Homem que zombou de feminicídio torturou e deu 13 facadas na vítima

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Nilda era querida e admirada pelos moradores da região onde morava (Nilda Silva/Arquivo pessoal)

Novos elementos, descobertos na investigação da Polícia Civil, levam ainda mais traços de crueldade ao feminicídio de Clenilda Alzira da Silva. O autor não só desdenhou do assassinato da mulher na presença dos policiais como a torturou por dias seguidos. A informação foi confirmada em entrevista exclusiva ao BHAZ do delegado que atendeu a ocorrência, Rômulo Guimarães Dias, que ainda reforçou que o caso poderia ter desfecho diferente se conhecidos e parentes tivessem denunciado antes.

“Provavelmente, ela estava sendo torturada desde sexta-feira [Clenilda foi assassinada na segunda-feira], quando parou de dar notícias. A escalada de violência para com ela é nítida. Por que ela não saiu para trabalhar? Como ia sair com aquele olho [roxo] e nariz fraturado? Se ela sai, denunciaria o autor e essa não era intenção dele”, afirma o delegado, da 2ª Delegacia Regional de Polícia Civil do Barreiro.

Frieza

O feminicídio chocou a Vila Cemig, na região do Barreiro, na última semana. Nilda, como Clenilda era chamada, estava desaparecida desde o dia 19 de fevereiro, uma sexta-feira. Na segunda seguinte, dia 22, um colega de trabalho passou de manhã em frente à residência dela para dar carona, como fazia corriqueiramente, mas a mulher não desceu. Ele ligou várias vezes, não tendo sucesso em nenhuma, e decidiu ir para o trabalho.

Já na tarde daquela segunda, ele recebeu uma ligação da mulher, com voz estranha, falando que iria para a casa da mãe, em Pernambuco. O homem estranhou e acionou a polícia, que se deslocou imediatamente para a residência dela. Chegando lá, os agentes de segurança foram recebidos pelo companheiro de Nilda, Tiago Vinicios Gomes Correia, na varanda: “O que vocês querem”, teria questionado o homem de 45 anos.

Último grito

Testemunhas ouvidas pelo BHAZ relatam que, após conversar rapidamente com os policiais, Tiago entrou para o interior da residência. “Quando [o Tiago] entrou pra casa, ela [Clenilda] gritou ‘socorro’. Nesta hora, a polícia já começou a chutar o portão mais que depressa e ele [Tiago] falou que já tinha matado ela e poderiam entrar”, relata à reportagem uma das pessoas que acompanharam a sequência dos fatos, que prefere ter a identidade preservada.

“Naquele momento, meu investigador chutou o portão para entrarmos. No que ele deu o primeiro chute, o homem voltou para a varanda e perguntou se iríamos entrar. Falei que já estávamos entrando e ouvi dele: ‘Podem entrar. Acabei de matá-la'”, diz o delegado Rômulo Dias, que, além de atender a ocorrência, fez os primeiros trabalhos de investigação – o caso agora está com o Núcleo de Feminicídios do Departamento de Homicídios.

Os policiais agiram rapidamente, prenderam Tiago Correia e levaram Nilda ao hospital Júlia Kubistchek, onde o óbito foi confirmado logo na entrada. “Eu não sou especialista para reconhecer [se a vítima estava viva quando eles chegaram ao cômodo]. Diante da fala ‘acabei de matá-la’, a primeira coisa que fizemos foi socorrer a Clenilda. Infelizmente, ela chegou morta no hospital e só ficamos sabendo depois do resultado do exame de necropsia”, diz o policial.

Golpe fatal?

O médico legista e diretor técnico da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas, José Jozefran Berto Freire, explica que o autor do crime pode ter “dopado” a vítima para esfaqueá-la. “A dopagem é uma hipótese que não pode ser descartada. O grito, em casos como este, é a única forma que a vítima tem de buscar a defesa, pois ela se encontra impossibilitada, por exemplo, de fugir. O que é descartado é o grito após a morte”, afirma ao BHAZ.

