ator, diretor e roteirista, que deixou a TV Globo quando o caso se tornou público, finalizou: “Venho há um ano trabalhando esse entendimento e estou disposto a assumir qualquer erro ou dano que tenha causado. Mas é preciso que a conversa seja transparente, sem omissões, mentiras ou distorções sobre as relações. É o que eu vou buscar: justiça”.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Redatora do BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura no BHAZ.

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