Assembleia de jornalistas mineiros é invadida por bolsonaristas: ‘Mensagens de ódio’

Assembleia invadida por bolsonaristas
Invasores exibiram vídeos pornográficos e mensagens de ódio na reunião virtual (Reprodução/SJPMG/YouTube)

Uma assembleia promovida de forma virtual pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJMPG) foi invadida, na tarde desta terça-feira (23), por usuários que exibiram imagens do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) além de vídeos pornográficos, uma cena de uma bandeira LGBTQI+ sendo queimada e palavras de ódio. Um vídeo mostra o início da invasão, quando um homem com o rosto pintado de palhaço exibiu as imagens em tela cheia e tocou um som de gritos estridentes na chamada. O sindicato preferiu não compartilhar a gravação inteira, por acreditar se tratar de um conteúdo ofensivo e violento.

A invasão ocorreu cerca de 15 minutos depois do início da assembleia, que reunia trabalhadores e representantes dos sindicatos dos Jornalistas, dos Gráficos e dos Trabalhadores da Administração em Jornais e Revistas, para a campanha salarial das categorias. De acordo com o SJMPG, foram propagadas “mensagens de ódio a trabalhadores, comunistas, LGBTI+, além de usar a sala virtual para divulgar vídeos pornográficos e de apoio a Bolsonaro”.

“Vo invadir a rede de computadores e celulares de todos por meio do IP. Vcs tão fudidos. Comunistas filhos da puta. Vazarei dados de todos”, diziam algumas mensagens enviadas por um usuário chamado Marcos Viana, enquanto outro usuário, que usava como nome o trocadilho “Thomás Turbando”, exibia imagens pornográficas na tela. A presidente do SJMPG tentou silenciar os usuários e interromper os vídeos, mas eles continuavam voltando com o ataque.

Invasão assembleia jornalistas
Invasor ameaçou vazar os dados dos participantes da reunião (Alessandra Mello/Arquivo pessoal)

Invasão agressiva

“No começo da assembleia, entrou uma pessoa com o nome ‘Jair Messias Bolsonaro’, e já achei estranho, porque costumo ficar vigilante, pedindo para as pessoas se apresentarem quando eu não conheço. Ele colocou um ruído impedindo que a gente falasse, tentei fechar o áudio e ele voltava. Depois, apareceu o ‘Thomás’. Todo mundo foi saindo, mas continuamos gravando, só não divulgamos tudo porque era muita baixaria. Foi uma invasão muito agressiva, com muitos gritos, imagens violentas, é lamentável”, conta ao BHAZ a presidente do SJMPG, Alessandra Mello.

A responsável explica que, pelo caráter da assembleia, que busca ser ampla e irrestrita, o link de participação para a reunião, na plataforma Google Meet, era aberto. Depois do ataque, a assembleia foi adiada e o SJMPG vai se mobilizar para fazer um cadastramento prévio dos participantes para garantir a segurança. A presidente do sindicato também vai procurar a Polícia Civil e o MPMG (Ministério Público de Minas Gerais) para formalizar uma denúncia a respeito da invasão.

“Eles têm essa característica de se esconder atrás do anonimato, usando o rosto de palhaço, por exemplo. Também têm essa fixação com a relação sexual, colocando vídeos pornográficos, usando o nome ‘Thomás Turbando’. E agora ameaçam sequestrar nossos dados. É tão difícil conseguir a participação do trabalhador nas assembleias, e aí acontece uma coisa assim, mas não vamos desistir”, completa Alessandra Mello.

Ataques a jornalistas

A presidente do sindicato ainda ressalta que, no dia 10 de março, uma assembleia promovida pelo Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro para discutir participação nos lucros com funcionários da TV Globo também foi adiada “em razão de ataque de hackers à sala virtual”. Ela defende que os ataques são direcionados a membros da imprensa brasileira, e não a qualquer trabalhador.

“Não iam invadir as assembleias de qualquer sindicato, escolheram os jornalistas, os radialistas. Isso faz parte de uma escalada de violência que nós vemos contra os jornalistas, que cada vez nos assombra mais. É uma profissão importante para a democracia. Quanto mais a imprensa puder atuar com liberdade, mais sinônimo de país livre a gente tem. Não é uma defesa corporativa, é defesa de uma profissão que é um tripé para uma sociedade democrática”, argumenta.

Alessandra ainda destaca que, no boletim de notícias divulgado pela FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) referente à última semana, constavam cinco casos de agressões a trabalhadores da imprensa: um em Olímpia, São Paulo; um em Belo Horizonte; um em Salvador, Bahia; outro em Codó, no Maranhão; e o último em Goiânia, Goiás.

“Infelizmente, as autoridades do Brasil só vão se atentar para o problema quando acontecer algo muito grave. Espero que não, mas pode acontecer a qualquer momento. Nós, dos sindicatos, temos pouco poder para fazer frente a isso, podemos nos mobilizar na luta institucional, denunciar. Mas o poder de justiça, apuração, punição, que também é pedagógico e evita que isso não aconteça mais, é do Ministério Público, da polícia e da Justiça”, finaliza a presidente do SJMPG.

Edição: Roberth Costa
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

Comentários