Futuros médicos ignoram momento ‘assustador’ e fazem evento em BH

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Futuros médicos fizeram evento com calouros mesmo com recordes de mortes por Covid (Reprodução/Redes Sociais)

Uma recepção de calouros de alunos de medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), em Belo Horizonte, nesse sábado (6), gerou polêmica nas redes sociais. O evento, organizado em parceria com a Alliance Produções, aconteceu no Clube Chalezinho, em uma parte do estabelecimento chamado de Quintal do Chalé. A cerimônia feita em um momento crítico do sistema de saúde de BH – e do Brasil – e com seguidos recordes de mortes por Covid foi duramente criticada.

O “Sapono Bloco”, como o evento foi batizado, teve temática de Carnaval e aconteceu na parte da manhã do dia em que novo fechamento da capital mineira entrou em vigor – impedindo que comerciantes pudessem trabalhar para evitar mais mortes e o colapso do sistema. As vendas de ingresso ocorreram no Sympla e os organizadores decidiram manter a cerimônia mesmo após o prefeito Alexandre Kalil (PSD) anunciar situação “absolutamente assustadora”.

“Uma vez que já tínhamos marcado o evento cumprindo todas as medidas de segurança e, além disso, ele se enquadra ao horário antes do lockdown, nós da comissão decidimos por manter o evento no mesmo dia e horário: sábado de 9h à 12h”, escreveu a comissão da turma 74, responsável pelo evento, por meio de rede social. Eles também anunciaram o uso obrigatório de máscara – o que não foi respeitado integralmente -, a recomendação do uso de face shield, além da adoção das medidas de segurança do local.

Mesmo com o anúncio das medidas, o evento repercutiu negativamente nas redes sociais, depois da publicação de fotos de pessoas sem máscara e sem o distanciamento prometido pelo evento. Nas imagens, é possível ver mais de 10 pessoas juntas, sem o cumprimento dos protocolos de segurança.

‘Vergonhoso’

O infectologista Carlos Starling, do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da PBH (Prefeitura de Belo Horizonte), classificou o ato como “reprovável e vergonhoso”, particularmente por se tratar de alunos de medicina. “É um absurdo estudantes de qualquer curso universitário fazerem uma coisa dessa, mas particularmente os alunos de medicina. Então exatamente por serem alunos de medicina isso é tão reprovável”, disse o médico ao BHAZ.

Estudantes se aglomeram, vários sem máscara (Reprodução/Redes Sociais)

Ele acredita que a faculdade deveria tomar providências quanto à turma. “Eu acho que particularmente pelo o fato de serem alunos de medicina, eles deveriam ser simplesmente reprovados na parte de saúde pública. Na minha opinião, é vergonhoso para os alunos de medicina e a faculdade deveria tomar uma providência muito série em relação a essa turma”, afirmou. “As pessoas podem fazer o que quiserem fora da faculdade, mas isso de certa forma compromete o excelente nome que tem a faculdade”.

Bebidas alcoólicas

No evento, algumas bebidas foram entregues aos estudantes, como cerveja, energético, além de um kit drink para ser montado pelo próprio aluno. Uma caloura que estava no evento, em conversa à reportagem, garantiu que não era permitido o consumo de bebida alcoólica dentro do estabelecimento, mas que os organizadores não podiam controlar quem estava do lado de fora.

“Eles me deram um pacote com várias coisas, um ‘monte o seu drink’, com um copo e as instruções para montar”, disse Izabella Tornelli. “Também me deram um redbull, uma cerveja fechada, que não podia abrir lá dentro. Se vocês quisesse, eles podiam montar a sua bebida lá, mas você tinha que colocar em um copo e ir embora. Não podia beber lá, a organização não deixou”, explicou a caloura.

Um dos kits distribuídos (Reprodução/Redes Sociais)

“Quando eu saí pela porta, vi que já tinha umas cinco pessoas sem máscara que estavam bebendo no bar em frente, mas eu cheguei muito cedo, que era o meu horário marcado. Uma amiga, que foi mais tarde, disse que porta ficou cheia, e a comissão estava pedindo para as pessoas irem embora ou fazerem distanciamento. Sempre tem as pessoas que atrapalham e aglomeram”, relatou.

