Pesquisadoras da UFMG lançam ‘calculadora de risco’ para Covid-19

UFMG pesquisa covid-19
Ferramenta foi criada para auxiliar profissionais da linha de frente do combate à pandemia (Amanda Dias/BHAZ + Rovena Rosa/Agência Brasil)

Da UFMG

Com o objetivo de auxiliar profissionais que atuam na linha de frente no combate à pandemia, um grupo de pesquisadoras da UFMG acaba de lançar uma calculadora de risco para Covid-19, que valida escores prognósticos para doença grave e mortalidade em pacientes acometidos pelo vírus, com base em dados clínicos, laboratoriais e exames de imagem. A ferramenta já pode ser acessada por meio deste link.

De acordo com a professora da Faculdade de Medicina Milena Soriano Marcolino, coordenadora do projeto “Escore prognóstico para predição de doença grave e mortalidade causada pelo vírus Sars-Cov-2 (Covid-19)”, a calculadora é capaz de validar um escore que, aplicado nas primeiras 24 horas de admissão do paciente com Covid-19, ajuda a identificar um subgrupo de pacientes com maior risco de evolução para doença grave ou morte.

“Isso pode auxiliar a equipe a identificar, por exemplo, pacientes que necessitam de reavaliações mais frequentes, além de ajudar a decidir a alocação de vagas de UTI. O estudo, observacional, recorre à coleta de dados de prontuário”, explica ela, que lidera grupo de pesquisa formado exclusivamente por mulheres.

Marcolino explica que o sistema é capaz de fornecer as informações
necessárias para que os médicos avaliem o impacto e a segurança do uso de
intervenções direcionadas à doença, visto que a “análise de dados
observacionais em grande amostra de pacientes pode ser útil na definição do impacto de determinadas intervenções”. 

Além disso, a calculadora pode ajudar os médicos a decidirem sobre a necessidade de terapia intensiva e o impacto da Covid-19 no sistema cardiovascular. “A calculadora identifica quatro categorias de pacientes com maior risco de morte, podendo ser facilmente usada no momento em que o paciente é admitido no hospital”, diz ela.

Colaboração

Além do grupo de pesquisadoras que desenvolveu o sistema, a pesquisa também contou com o esforço colaborativo de 150 profissionais de saúde de 36 hospitais, além de estatísticos, administradores e estudantes de medicina e de enfermagem. O sistema foi desenvolvido em três etapas, durante nove meses.

Inicialmente, foram verificados os dados clínicos e resultados de exames laboratoriais mais comumente associados ao maior risco de mortalidade por Covid-19, além da verificação de qual risco se associava a determinado dado. Em um segundo momento, foi elaborado o escore, “que funciona como uma calculadora de risco, usando as variáveis e os ‘pesos’ verificados na primeira etapa”, explica Marcolino.

Por fim, testes com uma amostra de pacientes mostraram a eficiência da calculadora. “Durante os testes, usamos apenas as variáveis facilmente disponíveis no momento da admissão hospitalar. Assim, o escore se mostrou útil e eficaz em diversos contextos de recursos”, afirma a pesquisadora.

Paralelamente às etapas já descritas, o grupo fez uma revisão da literatura para identificar outros escores já publicados para a Covid-19, pneumonia e sepse. Os escores foram comparados, e o resultado indicou que o novo sistema apresentou melhor desempenho.

Melina Marcolino acrescenta que a calculadora, apesar de muito eficiente, não deve ser considerada uma substituta para a avaliação médica: “A calculadora foi validada no Brasil e não deve ser usada em outras populações. Além disso, a interpretação deve levar em conta a avaliação médica. Se a calculadora mostra que um paciente apresenta baixo risco, isso não quer dizer que ele deva receber alta”.

Como funciona?

As informações usadas para o cálculo do risco do paciente com Covid-19 são coletadas por meio de plataforma eletrônica. Após o levantamento dos dados clínicos, o escore prognóstico é calculado, prevendo doença grave e mortalidade. Pacientes que a calculadora aponta para doença grave são aqueles que poderão apresentar necessidade de ventilação mecânica, choque e/ou disfunção orgânica.

“Identificar os pacientes admitidos que têm o potencial de agravamento da doença e mortalidade com base apenas no julgamento clínico pode se desafiador. Além disso, o curso clínico pode agravar rapidamente. Por isso, um escore que avalie variáveis à admissão hospitalar e auxilie a equipe de saúde a identificar os pacientes com maior risco de evolução para a forma grave pode ser muito útil e ajudar no contexto de sobrecarga dos serviços de urgência que estamos vivendo”, afirma Marcolino.

A calculadora foi validada com base em amostra de 36 hospitais de diferentes perfis em 17 municípios brasileiros e já está disponível no site do Centro de Telessaúde do Hospital das Clínicas da UFMG para ser usada em unidades de saúde todo o território nacional.

Sem tratamento

Neste mês, o Brasil alcançou mais de 8 milhões de casos de Covid-19. Já são mais de 215 mil mortos no país em decorrência de uma doença para a qual não existe medicamento de eficácia comprovada. Desde que começou a vacinação do Brasil, no início deste ano, cerca de 600 mil pessoas receberam a primeira dose do imunizante.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), dificilmente o país conseguirá vacinar toda a sua população neste ano, o que indica a necessidade de produção de novas evidências e metodologias que auxiliem no tratamento da infecção.

“A produção de evidências relacionadas à Covid-19 tem sido intensa, e pesquisadores do mundo todo têm-se aplicado no estudo de diferentes aspectos da doença. Ainda não há tratamento específico estabelecido, e muitos têm dificuldade em lidar com essa incerteza, lançando mão de terapias não comprovadas, que podem acarretar sérios efeitos adversos. Basear as decisões em evidências é essencial para evitar expor a população a riscos desnecessários adicionais”, afirma Marcolino.

A professora acrescenta que o projeto que deu origem à calculadora
de risco para Covid-19 foi concretizado graças à parceria entre UFMG e hospitais públicos, privados e filantrópicos, “gerando produção de ciência e disseminação de conhecimento”. 

O projeto “Escore prognóstico para predição de doença grave e mortalidade causada pelo vírus Sars-Cov-2 (Covid-19)” foi um dos dez projetos da UFMG aprovados em programa da Fapemig que ofereceu apoio financeiro a ações emergenciais de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus.

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