Com medo de agulha, socorrista do Samu desmaia ao se vacinar

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Imagens viralizaram nas redes sociais e enfermeiro fez novo vídeo para explicar (Reprodução/Twitter)

Um socorrista do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de Goiás viralizou nas redes sociais ao confessar, na prática, uma fobia muito comum. Rodrigo José dos Santos mostrou que é gente como a gente e se desesperou – e até desmaiou – na hora de tomar a vacina contra a Covid-19. E o motivo, ao contrário do que preveem os negacionistas e os memes, não foi o conteúdo da seringa: na verdade, Rodrigo tem pavor de agulhas.

No vídeo, que já foi compartilhado por milhares de internautas nessa sexta-feira (22), Rodrigo aparece no momento em que vai receber o imunizante. Agitado, ele se divide entre pedir paciência à enfermeira que vai aplicar a vacina e pedir ajuda aos colegas que o cercam e registram o momento. “Moça, vai devagar, pelo amor de Deus. Eu passo mal, tem que ter paciência”, pede.

Em outro momento, Rodrigo pede a um colega do Samu que também estava no local para que se aproxime e ajude a segurá-lo. “Segura eu aí, espera aí, espera aí… Ai, ai”, diz, nervoso. A enfermeira então aplica a vacina e ele perde a consciência. Ao BHAZ, Rodrigo contou que sempre faz brincadeiras com os colegas e, por isso, eles decidiram gravar o momento como uma forma de “dar o troco”. Apesar da descontração, ele falou ainda da realidade muito mais dura que está por trás do serviço – a dos homens e mulheres que se arriscam todos os dias para prestar socorro à população.

‘Cadê o Zé Gotinha?’

Nas redes sociais, as imagens logo repercutiram. Pessoas de todos os cantos do país se solidarizaram com o medo do socorrista, mas também brincaram com a situação. “Quando eu for tomar a vacina vai ser exatamente assim”, disse um internauta. “Trabalha no socorro do Samu e tem medo de agulha, chegou a desmaiar o coitado, deveria fazer que nem eu e esperar a vacina em gotinha”, brincou uma segunda, enquanto um terceiro também lembrou do famoso mascote das campanhas de vacinação no Brasil: “Gente, cadê o Zé Gotinha?”.

‘Eu travo todo’

Em conversa com o BHAZ, Rodrigo contou que a repercussão pegou a todos de surpresa. “Eu não vi ele filmando e eu tenho uma fobia com agulha desde menino. Então, se acontece, seja uma pequena agulha de insulina algo desse tipo, eu desmaio, me escurece as vistas e eu travo todo”, disse. Sabendo disso, um dos colegas decidiu filmar tudo para se vingar das pegadinhas que Rodrigo prega em toda a equipe.

“Meu parceiro mais antigo, que estava lá comigo, já sabe desse pânico e o outro colega também sabia que eu tinha essa fobia, aí ele pegou e fez graça, porque eu faço graça com todo mundo, não deixo ninguém em paz”, lembrou. Poucos minutos após a publicação, o vídeo já tinha viralizado na região e, dentro de algumas horas, no país inteiro.

Com a repercussão, muitos amigos e conhecidos de Rodrigo se preocuparam e quiseram saber se ele havia sofrido algum efeito colateral da vacina – hipótese que o socorrista fez questão de derrubar. “O pessoal que me conhece ainda brincou comigo, mas a vacina é totalmente tranquila, eu não tive efeito colateral nenhum, nenhum mesmo”, afirmou.

‘Literatura, e não disse-me-disse’

Rodrigo também lamentou que o negacionismo seja tão forte no Brasil. “A única coisa que eu falo é que muitas pessoas estudiosas, com conhecimentos avançadíssimos, estão trabalhando sobre isso para ajudar na cura. Nós temos um conhecimento gigantesco, a tecnologia que nós temos hoje não se iguala à tecnologia de ontem. As pessoas têm que procurar um pouco mais de literatura, não disse-me-disse. O conhecimento hoje está na palma da mão”, disse.

Ele lembrou ainda que, a princípio, também foi resistente à vacinação, mas logo percebeu que precisaria superar a desconfiança. “Quando liberou, eu falei ‘vou tomar’, porque a minha mãe teve medo de chegar perto de mim, de eu ser um transmissor para ela”, contou, emocionado. “Se para a minha mãe eu sou um perigo, imagina para a sociedade? Eu entro na casa das pessoas, eu atendo elas na rua, eu não sei se elas têm Covid. Eu tenho que me preservar para atender a população”, disse.

Irmãos de farda

O socorrista também falou sobre a dura realidade por trás de momentos divertidos como o vídeo da vacinação – a de pessoas que se dedicam a evitar que a pandemia entre para a história como uma catástrofe ainda maior, mas que frequentemente são esquecidas. Ele fez questão de aproveitar a visibilidade que ganhou para lembrar e homenagear os colegas de profissão, que se arriscam diariamente para salvar vidas.

“Eu quero mandar um grande abraço aos meus irmãos de farda. Porque nós estamos sendo reconhecidos só agora, e ainda é “meia-boca”. E eu não falo de fama, o conhecimento que eu falo é sobre cuidado”, pontuou. “Se você vê reportagens, desde o início está o Samu lá. Só que o ‘Samuzeiro’ tem filho, tem mãe, tem esposa que vai chorar por ele. E eles vêm reconhecer a gente só agora. Quantos irmãos de farda eu já perdi?”, lamentou.

O relato é apenas um em meio a milhares de profissionais que encaram o caos nos olhos e sobrevivem. Mesmo assim, é o suficiente para lembrar que tomar os cuidados necessários para proteger a saúde dos outros é, mais do que uma obrigação civil, um dever humano. E é exatamente esse o recado que o socorrista busca deixar. “A gente tem que se preservar o máximo que puder. A população tem que se preservar. [O vírus] é o seu inimigo, é o inimigo invisível que não tem cara, não tem cor, não tem coração e está em todo lugar. Não brinca”, pede.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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