Nas redes sociais, mais pessoas que participaram da recepção falaram sobre as aglomerações na saída do evento. “Na minha vez mesmo tinha só duas meninas. O que pegou foi que ao final a maioria ficou aglomerada na saída e nos bares arredores, lamentável”, disse a internauta.

‘Não é o momento’

O infectologista reforça que o momento não é para encontros sem necessidade. “O momento não é o momento para qualquer tipo de aglomeração, nem familiar. Então isso é reprovável em todos os sentidos. Isso não tem cabimento, esse tipo de coisa nesse momento. Isso é desrespeitoso com a população, com a faculdade, com a profissão que eles escolheram”, disse.

Belo Horizonte, assim como todo o país, está em um momento crítico na pandemia, com risco de colapso. O número médio de transmissão por infectado e a ocupação de leitos de UTI de Covid-19 alcançaram níveis alarmantes. Junto com o anúncio do fechamento dos serviços não essenciais, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) também anunciou que a capital tem, pela primeira vez, registros de crianças internadas com Covid.

Posicionamento

Depois da repercussão, os organizadores do evento se pronunciaram em rede social para prestar esclarecimentos em relação ao evento. De acordo com a comissão, mesmo não causando as aglomerações dentro do evento, a recepção gerou, do lado de fora, um agrupamento desnecessário de pessoas.

Eles lamentaram sobre a aglomeração do lado de fora. “Ao sair do circuito, um pequeno grupo de calouros começou a se aglomerar na porta, e assim que vimos isso, fomos rígidos, exigindo deles que fossem embora, já que o objetivo do evento não era permanecer no local”, escreveram em nota (leia na íntegra abaixo).

“Depois de tanta exigência, as pessoas foram embora e algumas se aglomeraram em outros lugares. É muito triste perceber que esses grupos específicos só permanecem com distanciamento social por meio de ordens, e não por consciência própria”, disseram.

Na nota, eles ainda escreveram que repudiam aglomerações neste momento. A comissão foi procurada pela reportagem, para avaliar o momento de realização do evento, mas preferiu não se pronunciar.

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Várias pessoas usaram a cabeça do ‘sapão’, o mascote da FCMMG (Reprodução/Redes sociais)

Já a Alliance Produções, que faz parte do Grupo Chalezinho, publicou posicionamento através do qual disse lamentar “muito pela disseminação de fake news”. “Sabemos e temos consciência do momento que estamos vivendo e somos totalmente a favor do fechamento de maneira planejada, da não aglomeração e principalmente, do respeito à vida”, disse em trecho da nota (leia na íntegra abaixo).

Repúdio

O diretório acadêmico da FCMMG se pronunciou sobre o assunto. Em nota (leia na íntegra abaixo), eles negaram envolvimento com os eventos presenciais e repudiaram “todo e qualquer tipo de aglomeração”. “Por dever como diretório acadêmico devemos repudiar por não condizer com a atitude de futuros médicos que desejamos nos tornar”, escreveram em rede social.

A atlética da faculdade rapidamente se pronunciou para negar qualquer tipo de envolvimento. “A Atlética Ciências Médicas declara não ter envolvimento com quaisquer eventos realizados por alunos e reitera sua posição de não estimular aglomerações durante a pandemia”, disseram em nota (leia na íntegra abaixo).

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Participantes ignoraram as máscaras (Reprodução/Redes sociais)

Eles também esclareceram que o evento não se tratava da sua “tradicional calourada. “Vale ressaltar que a nossa tradicional ‘Calourada Ciências Médicas’, organizada única e exclusivamente pela atlética, não diz respeito à recepção de calouros ocorrida ontem e continua sem data prevista para realização”, escreveram no perfil em mídia social.

