Gêmeos de espécie de mico ameaçada de extinção nascem no Zoo de BH

mico leão preto zoológico bh
Animal já foi considerado extinto e até hoje a espécie é criticamente ameaçada (PBH/Divulgação)

Este domingo (28) marca o dia do Mico-leão-preto, uma das espécies de primatas mais raras e ameaças do mundo. Mas mesmo em meio ao risco de extinção, no Zoológico de BH, a data será celebrada com alegria. É que, ainda neste mês, nasceram dois filhotes gêmeos do bichinho – que também é símbolo da Mata Atlântica – no local.

O mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) é uma das espécies de primatas mais raras e ameaçadas do mundo, presente apenas no oeste do estado de São Paulo – nos espaços remanescentes de Mata Atlântica. O animal já foi considerado extinto da natureza por muitos anos e, ainda hoje, sua situação é grave, já que a espécie é criticamente ameaçada de extinção. Se não fosse a pandemia de Covid-19, inclusive, o Zoo teria, no domingo, uma programação especial de atividades de educação ambiental – já tradicional na data.

Primeiros da história do Zoo

Os filhotes do zoológico da capital são os primeiros da espécie nascidos ao longo dos seus 62 anos e resultam da chegada – em julho de 2020 – de um macho de 5 anos de idade para viver com a fêmea, de 7. Ela já vivia com outro parceiro desde que chegou ao zoológico, mas não chegou a reproduzir.

Ambos os adultos vieram da mesma instituição em momentos distintos: a Fundação Parque Zoológico de São Paulo, por meio do Plano de Ação Nacional para Conservação dos Mamíferos da Mata Atlântica.

O sexo dos filhotes do Zoo de BH ainda é desconhecido. Isso porque durante os primeiros dias de vida, técnicos adaptam a rotina de cuidados para promover o mínimo de contato possível, reduzindo possíveis perturbações à família e situações de stress aos animais, que estão dedicados a cuidar da cria. Nesta espécie, inclusive, não é raro ver o pai carregando os filhotes, já que os machos são bastante participativos nos cuidados com a família.

Condições ideais

Valéria Pereira, chefe da seção de mamíferos do Zoo de BH, explica que a formação do casal, mesmo com pouco tempo de convívio, e o sucesso da reprodução são bastante favorecidos quando existem condições ideais.

Essas condições incluem cuidados técnicos adequados, boa infraestrutura de recintos e equipe qualificada e experiente para o manejo geral da espécie. Dentro do manejo correto, destaca-se a manutenção de apenas um macho e uma fêmea no recinto, além de suas crias. “Com mais machos ou mais fêmeas, podem ocorrer disputas e até mortes”, comenta.

Os jovens filhotes de mico-leão-preto nascidos no local devem permanecer no mesmo recinto dos pais por muito tempo, independentemente do sexo ainda a ser descoberto. Valéria explica que isso acontece porque “as crias precisam aprender a cuidar de filhotes para também se prepararem para serem bons pais no futuro” – o que contribui para a conservação da espécie.

Hierarquia no reino animal

A permanência dos filhotes no mesmo recinto dos pais ao longo dos anos também estabelece uma hierarquia, impedindo que cruzamentos consanguíneos aconteçam, uma vez que os pais são os dominantes do grupo. Somente em caso de o pai ou a mãe morrerem é que a hierarquia se desestabiliza.

Então, os demais precisam ser remanejados para formação de novos grupos, com indivíduos de sangue diferente. “Na natureza, estas dispersões de indivíduos que vão atingindo a maturidade sexual ocorrem naturalmente. Já sob cuidados humanos, torna-se necessário intervir para realizar novos pareamentos entre os indivíduos”, completa Valéria. Isso significa que os visitantes do Jardim Zoológico de BH poderão presenciar a família convivendo no recinto por bastante tempo ainda.

Até que os filhotes cresçam mais um pouco, pede-se ao visitante que continue, especialmente agora, respeitando as normas gerais de visitação consciente ao Zoo. Elas incluem manter o silêncio ao redor dos recintos (especialmente desta jovem família de primatas), não tentar chamar a atenção dos animais, não deixar resíduos de alimentos ou nem tentar alimentar os animais e zelar pela tranquilidade do espaço para o bem-estar de todas as espécies.

Dia do Mico-leão-preto

Instituída pela Secretaria de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, a data tem o objetivo de destacar a importância do Programa de Proteção do Mico-leão-preto, exemplo de salvamento de espécies ameaçadas de extinção. Assim como outras espécies de primatas, o mico-leão-preto faz o papel de “sentinela” no ciclo da febre amarela, pois ao ser infectado, alerta os humanos para o aparecimento da doença na região. Além disso, é um bom dispersor de semente, auxiliando na manutenção das florestas das áreas onde vive.

Para marcar a data, a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica preparou um conteúdo educativo disponível on-line de forma gratuita, composto de um jogo de palavras-cruzadas para download e uma ficha técnica com curiosidades e características da espécie. Acesso neste link.

A espécie

Endêmico da Mata Atlântica do oeste do estado de São Paulo, o mico-leão-preto aparece na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção, na categoria “Em perigo” (IUCN, 2020-3 e ICMBio, 2014). Estima-se uma redução populacional de 50% ou mais nas próximas três gerações (2019-2040) devido à contínua perda de habitat (estabelecimento de novas propriedades rurais, agropecuária, queimadas, desmatamento etc.) e com potencial para perdas relevantes devido a eventos inesperados, como por exemplo, surtos de febre amarela que causam mortalidade significativa nas populações de mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia).

Trata-se de um animal onívoro, com dieta composta por frutos, exsudatos vegetais (líquidos que formam as resinas, gomas), néctar, flores e pequenos animais (anfíbios, répteis, aves, mamíferos, insetos, entre outros). Tem hábitos diurnos e é territorialista: cada grupo demarca um território (área de vida) que pode variar de 40 a 400 hectares de floresta, dependendo do tamanho da população. Vive em grupos familiares de dois a oito indivíduos, composto por uma fêmea dominante, um a dois machos reprodutivos e os filhotes e juvenis do casal, que permanecem no grupo até atingirem a maturidade sexual (por volta de 1 ano e meio de vida) e se dispersarem para a formação de seus próprios grupos familiares.

Reproduz, geralmente, uma vez ao ano, com gestação de quatro meses. Nasce um a três filhotes por vez. Mas, na maioria das vezes, a fêmea dá à luz dois filhotes, pesando cerca de 60 gramas cada. Os recém-nascidos passam os primeiros dias de vida pendurados ao ventre materno; depois disso é o pai que os carrega no dorso, cuida e os limpa; a mãe aproxima somente para a amamentação. Os demais integrantes do grupo auxiliam no cuidado parental até que os filhotes possam se locomover sozinhos.

Com PBH

Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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