Estudo reforça que animais não transmitem coronavírus para humanos; especialista da UFMG alerta

Animais de estimação
Mesmo quando animais contraem o vírus, após contato com humano que testou positivo, eles costumam ser assintomáticos (Arquivo Pessoal /David Soeiro/ICB UFMG)

O estudo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que pesquisa a transmissão do novo coronavírus entre animais e humanos reforça que não há comprovação científica de que os pets transmitam o vírus para os tutores. É o que explica o coordenador da pesquisa em Belo Horizonte, o professor David Soeiro Barbosa. O especialista ressalta a importância de que a informação seja compartilhada para que os bichinhos não sejam abandonados ou maltratados.

No caso do cão da raça boxer que testou positivo para o SARS-Cov-2 em BH, o primeiro caso registrado na cidade, o animal foi infectado pela família e não o inverso. Ainda sim, ele não desenvolveu sintomas e segue em acompanhamento pelos responsáveis pelo projeto “Estudo multicêntrico para a vigilância de SARS-CoV-2 em animais de companhia com interface à Saúde Única (PetCOVID-19 Study)”.

“Não existem evidências de que os animais transmitem o vírus para humanos, e precisamos enfatizar isso para não gerar um entendimento contrário. Nos casos de animais que são infectados, não há risco epidemiológico ou aumento da disseminação do vírus”, explica o professor do Laboratório de Epidemiologia e Controle de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Animais não têm ‘Covid-19’

O especialista também explica outra questão a respeito dos animais infectados pelo novo coronavírus: na nomenclatura científica da área veterinária, não se diz que os bichinhos “desenvolvem Covid-19”, e sim que eles são portadores do SARS-CoV-2.

Também é raro que o animal desenvolva algum sintoma relacionado à infecção pelo vírus. “Eles são, em sua maioria, assintomáticos. Foi o caso do boxer, em BH. Os animais que apresentam algo, clinicamente, têm sintomas respiratórios muito leves, a gravidade não é relevante”, completa David Soeiro.

Ainda segundo o professor, o estudo também está em contato com ONGs (organizações não governamentais) de proteção animal para continuar reforçando que os pets não transmitem o vírus. A conscientização é imprescindível para que a desinformação não aumente ainda mais a tendência de abandono e maus-tratos de animais durante a pandemia (veja mais abaixo).

Cuidados com os pets

Ao mesmo tempo em que o estudo reforça que animais não transmitem coronavírus para humanos, ele também evidencia a importância de que pessoas com diagnóstico de Covid-19 mantenham cuidados com os pets dentro de casa, como o uso de máscara.

“No caso de um tutor que testou positivo, é importante evitar contato, abraçar, beijar, dormir com o animal. O ideal é pedir para que outra pessoa, não positiva para Covid-19, cuide do animal. Nem sempre é possível, mas é importante se manter distante dele”, explica o professor.

Desinformação e abandono

A disseminação de informações falsas a respeito da transmissão do vírus de animais para humanos pode ser um dos fatores que levam tutores a abandonar os pets durante a pandemia. Apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre o aumento no abandono neste período, diferentes relatos de representantes de ONGs e alertas feitos por instituições como o CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária) evidenciam a gravidade da situação.

Um levantamento informal feito pela ONG Vida Animal Livre, que atua em Belo Horizonte, estima que os abandonos aumentaram em cerca de 30% na capital mineira, entre março e julho de 2020. Val Consolação, presidente da organização, afirma que, no início da chegada do novo coronavírus no Brasil, houve um medo de que os animais pudessem transmitir a doença. 

O estudo

A pesquisa desenvolvida na UFMG faz parte de um projeto nacional que envolve, além de BH, outras cinco capitais: Campo Grande, Curitiba, Recife, São Paulo e Cuiabá. O projeto é financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Ministério da Saúde, e, segundo o professor David Soeiro, existe uma quantidade limitada de testes disponibilizados para cada capital.

Além do primeiro exame nos animais cujas famílias participam como voluntários, o estudo também faz a “retestagem” do pet ao longo da pesquisa, para acompanhar sua evolução. De acordo com o especialista, assim como os humanos, os animais passam a testar negativo para a presença do SARS-CoV-2 depois de um período de tempo.

Como participar

Os interessados em participar do projeto podem entrar em contato pelo e-mail covidufmg@gmail.com ou pelo Instagram @petcovidbh, enviando números de celular, e-mail, nome do responsável e do animal, e dizer se é cão ou gato. Os responsáveis pela pesquisa farão a avaliação de elegibilidade para a participação, com alguns critérios: “se está com teste positivo com até 7 dias do resultado, se tem convívio doméstico com o animal, se mora em BH, entre outros”, lista o coordenador.

Todos os tutores ou familiares voluntários recebem um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e questionário de televigilância, a fim de determinar as características ambientais e outros fatores associados à infecção nos animais. 

Para análise da transmissão de SARS-CoV-2 entre humanos e seus animais, serão coletadas amostras biológicas com intervalo médio de sete dias. Os resultados dos testes são o mais brevemente possível informados aos tutores/familiares através de contato telefônico e pela emissão de laudo eletrônico, que será enviado por e-mail ou aplicativo de comunicação.

Edição: Roberth Costa
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

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