Repercussão

A recepção foi duramente criticada nas redes sociais. Muitas pessoas lembraram o fato de que o evento se tratava de alunos de medicina, que têm colegas de profissão na linha de frente desde o começo da pandemia que vêm enfrentando enorme desgaste e exaustão com o trabalho nos hospitais. Alunos da própria faculdade se pronunciaram contra a festa e pediram pelo posicionamento da instituição. “Não é possível que a Ciências Médicas não vai se pronunciar! Eles estão levando o nome da faculdade que estudo e esses serão meus colegas de profissão. QUE VERGONHA!”, escreveu uma estudante.

‘Números assustadores’

Ao anunciar o fechamento de BH, nessa sexta, o prefeito Kalil disse que os indicadores de monitoramento da pandemia apresentam “números absolutamente assustadores”. “Vamos dizer o seguinte sem muita expectativa: voltamos à estaca zero”, afirmou o mandatário municipal ao comunicar a decisão tomada.

O último Boletim Epidemiológico e Assistencial, dessa sexta-feira (5), apontava que BH já registrava 116.419 diagnósticos positivos de Covid-19 e 2.815 mortes. O número de pacientes recuperados chegou a 107.777 e os em acompanhamento 5.827. Os leitos de UTI seguem com alta na ocupação e estão operando com 81% da capacidade. Os de enfermaria estão em 61,9%. O fator RT – média de pessoas que um infectado consegue contaminar – está em 1,16.

Taxa de ocupação dos leitos de UTI para Covid subiu para 81% (PBH/Divulgação)

Nota Comissão 74

“A comissão 74 gostaria de esclarecer a disseminação de fake news envolvendo a recepção de calouros. Chegou a nós tuítes feitos relacionados à nossa recepção de calouros que ocorreu ontem, no sábado. Tendo em vista que nós sabemos da responsabilidade que é ser, primeiramente humano, e também estudantes de medicina em meio à pandemia, decidimos explicar para você como foi nossa logística, assim como fizemos para todos os alunos por meio de textos no WhatsApp e publicações no Instagram. Inicialmente gostaríamos de esclarecer que não foi uma calourada, apenas uma forma de recepcionar nossos calouros, e a ideia de fazer essa recepção, em um contexto de pandemia, foi um desafio muito grande pra gente, queríamos fazer algo 100% dentro das regras, mas que marcassem os alunos de alguma forma. Sabemos que ao ver as imagens e vídeos, com música alta e no Clube Chalezinho, que está intimamente ligado a aglomerações e festas, as pessoas concluiriam que se tratava de um grande evento, mas de forma alguma isso ocorreu, fomos extremamente exigentes em casa passo que os alunos davam lá dentro. Nosso ‘evento’ se resumiu da seguinte forma: Teve início às 9h e fechamos as portas 12h. Se tratou de um trajeto unidirecional, em um modelo ‘Walk Thru’, no qual a pessoa ao chegar passava por todo um processo de conferência de nome, para evitar que pessoas de fora entrassem, aferição de temperatura, uso de alcoól em gel, uso de máscara obrigatório, recomendados o uso da Face Shield, e havia todo uma equipe preparada para manter o distanciamento, que inclusive foi muito além do necessário. Fizemos a venda de ingressos por meio de horários marcados, de forma que durante o circuito, não houvessem mais de 10 pessoas, espalhadas por todo o local. Resumindo, foi uma entrega de kits com ativações, o espaço era amplo, aberto, e como eu disse anteriormente, fomos extremamente exigentes com cada medida de segurança. Ao sair do circuito, um pequeno grupo de calouros começou a se aglomerar na porta, e assim que vimos isso, fomos rígidos, exigindo deles que fossem embora, já que o objetivo do evento não era permanecer no local. Depois de tanta exigência, as pessoas foram embora e algumas se aglomeraram em outros lugares. É muito triste perceber que esses grupos específicos só permanecem com distanciamento social por meio de ordens, e não por consciência própria. Algumas inverdades estão sendo espalhadas como prints de pessoas em festas à noite e estão acusando de ser fotos da recepção, mas isso não é verdade! Nosso circuito foi de 9h a 12h e apenas a permanência de 15 minutos lá dentro. Recebemos muitos elogios pela forma que lidamos com isso, que conseguimos sim manter uma segurança admirável. Estamos retornando os comentários e explicando a situação que gerou uma certa repercussão, pois assim como vocês da faculdade, repudiamos aglomerações nesse momento. Esperamos que fique tudo esclarecido. Atenciosamente, Comissão 74.”