O especialista esclarece que corpos emitem sons após a morte, mas não de forma imediata. “Não existe a possibilidade da pessoa gritar logo após a morte. O corpo emite ruídos, apenas, na fase de putrefação. Neste momento o corpo está se expandido e os sons são comuns. É importante destacar que isso acontece por volta do 12º dia de morte e ninguém escuta, pois a pessoa já foi sepultada. Isso só não acontece quando a pessoa é cremada”.

O que ocorreu entre a aparição do autor na varanda e a entrada das autoridades na residência ainda não é preciso. O delegado descarta a possibilidade de Tiago ter desferido as 13 facadas nesse período. “Tenho a convicção absoluta de que ele havia acabado de dar as facadas momentos antes de chegarmos. Quando ele disse ‘acabei de matá-la’, estava afirmando que não tinha mais o que fazer para salvá-la. O tempo em que ele entrou não era suficiente para as facadas. Nossa primeira conversa durou cerca de cinco segundos”, diz o policial.

O especialista em Medicina Legal levanta a possibilidade do assassino ter dado o golpe derradeiro. “Não é por que a pessoa foi esfaqueada por 12 vezes que ela já está morta. Depende da área onde os golpes foram dados, quais órgãos, artérias foram atingidos. Ela pode ter levado um golpe fatal”, afirma José Jozefran Berto Freire.

‘Fez o que era possível’

Pelo fato de testemunhas terem ouvido o grito da vítima após a chegada da Polícia Civil em frente à residência, leitores questionaram o trabalho dos agentes após a publicação do crime. “A polícia não fez nada, esperou o cara matar a mulher para então entrar na casa. Tenha dó”, escreveu um leitor. O BHAZ procurou especialistas de segurança pública para analisar a atuação e o veredito é: os policiais fizeram o que era possível.

Jorge Tassi é professor universitário e lista as quatros hipóteses para a polícia entrar no interior de residências: “Com autorização do proprietário; com ordem judicial; em situação de flagrante delito; ou para prestar socorro, mas é preciso ter a certeza de que isso é necessário”.

“Neste caso [do feminicídio na Vila Cemig], avalio que o policial tinha a hipótese, mas não a certeza de que o crime estava acontecendo. E, para entrar e tomar a frente, ele precisa ter a certeza. Caso contrário, pode responder por abuso de autoridade. A polícia fez o que era possível. O crime era impossível de se prevenir”, analisa o especialista.

Para Robson Sávio Reis, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “é muito fácil dizer o que o policial deveria fazer”. “E se fosse na casa de quem apontou, [criticou]? Quando algo me convém, a lei e ordem é para me proteger, mas quando é para o outro, é para agredir”, questiona o estudioso, seguindo a mesma linha de Tassi.

‘Silêncio mata’

Nilda se relacionou com o homem que a matou durante oito meses. Familiares e amigos notaram uma mudança de comportamento dela, desde que ele passou a morar com ela. “Ela almoçava na minha casa, mas depois que este sujeito veio pra cá, isso parou. Clenilda não ia mais lá nem nos parentes”, conta uma moradora.

Um dos especialistas ouvidos pelo BHAZ e o delegado afirmam que a mudança repentina é um sinal forte de que algo não está bem. “Obviamente não quero arrumar culpados, mas o elemento mais importante deste caso é: qual o limite da conivência de amigos, família e colegas de trabalho quando há sinais claros de violência contra a mulher, travestis e outros grupos vulneráveis? Tudo é percebido, mas nada é feito por comodismo ou conivência”, alerta Robson Sávio.

“Uma pessoa ‘normal’ não se isola. Isso acontece quando há um problema. Se você nota alguém com problemas tem que buscar saber o que está acontecendo para ajudar. Esta mulher era mantida em cárcere, torturada e sofrendo, mas ninguém sabia o que acontecia. Até quando ela ficaria ali se a Polícia Civil não tivesse ido ao local? O silêncio mata”, diz o delegado Rômulo Dias.

“Fica a memória de uma pessoa muito boa, dedicada ao trabalho, muito honesta”, resume uma pessoa próxima à Clenilda da Silva.

Edição: Thiago Ricci
Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política. Teve reportagens agraciadas pelo prêmio CDL.

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