Professor e ex-diretor da UFMG morrem no mesmo dia: ‘Foi um choque’

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Professor morreu em Ribeirão das Neves e diretor em BH, após mal súbito (Reprodução/Facebook + Arquivo/Escola de Veterinária da UFMG)

O corpo docente da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) encarou duas perdas significativas neste fim de semana. O professor Michel Marie Le Ven, do Departamento de Ciência Política, morreu nessa sexta-feira (22), aos 89 anos. No mesmo dia, a universidade também se despediu do ex-diretor da Escola de Veterinária e ex-presidente da Fump (Fundação Universitária Mendes Pimentel), o professor Paulo Roberto Carneiro.

Carneiro, que morreu após sofrer um mal súbito enquanto dormia, era docente do Departamento de Zootecnia e, entre 1982 e 1994, passou pelos cargos de vice-diretor e diretor da Escola de Veterinária, além de presidir a Fump. “Foi um choque e uma surpresa para todos nós. Paulinho era uma pessoa muito ativa em nossos grupos de Whatsapp”, diz a professora Zélia Lobato, diretora da Escola de Veterinária, que define o professor como uma pessoa “muito querida, generosa, simpática e de bom coração”.

‘Coração maior que o mundo’

Sucessor de Paulo Carneiro na direção da Escola de Veterinária, o professor José Ailton da Silva despediu-se do “compadre”, que “sofria para dizer ‘não’ em determinadas situações. Ele contribuiu muito com a história da Escola e da UFMG”. “Foi um grande praça, com o coração maior do que o mundo. Deixará saudades”, lamentou o professor Marcos Roberto Moreira Ribeiro, que lembrou que Carneiro realizava trabalhos importantes, como tentar destinar recursos das sobras do vestibular para o programa de moradia universitária.

Paulo Roberto Carneiro deixa a esposa, Vera, e os filhos Bárbara, Fernanda, Letícia, Paulinho, Rafaela e Bruno.

Luta contra a ditadura

Na mesma data, um pouco mais tarde, alunos e colegas de trabalho se despediram do professor Michel Marie Le Ven, que morreu em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de BH, em decorrência de uma insuficiência cardíaca e respiratória. Aos 89, Le Ven, que nasceu no Norte da França e chegou a Belo Horizonte em 1965 para atuar na Igreja do Horto, já lutava há algum tempo contra o Alzheimer.

No início de dezembro de 1968, dias antes da instauração do AI-5 (Ato Institucional Nº 5, decreto que inaugurou o período mais sombrio da Ditadura Militar no Brasil), ele foi preso juntamente com dois colegas franceses e um brasileiro, acusados de práticas subversivas. O episódio dos “padres franceses” abriu uma crise entre a Igreja Católica e a ditadura.

Le Ven e os demais religiosos foram soltos apenas no ano seguinte. Em 2016, o professor publicou o livro “Memórias vivas de 1968”, no qual resgata os acontecimentos daquele ano. Em sua avaliação, a prisão dos clérigos tinha o objetivo de desarticular jovens lideranças e a própria ala progressista da Igreja Católica. Na mesma época, Le Ven realizou pesquisas pioneiras sobre as classes populares em favelas de BH e, poucos anos depois, ingressou como professor no Departamento de Ciência Política.

‘Alimentava a esperança’

Como professor da UFMG, Michel Le Ven trabalhou para aproximar a academia do mundo do trabalho e dos movimentos sociais. “Le Ven sempre esteve ao lado de quilombolas, indígenas, trabalhadores, enfim, das pessoas que têm seus direitos desrespeitados. Desempenhou, junto com outros religiosos católicos, papel fundamental na formação da consciência popular”, testemunha o professor Carlos Roberto Horta, o Bebeto, que trabalhou com ele em três oportunidades.

A professora Magda Neves, que dirigiu a Fafich de 1994 a 1998, era amiga de longa data do professor, que orientou sua dissertação de mestrado que versou sobre trabalhadoras da tecelagem. “Ele foi um grande amigo e professor. Acreditava que a universidade pública deveria ser um ambiente capaz de produzir conhecimentos úteis para a sociedade, aberto a trocas e preocupado em trazer questões do mundo para estudá-las, compreendê-las e propor soluções”, afirma a professora.

Nos últimos anos de vida, Michel Le Ven morou em um sítio em Ribeirão das Neves. De acordo com a filha Mônica Le Ven, ele “alimentava a esperança de um mundo melhor e lutava contra as injustiças. Esse é o legado que ele deixa. Também foi um pai incrível e um avô especial, brincalhão”, diz ela. Ainda sobre o pai, Mônica recorreu a um comentário de um de seus filhos, de seis anos, que empregou uma palavra que acabara de aprender para definir o avô. “Adoro o meu avô, porque ele é muito benevolente”, disse o neto.

Michel Le Ven deixa a esposa, Roseli, os filhos Jean, Pedro e Mônica, além dos netos João Pedro, Gustavo e Davi.

Com Flávio de Almeida/UFMG

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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