Blogueira faz post racista associando mau cheiro à pele negra

isadora farias blogueira
Diante da repercussão, blogueira fez novas publicações e negou ser racista (Reprodução/Instagram)

Mais uma vez, o universo dos “influenciadores digitais” mostrou exemplos de má influência no Brasil. Em uma publicação feita nessa quinta-feira (21) para mais de 36 mil seguidores, a blogueira Isadora Farias insinuou que peles negras têm mais mau cheiro. O comentário não passou despercebido e, rapidamente, vários internautas apontaram – e explicaram – o racismo contido na fala.

“Quem me segue há mais tempo sabe que eu tenho sério problema com ‘cecê’, eu tenho que passar desodorante bom”, disse Isadora, em publicação já apagada na ferramenta Stories do Instagram. “Inclusive às vezes eu compro de pele morena a negra, porque o negócio aqui é punk”, completou. Não demorou muito para o vídeo viralizar e levantar várias problemáticas.

“Por qual motivo o cheiro de suor ainda é tão atribuído a população negra de forma tão peculiar?”, questionou uma página dedicada a conteúdos sobre o universo negro. O perfil apontou ainda que mesmo o termo “cecê”, utilizado por Isadora, é perigoso. “Quantas vezes já ouvimos de maneira pejorativa alguém dizendo, que pretos têm um ‘cheiro forte’, que o suor é específico, muito particular, trazendo até uma repulsa? E aí popularmente o termo acabou sendo atribuído ao significado ‘Cheiro de Crioulo ou Catinga de Crioula’”, explicou.

Não há diferença no cheiro

Diante da repercussão do vídeo, a dermatologista Katleen da Cruz, que acumula mais de 200 mil seguidores na rede social, decidiu dar um exemplo de influência positiva e explicou exatamente quais são as diferenças entre as peles negra e branca nesse quesito. Segundo a médica, há uma variação na produção e concentração das glândulas apócrinas – glândulas de suor que se concentram em alguns pontos do corpo e, especialmente, nas axilas – de acordo com o tom de pele.

“As glândulas apócrinas são maiores e em maior número na pele negra, além de produzirem maior secreção”, disse. No entanto, as diferenças acabam por aí – e nada têm a ver com o odor, como sugeriu Isadora. Katleen explicou que o que gera o mau odor não são as glândulas em si, mas a mistura das secreções com bactérias presentes no corpo humano. “Isso não explica a diferença no odor, pois este depende da colonização bacteriana e independe da cor”, concluiu.

Em apenas um dia, a afirmação preconceituosa e sem embasamento científico da blogueira foi compartilhada por inúmeras contas e já acumula milhares de visualizações e críticas. “Engraçado, quando vou na loja algumas das opções são ‘antitranspirante’, ‘para roupas brancas’, ‘para roupas coloridas’, ‘sem cheiro’. Nunca vi um escrito ‘de gente preta'”, ironizou uma internauta. “No aguardo do ‘quem me conhece sabe…”, brincou uma segunda.

‘Tenho amigos que são’

Poucas horas depois de o primeiro vídeo viralizar, Isadora voltou às redes sociais para comentar o assunto. Em nova publicação nos Stories, ela se desculpou e afirmou que não teve a intenção de ofender ninguém. “Eu não sou essa pessoa racista, eu amo os negros, eu amo todas as pessoas e eu trato as pessoas com igualdade. Quem me conhece aqui sabe”, disse.

Isadora ainda disse que esse tipo de comportamento não faz parte da conduta dela e que “jamais falaria qualquer coisa de maneira racista ou para ofender” qualquer pessoa. “Eu tenho amigos negros, eu tenho colegas de trabalho negros, eu convivo com pessoas negras e, por isso, eu quero mais uma vez deixar registrado as minhas sinceras desculpas por esse mal entendido”, concluiu.

Racismo é crime

De acordo com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), é classificada como crime de racismo – previsto na Lei n. 7.716/1989 – toda conduta discriminatória contra “um grupo ou coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça”.

A lei enquadra uma série de situações como crime de racismo. Por exemplo: recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais, negar ou obstar emprego em empresa privada, além de induzir e incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O crime de racismo é inafiançável e imprescritível, conforme determina o artigo 5º da Constituição Federal.

Já a discriminação que não se dirige ao coletivo, mas a uma pessoa específica, também é crime. Trata-se de injúria racial, crime associado ao uso de palavras depreciativas referentes à raça ou cor com a intenção de ofender a honra da vítima – é o caso dos diversos episódios registrados no futebol, por exemplo, quando jogadores negros são chamados de “macacos” e outros termos ofensivos. Quem comete injúria racial pode pegar pena de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem cometê-la.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

Comentários