Nota Alliance BH

“Em respeito aos nossos clientes e parceiros, a Alliance vem atrás desta mensagem se posicionar sobre a FAKE NEWS que vem sendo disseminada de uma possível “calourada com aglomerações” realizada por nós juntos aos ALUNOS da comissão de formatura da Faculdade Ciências Médicas. Sabemos e temos consciência do momento que estamos vivendo e somos totalmente a favor do fechamento de maneira planejada, da não aglomeração e principalmente, do respeito à vida. Na manhã do último sábado (7 de março), das 9h às 12h, utilizamos um dos espaços ociosos do Clube Chalezinho (fechado desde março de 2020) para realizar a ENTREGA dos kit de boas vindas aos calouros da Faculdade. Sobre a entrega dos kits, fizemos um trajeto em direção única (Walk Thru) onde quem havia feito a aquisição do kit poderia passar para receber o seu. As entregas aconteceram com horário marcado, em um espaço amplo (com mais de 200m2), arejado e com limitação de 10 pessoas por vez no trajeto que durava menos de 10 minutos como mostramos nas imagens. Estamos com consciência tranquila, seguimos com todo cuidado as medidas de proteção e saúde. Lamentamos muito pela disseminação de FAKE NEWS e nos colocamos totalmente à disposição para esclarecimento”.

Nota de Repúdio – Diretório Acadêmico Lucas Machado

“Nós do Diretório Acadêmico Lucas Machado negamos envolvimento com eventos presenciais e repudiamos todo e qualquer tipo de aglomeração no momento, tendo em vista que estamos em plena pandemia com uma média de 1443 mortes diários nos últimos 7 dias e com um total de mais de 264 mil mortes em decorrência do Covid-19. Entendemos a gravidade da situação e concordamos com as medidas de restrição impostas pela prefeitura de BH. Como futuros profissionais de saúde nos solidarizamos com os familiares das vítimas de Covid-19. Aglomerar na atual conjuntura só contribui para a disseminação do vírus, para o esgotamento de vagas de UTI e atrasada a volta à normalidade no futuro”.

Nota Atlética Ciências Médicas

“A Atlética Ciências Médicas declara não ter envolvimento com quaisquer eventos realizados por alunos e reitera sua posição de não estimular aglomerações durante a pandemia. Informados ainda que, tendo em vista a importância do distanciamento social, seguimos com todas as nossas atividades suspensas desde março de 2020, e assim permaneceremos até que seja seguro o retorno dos nossos alunos às práticas esportivas. Vale ressaltar que a nossa tradicional ‘Calourada Ciências Médicas’, organizada única e exclusivamente pela atlética, não diz respeito à recepção de calouros ocorrida ontem e continua sem data prevista para realização”.

Nota Ciências Médicas

A Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), mantida pela Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), ciente de sua responsabilidade como instituição de ensino na área da saúde, adota todas as medidas de segurança e prevenção e segue rigorosamente todas as recomendações das autoridades sanitárias competentes.
A FCMMG esclarece que:

  • Não compactua com nenhuma atividade ou iniciativa que represente aglomeração ou não obediência às medidas de segurança neste contexto de pandemia.
  • Não tem qualquer envolvimento ou participação em evento de iniciativa espontânea dos próprios alunos, realizado no último sábado, 06/03/2021, fora da estrutura da instituição.
    Diante do ocorrido e seguindo regimento interno da instituição, a Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais vai reforçar, aos alunos que participaram do evento, as orientações sobre as condutas adequadas a serem seguidas neste contexto de pandemia”.

Edição: Thiago Ricci

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