Entregador de BH cria placa para realizar sonho de se tornar engenheiro

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Jovem trabalha como entregador para se sustentar, mas decidiu usar a plaquinha para realizar um sonho (Reprodução/Redes Sociais + FOTO ILUSTRATIVA: Moisés Teodoro/BHAZ)

Que são tempos difíceis, com enormes desafios emocionais, sociais e financeiros, a gente já sabe, basta olhar em volta. Mas o que muita gente não percebe é que, com a sensibilidade um pouco mais aflorada, é possível encontrar exemplos de pessoas que dão aula de criatividade para fugir das adversidades. É o caso de um entregador de Belo Horizonte que, determinado a conseguir um trabalho na área que estuda, resolveu usar a moto como um outdoor itinerante de seus sonhos – e conta com olhares atentos no trânsito para conseguir realizá-los.

A ideia foi simples: bem na frente da mochila térmica – aquela que os entregadores usam para carregar os lanches -, uma plaquinha feita à mão com os dizeres “Procuro estágio em engenharia civil” e um telefone para contato. Essa foi a aposta de João dos Anjos Almeida Neto, que decidiu usar a curiosidade de outros belo-horizontinos a seu favor. Além de entregador, ele é estudante do último período de engenharia e, em conversa com o BHAZ, contou que já estava há dois meses procurando estágio sem sucesso quando decidiu usar a plaquinha.

“Eu estou trabalhando e procurando estágio e não estava encontrando. Aí a gente percebe vários motoboys na rua e vê que a bag é um ponto que a gente está sempre olhando, então surgiu a ideia”, explica. O jovem de 27 anos já tinha experiência na área, mas precisou começar a fazer entregas para conseguir sustentar a filha e a casa depois que a empresa onde ele trabalhava encerrou o programa de estágio. “Eu fiquei sem nenhuma renda, e aí decidi ir atrás de ser entregador”, lembra.

Corrente do bem

Depois que João colocou a plaquinha na mochila, não demorou muito e várias pessoas desconhecidas começaram a se sensibilizar e tentaram ajudá-lo. “Uma das pessoas foi num consultório. Eu fui buscar medicamento para a minha avó, a moça viu e quis tirar foto. Outra, que fez uma publicação que deu maior destaque, foi no trânsito mesmo. A moça disse que estava atrás de mim, mas não conseguiu ler e quando estava chegando em casa me viu parado. Aí ela postou”, lembra.

E a mobilização ultrapassou até mesmo os limites de BH. “Eu tive bastante contato, várias pessoas até de outros estados, de outras regiões. Muita gente republicou, muita gente mandou para o LinkedIn… Graças a Deus, depois que o pessoal postou, começou a dar muito resultado”, conta o entregador. Os resultados foram além da mobilização e ele também já começou a ter mais esperanças profissionais: João já foi chamado para algumas entrevistas e processos seletivos – mas ainda não conseguiu o sonhado estágio.

Fora do conforto

Apesar das primeiras reações positivas, o encerramento do contrato na empresa anterior ilustra um cenário mais complexo, segundo João. “Eu vejo que a base não está muito boa para engenharia, porque a civil é realmente a primeira a parar [na pandemia]. Mas também é a primeira a voltar em tempos de crise”, avalia. Mesmo assim, apesar de preocuparem o estudante, os altos e baixos da profissão estão longe de desanimá-lo. “Eu sou apaixonado pela engenharia, é algo que eu sempre fui apaixonado, sempre gostei muito. Então, enquanto eu puder escolher, vai ser isso”, afirma.

Ele também sabe que, mesmo quando conseguir o estágio, vai ter que continuar trabalhando como entregador – já que o preço de se viver no Brasil é alto e o valor pago a estudantes é, quase sempre, baixo. “Eu tenho uma filha, pensão, aluguel, manutenção da moto… Eu tenho um certo gasto e, hoje em dia, as remunerações são muito baixas, mas isso é algo que eu já tenho total ciência”, avalia o entregador. Mesmo assim, ele já está preparado: “Eu sei que, neste semestre, provalvemente eu vou fazer a faculdade, fazer o estágio e ainda fazer as entregas”.

Sem medo de trabalho

Nem mesmo os desafios do setor ou o acúmulo de funções são suficientes para desanimar João. “Eu sou uma pessoa que não tem preguiça de trabalhar, não tem medo de trabalho. Essa é a profissão que eu quero ter como minha, então vou fazer o que eu puder”, afirma. Ele acredita ainda que, no futuro, a história cheia de obstáculos será motivo de orgulho.

“Essas dificuldades, eu acho que lá na frente elas fazem você dar valor ao que você cresce, ao que você conquista. Quando você precisa sair do conforto e brigar mesmo, lutar mesmo… Quando você consegue concluir aquela etapa, você sente um orgulho maior ainda”, defende.

E se você não chegou a encontrar com João pelas ruas de BH, mas acredita que tem condições de ajudar a escrever a história de superação de um atual entregador e futuro engenheiro, o caminho é simples. Basta entrar em contato com ele pelo telefone (31) 99422-5716.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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