Ataques homofóbicos de bolsonaristas a Doria e Leite provocam reações na Justiça

doria e leite
Doria tem sido alvo de ataques de bolsonaristas (Sérgio Andrade/Governo do Estado de São Paulo)

O crescente tom homofóbico em ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de seus apoiadores aos governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ambos do PSDB, tem provocado indignação de militantes da causa LGBT em partidos e chegou à esfera judicial.

Em guerra contra os dois tucanos, principalmente por causa das medidas adotadas na pandemia, Bolsonaro passou a chamar publicamente Doria de “calcinha apertada”, expressão que faz alusão a calças justas usadas pelo tucano e é reverberada por aliados políticos e seguidores do presidente.

A combinação de palavras já apareceu em música cantada e dançada em atos de rua e serviu de inspiração para um grupo bolsonarista que levou calcinhas a um protesto anti-Doria –as peças íntimas femininas foram penduradas em um varal e agitadas em clima de deboche.

Nos últimos dias, em uma mudança de tom na comunicação, o governador paulista incorporou o apelido em mensagens de teor bem-humorado no Twitter, como estratégia para neutralizar a carga negativa da pecha e desestimular seu uso pelos detratores.

Bolsonaro também tem disparado insinuações ofensivas sobre Leite. Já se referiu a ele como “outro amiguinho” de Doria e o questionou sobre “onde ele enfiou” dinheiro repassado pelo governo federal. O gaúcho foi alvo ainda do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, bolsonarista que usou o adjetivo pejorativo “veado” ao criticar Leite por atitudes contra a disseminação da Covid-19. O governador entrou com um pedido de investigação sobre o ex-deputado no Ministério Público do Rio Grande do Sul.

O tucano também informou à Folha que decidiu interpelar judicialmente Bolsonaro pela fala em que o titular do Planalto sugeriu desvio de recursos da União destinados à saúde e disse, de modo irônico, saber “onde ele [Leite] botou essa grana toda aí”.

Os episódios levantam debates sobre o uso de estereótipos de gênero e sexualidade contra adversários políticos e jogam luz sobre a homofobia (ou LGBTfobia, em espectro mais amplo) direcionada a pessoas que não necessariamente tenham a homossexualidade como característica da figura pública. Bolsonaro, que desde a campanha de 2018 é cobrado por falas preconceituosas sobre diferentes grupos, passou a usar com mais frequência o apelido associado a Doria no segundo semestre do ano passado, à medida que acirrou a oposição ao tucano na questão das vacinas.

O presidente, que repete a expressão em lives semanais, entrevistas e pronunciamentos, vê no governador paulista um provável adversário nas eleições de 2022. Os ataques a Leite, mais recentes, coincidem com a ascensão do nome dele dentro do PSDB como presidenciável, ideia apoiada por alas da sigla.

Em março, o Diversidade Tucana, setor de filiados do PSDB que defendem a causa LGBT, divulgou notas de repúdio a Bolsonaro e a Jefferson. Em manifestação de solidariedade a Leite, as direções nacional e gaúcha do movimento partidário afirmaram que o dirigente do PTB “tenta manchar a imagem do governador com adjetivos pejorativos e suposições infundadas”. “Ser gay ou LGBT não é xingamento, mas motivo de orgulho para todos nós”, diz o texto, que define a orientação sexual como uma característica autodeclarada. “Ninguém tem o direito de apontar o dedo e, somente pela aparência, julgar se a pessoa é dessa ou daquela orientação sexual.”

A seção do Diversidade Tucana na capital paulista emitiu carta em que se posiciona contra “toda a misoginia, machismo e LGBTfobia presentes nas falas e ações do presidente da República e seus apoiadores”, com reflexos indiretos, segundo o grupo, no aumento dos casos de violência.

O comunicado reprovou, principalmente, o gesto de bolsonaristas que seguraram um cordão de calcinhas durante um protesto nas imediações da casa de Doria, no dia 7 de março, véspera do Dia Internacional da Mulher. “É algo degradante”, diz o presidente do setorial paulistano, Danilo Augusto. “Quando o Bolsonaro fala ‘calcinha apertada’, é na intenção de descredibilizar o Doria. No nosso país, com o machismo estrutural, o menosprezo é logo canalizado para o lado do [universo] feminino.”

As peças de roupa foram exibidas em outros atos anti-Doria em março, ao lado de desenhos que apresentam o governador com calça justa, acessórios cor-de-rosa, maquiagem e, no braço, uma bandeira com as cores do arco-íris.
Também fizeram parte das manifestações uma faixa com os dizeres “o diabo veste calça apertada” e um jingle, tocado em caixas de som, que na letra cita “calcinha apertada” e “baita afrescalhado”.

Procurados pela Folha, representantes da área LGBT de partidos como PT e PSOL endossaram as críticas da militância tucana e afirmaram que, mesmo estando na oposição a Doria e Leite, acreditam que o combate à discriminação está acima de disputas políticas.

