Médico é espancado por alertar conhecidos sobre os riscos da Covid-19

Médico agredido
Médico foi agredido por dois homens (Reprodução/@joseeduardopanini/Instagram)

O médico infectologista José Eduardo Panini, 31, afirmou, nessa segunda-feira (1º), ter sido agredido com chutes e socos ao alertar conhecidos sobre o agravamento da pandemia do novo coronavírus no Paraná. A agressão, de acordo com ele, aconteceu na sexta-feira (26), após uma reunião em que foi definido o que seria fechado em Toledo, no oeste do Paraná, com base no decreto do governo estadual.

“Ao alertar sobre os riscos a pessoas conhecidas, a resposta que me foi dada foram chutes e socos, enquanto um me segurava o outro me agredia”, relatou nas redes sociais. Na foto que foi postada pelo infectologista, pode-se ver o resultado: o olho direito roxo e inchado e a boca machucada. “Pessoas assim é que ajudaram a situação chegar onde está”, disse.

O agressor estava se preparando para ir uma festa quando recebeu o conselho e agrediu o médico. Um amigo do agressor teria ajudado, segurando a vítima no chão enquanto apanhava. Mesmo assim, Panini afirmou não desistir do trabalho contra a pandemia: “O desânimo não vem! E junto com eles temos muita coisa boa, progresso, vacinas e tudo que vai fazer sairmos dessa pandemia!”, disse.

Colapso

O ataque aconteceu depois de uma reunião no município para discutir as adaptações à nova medida de prevenção à Covid-19 do estado. O médico, servidor público, estava presente no encontro. Com taxa de ocupação de leitos de UTI em 94%, o governo do Paraná determinou na sexta-feira de manhã, antes da agressão, a suspensão do funcionamento de serviços e atividades não essenciais em todo o estado e a ampliação da restrição de circulação de pessoas das 20h às 5h.

As medidas começaram a valer na madrugada de sábado (27) e seguem em vigência até o dia 8 de março. Logo depois da reunião, o infectologista tentou avisar às pessoas que o agrediram sobre os números preocupantes da Covid-19.

A violência contra o médico foi repudiada pelo prefeito Luis Adalberto Beto Lunitti Pagnussatt (MDB). Em nota, o prefeito afirmou que “toda agressão é injustificável e inaceitável”. Ele ainda destacou que o fato não tem relação direta com o exercício profissional, já que a agressão se deu fora do ambiente e horário de trabalho,

Também em nota, o Conselho Municipal de Saúde afirmou que o médico “foi covardemente atacado” e pediu por punição aos agressores. Eles ainda suplicaram por respeito aos profissionais de saúde. “Aos profissionais de saúde que enfrentam as mais diversas dificuldades para atender toda população, nosso reconhecimento e empatia um momento de absoluta tensão e risco”. 

“Aos cidadãos, reivindicamos respeito, acolhimento e reconhecimento aos profissionais que abrem mão de suas vidas em prol de outras. Salientamos que o Conselho repudia qualquer ato de violência e em se tratando do qual momento de pandemia, a qual servidores atual incansavelmente para salvar vidas aqui em Toledo, assim como no mundo todo, atos desse tipo apontam total desrespeito com o próximo, e, só traz prejuízos a todos que estão na luta para que isto um dia vire apenas história”.

Revolta

Depois da postagem, muitas pessoas se dirigiram à rede social de Panini para prestar solidariedade ao médico e expressar a sua revolta. “Absurdo! Infectologista de respeito, excelente profissional, lutando por todos e isso que ganha em troca?! José, minha solidariedade e seguimos firme defendendo a população”, disse uma médica.

Mais colegas de profissão se manifestaram sobre a agressão. “Espero de verdade que um dia a gente acorde desse pesadelo e que nós infectologistas possamos nos reunir para comemorar o fim desses meses tão difíceis”.

Estudantes de Medicina e ex-alunos de José, que já lecionou na UFPR (Universidade Federal do Paraná), campus Toledo, também se manifestaram: “Nossa turma te deve muito, sinta-se abraçado por nós”. Em nota, o Centro Acadêmico de Medicina de Toledo (CAMTO) repudiou a ação, desejou uma boa recuperação ao professor e pediu por punição aos agressores.

“Estamos extremamente indignados com a situação, visto que o trabalho de Dr. José Eduardo e dos demais médicos é de orientar a melhor forma para enfrentarmos a pandemia baseados em evidências científicas e boletim epidemiológicos”.

De acordo com o último boletim da prefeitura, de 27 de fevereiro, a cidade com 142 mil habitantes registrou até agora 141 mortes causadas pela Covid-19. O total de casos é de 14.793. A média de ocupação de leitos de UTI na região é de 96,15%. Em Toledo, todos os leitos estão ocupados.

Panini registrou um boletim de ocorrências sobre o fato, que será investigado pela Polícia Civil.

Brasil

A situação da pandemia está crítica em todo o território brasileiro. As taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos revelam o pior cenário já observado, inclusive pela sua dispersão no país, de acordo com dados apurados em 22 de fevereiro pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

São 12 estados e o Distrito Federal na zona de alerta crítica, com mais de 80% de ocupação, e 17 capitais (que concentram recursos de saúde e também populações) com taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos de pelo menos 80%.  A análise é referente às semanas epidemiológicas 5, 6 e 7 de 2021, que abrangem o período de 31 de janeiro a 20 de fevereiro.

O agravamento da pandemia fez com que mais estados, além do Paraná, anunciassem novas regras para tentar frear a disseminação do vírus e o aumento de internações e mortes provocadas pela Covid-19, nessa segunda-feira (1º), que vão do fechamento de praias, suspensão da venda de bebidas alcoólicas e cirurgias não emergenciais, ao toque de recolher.

(PBH/Divulgação)

Belo Horizonte voltou ao alerta vermelho na ocupação de UTIs. De acordo com o último boletim epidemiológico da capital mineira, do dia 1º de março, a cidade estava com 74,7% dos leitos ocupados. Além disso, o número médio de transmissão por infectados passou do nível amarelo para o vermelho e está em níveis alarmantes: 1,20.

Além disso, o Brasil bateu, na semana passada, o recorde de número de óbitos por dia, registrando mais de 1,5 mil mortes em 25 de fevereiro. “O Brasil apresentou uma média de 46 mil casos, valor mais elevado que o verificado em meados do ano passado, e média de 1.020 óbitos por dia ao longo das primeiras semanas de fevereiro. Nenhum estado apresentou tendência de queda no número de casos e óbitos”, destacou o Boletim Observatório Covid-19 da Fiocruz 

A fundação também falou sobre a situação dos profissionais de saúde, a vacinação e o aparecimento de mutações do vírus. “Com base nesses dados, os pesquisadores colocam também em pauta o chamado ‘novo normal’, destacando os já conhecidos desafios, como a sobrecarga do sistema de saúde e de seus profissionais, e a necessidade de adoção de medidas não-farmacológicas para reduzir a velocidade da propagação, bem como os novos desafios, com o lento processo de vacinação e o surgimento das novas variantes do vírus e as incertezas que elas ainda trazem”.

“O que amplia ainda mais a necessidade de romper, ou desacelerar, a rede de transmissão do vírus por meio de medidas preventivas não-farmacológicas. “A gravidade deste cenário não pode ser naturalizada e nem tratada como um novo normal. Mais do que nunca urge combinar medidas amplas e envolvendo todos os setores da sociedade e integradas nos diferentes níveis de governo”, afirmaram os pesquisadores no documento. 

Edição: Vitor Fernandes

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