Bolsonaro envia Ernesto e comitiva a Israel por spray ‘milagroso’, que ele diz não saber o que é

Beijamin e Bolsonaro
A comitiva de Bolsonaro vai se encontrar com o premiê de Israel (Alan Santos/PR)

Por Daniel Carvalho

Em meio ao pior momento da pandemia de Covid-19 no país, falta de leitos e com apenas 3,2% da população vacinada com a primeira dose, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta terça-feira (2) que uma comitiva de dez pessoas, chefiada pelo ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores), embarca para Israel no sábado (6) em busca de um spray que ele afirma não saber o que é e que “parece um produto milagroso”.

O Brasil registrou 1.726 mortes por Covid-19 nesta terça, o maior número diário de vidas perdidas de toda a pandemia. O país também registrou, pelo quarto dia consecutivo, a maior média móvel de óbitos pela doença, 1.274. A média de mortes já está há 41 dias acima de 1.000.

Há, atualmente, 35 pesquisas em humanos avaliando 22 possibilidades de drogas contra Covid-19 aplicadas por inalação feita em hospital. O estudo de Israel com o spray nasal EXO-CD24, citado pelo presidente, é um dos mais iniciais entre os registros de pesquisas clínicas.

A chamada fase 1 do EXO-CD24 começou no final de setembro do ano passado e, oficialmente, seria concluída apenas em 25 de março.

As informações são da base internacional Clinical Trials, que reúne dados sobre experimentos de medicamentos, diagnósticos e vacinas com pessoas no mundo todo.

A droga está sendo testada para Covid-19 com 30 voluntários e, por enquanto, não há resultados publicados em artigo científico nem da fase 1, que ainda não está oficialmente concluída.

“Todas as tratativas foram feitas. Acordos, memorandos. A gente vai, o pessoal nosso que vai sendo chefiado pelo ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, vai ter encontro com Binyamin Netanyahu, que é o primeiro-ministro, vai no hospital, vai no laboratório”, disse Bolsonaro a apoiadores que o aguardavam no Palácio da Alvorada.

Na conversa, gravada e publicada por um canal simpático ao presidente na internet, Bolsonaro afirmou que há acertos para que a fase 3 de testes seja realizada aqui.

“Está tudo acertado para isso, não quer dizer que vai acontecer, mas está tudo acertado. O pessoal vir para cá [sic], é dada entrada na documentação na Anvisa para que a fase 3 venha a ser feita em forma experimental no Brasil. E como é para ser usado em quem está hospitalizado, quem está em UTI, eu acho que não tem problema nenhum usar esse spray no nariz do cara”, afirmou o presidente.

Bolsonaro começou a falar sobre o spray de Israel para Covid-19 logo depois que um jornal daquele país, Times of Israel, noticiou, em 5 de fevereiro, que a droga em testes “curou” 29 dos 30 casos moderados a graves de Covid-19. O tom foi de “grande descoberta”.

A informação teve base em informações divulgadas pelo hospital Tel Aviv’s Ichilov, que está realizando os experimentos. De acordo com a imprensa local, a droga foi ministrada por três a cinco dias. Não há, no entanto, evidências científicas para se falar em cura da Covid-19.

“O que que é este spray? Não sei. Mas o que acontece: este produto, há dez anos, estava sendo investigado, estava sendo estudado em Israel para outro tipo de vírus, certo? E usou-se lá em 30 [pessoas] e em 29 deu certo em poucos dias. O último demorou um pouco mais, mas também se curou”, disse o presidente.

“Então, parece até que é um produto milagroso. Parece. Mas nós vamos atrás disso. Onde tiver possibilidade de nós salvarmos vidas, nós não deixaremos passar esta oportunidade”, afirmou.

Esta é mais uma aposta de Bolsonaro em produtos sem eficácia comprovada cientificamente ou mesmo com a comprovação científica de ineficácia. O receituário presidencial inclui produtos como cloroquina e ivermectina.

De acordo com documento divulgado na segunda-feira (1°) na revista científica “The BMJ”, a OMS (Organização Mundial da Saúde) publicou diretriz pedindo que a hidroxicloroquina não seja usada como tratamento preventivo da Covid-19. A recomendação é de um painel de especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da organização.

Na semana passada, o MPF (Ministério Público Federal) deu 15 dias para os comandos do Exército e da Aeronáutica detalharem as estruturas mobilizadas, o total de dinheiro público gasto e a origem orçamentária dos recursos usados na produção e na distribuição de cloroquina.

As explicações serão dadas no curso de um inquérito civil público instaurado pela Procuradoria da República no Distrito Federal, que investiga ilegalidades no uso de dinheiro público para difundir medicamentos sem eficácia para tratar ou prevenir a infecção pelo novo coronavírus.

Em procedimentos na esfera cível, é praxe que os procuradores remetam ofícios inicialmente à PGR (Prouradoria-Geral da República), para que o procurador-geral encaminhe os pedidos de explicação a autoridades com foro privilegiado, como é o caso dos comandantes das três Forças Armadas.

A decisão de oficiar os comandos foi adotada pela procuradora da República Luciana Loureiro, no mesmo despacho em que converteu um procedimento preparatório em inquérito para investigar ilegalidades na difusão da cloroquina, assinado em 19 de fevereiro.

Esse inquérito é um dos dez procedimentos formalmente abertos pelo MPF para investigar atos do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, no combate à pandemia.

No mesmo procedimento, ainda são investigadas a baixa execução orçamentária de recursos federais no combate à pandemia, a insuficiência de insumos ao SUS e omissões do Ministério da Saúde na aquisição de vacinas contra a Covid-19.

Conforme o jornal Folha de S.Paulo mostrou em reportagem publicada no início de fevereiro, o governo Bolsonaro mobilizou Exército, Aeronáutica, cinco ministérios, uma estatal e dois conselhos da área econômica para fazer a cloroquina chegar aos quatro cantos do país.

Novas reportagens revelaram que o Ministério da Saúde usou também a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para a produção de 4 milhões de comprimidos.

Documentos enviados ao MPF registram que o dinheiro usado partiu de uma MP (medida provisória) destinada a ações de combate à pandemia.

Além disso, segundo esses documentos, o Ministério da Saúde desviou a finalidade do programa nacional de controle da malária, usando a cloroquina produzida pela Fiocruz –que tem essa finalidade original, de combate à malária– para “tratamento precoce” de Covid-19.

Os comandos do Exército e da Aeronáutica devem explicar suas respectivas participações na difusão da cloroquina em 2020 e em 2021, “esclarecendo o que mais lhes convier acerca dos fatos narrados na reportagem publicada pela Folha de S.Paulo”, como consta no despacho do MPF.

O Exército produziu 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina a partir de solicitações dos Ministérios da Defesa e da Saúde, segundo informou à Folha na reportagem publicada no dia 6 de fevereiro. O gasto com a produção foi de R$ 1,16 milhão.

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