“Independentemente do fato de ser ou não gay, o Doria executa o trabalho dele e, apesar das divergências que temos, ele está fazendo coisas corretas”, diz Bel Sá, secretária estadual LGBT do PT paulista. “Eles [bolsonaristas], influenciados pelo presidente, usam a questão de gênero para depreciar”, segue ela, acrescentando que, em decorrência da cultura machista, o comportamento está presente na esquerda também. “Temos que fazer um trabalho de educação em toda parte.”

Na mesma linha, Regina Tavares, que integra a coordenação LGBT do PSOL em São Paulo, afirma que a defesa dos direitos humanos supera as diferenças da sigla com os tucanos. “Não temos uma posição vingativa. Somos contra qualquer manifestação que induza ao preconceito.” Os ataques aos dois governadores, para Regina, “são graves porque excedem a crítica política”. Na avaliação de ativistas e pesquisadores ouvidos pela reportagem, o fundo homofóbico nos insultos é inquestionável. “Quando se quer, por exemplo, desqualificar um cara que cuida da sua estética, mesmo que ele não seja abertamente homossexual, essa é a primeira ‘suspeita’ levantada”, diz Bel.

Segundo o antropólogo e advogado Lucas Bulgarelli, pesquisador das áreas de gênero e conservadorismo, a discriminação pode atingir qualquer pessoa. “A LGBTfobia acontece toda vez que a orientação sexual presumida ou declarada for usada para constranger, humilhar, perseguir”, diz. “Bolsonaro tem sido um hábil manipulador da LGBTfobia. Sabe que ela funciona na nossa sociedade. Há uma concepção em alguns estratos de que a homoafetividade é uma forma de corrupção moral”, analisa ele, que dirige o Instituto Matizes, voltado para a equidade.

“Ao transpor o raciocínio para a briga no tocante à postura na pandemia, é como se houvesse a separação entre um governo ‘de machos’, que pede coragem aos ‘maricas’, e os governos que fazem o discurso do cuidado e da proteção, ideias relacionadas no imaginário popular ao feminino, ao materno.”

Bulgarelli afirma ver a intenção de “feminilizar” os governadores como parte da estratégia do bolsonarismo voltada “à construção de uma masculinidade violenta e empreendedora”, que culmina em reações contrárias a qualquer realidade que “fuja da compreensão de que só há macho e fêmea”.

À Folha o empresário Mauro Reinaldo, que é apoiador de Bolsonaro e organiza atos anti-Doria, diz discordar da “conotação sexual” nas passeatas. Ele relata que os protestos são de livre acesso e que desconhece os manifestantes, de “uma ala mais radical”, que empunharam as calcinhas.

“A gente não tem nenhum apelo homofóbico. Foi um grupo pequeno ali, que não representava os demais. Repudio esse apelido. Acho que ele, como governador, merece tratamento digno e respeito, por mais que eu não compactue com as ações dele. Cada um se veste do jeito que quer, faz o que quer”, afirma.

Eduardo Leite, por meio de nota, disse que “mais do que atingir a honra das pessoas, aqueles que direcionam ataques homofóbicos ofendem a dignidade humana”. “Existem ataques que, infelizmente, vão muito além do razoável e da divergência política. São agressões que demonstram a falta de argumentos, a baixíssima qualidade e o baixíssimo nível intelectual daqueles que fazem política dessa forma”, afirmou.

O governador do RS disse que fez a representação contra Roberto Jefferson por injúria, homofobia e agressão porque considerou que os ataques não foram dirigidos exclusivamente a ele, “mas a toda a sociedade, ao povo gaúcho e ao povo brasileiro”. A Folha não conseguiu contatar o presidente do PTB, mas, em redes sociais, ele continua postando críticas ao gaúcho, a quem se refere como “Dudu Milk-Shake”. O ex-deputado já empregou o termo calcinha para criticar os dois governadores do PSDB.

Sobre Bolsonaro, Leite afirmou que questionará o presidente na Justiça para que ele dê esclarecimentos sobre a afirmação, segundo ele falsa, de que o governo estadual usou recursos indevidamente. De acordo com o tucano, o presidente fez “uma tentativa de piada absolutamente infeliz” ao falar que não responderia o lugar onde o governador “botou essa grana”. Ele disse que não se rebaixará “a esse nível rasteiro, que aposta no desrespeito e na ofensa”, mas que não deixará de reagir.

Doria, via assessoria, afirmou que expressa “seu repúdio contra as agressões verbais que tem sofrido” após determinar medidas restritivas, “manifesta também seu respeito por todas as orientações sexuais e identidades de gênero” e “condena qualquer tipo de preconceito”.

“O preconceito, seja ele social, racial, religioso ou de gênero, de qualquer espécie, é um juízo de valor que se manifesta por meio da intolerância e ignorância. Assim como a ciência vai vencer o negacionismo grosseiro e genocida, o respeito e a tolerância vão vencer o ódio e a ignorância”, disse o paulista. Ao passar a mencionar a expressão “calça apertada” em seu perfil no Twitter, Doria busca afastar a impressão de incômodo, que poderia aumentar o apelo da alcunha. Procurado, o Palácio do Planalto respondeu que não comentaria o assunto.

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