Prefeitura de Contagem explica ‘depósito de corpos’ em UPA desativada e anuncia solução

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Diferente da estrutura provisória no Eldorado, o novo espaço é distante de áreas residências (Elisangela Santos/Arquivo Pessoal)

A Prefeitura de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, anunciou hoje (6) que corpos de vítimas da Covid-19 serão realocados em um novo espaço depois de tornar-se alvo de críticas nos últimos dias. A administração municipal usava o estacionamento de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) desativada como uma espécie de “depósito de corpos”, no bairro Eldorado. A situação causou espanto em moradores da cidade, que foram surpreendidos pela movimentação de caminhões frigoríficos no entorno do local.

Além da presença de caminhões com corpos de vítimas de Covid, quem vive na região demonstrou medo de mais exposição ao vírus. Nesta terça-feira (6), no entanto, o secretário de saúde de Contagem, Fabrício Simões, disse ao BHAZ que a alocação dos corpos no estacionamento da UPA desativada fazia parte de um “fluxo provisório”.

“Imagina as nossas unidades de saúde acumulando corpos? Isso a gente não queria ver em Contagem, a gente não quer ver em Contagem, por conta disso criamos esse fluxo provisório e que agora vai ter um local mais definitivo para poder dar essa dignidade pra todas essas famílias”, pontou.

Simões ainda destaca que Contagem vive o pior momento da pandemia. “Essa é a primeira vez que fizemos isso porque a gente teve um aumento de casos e um consequente aumento do número de óbitos, uma situação que disparou. Nós estamos vivendo, o estado, o Brasil, o pior mês, o pior cenário de Covid desde o início, sem dúvida”.

‘Mais reservado’

O novo espaço cedido à Prefeitura de Contagem para a alocação dos corpos fica na rua Maria da Glória Rocha, no bairro Beatriz, onde funcionava a Transcon, a autarquia municipal de trânsito e transportes da cidade. Segundo a prefeitura, o local é mais amplo e, também, distante de áreas residenciais.

O secretário conta o motivo da utilização do espaço anterior. “A gente mapeou alguns locais, e por ser próximo ali da funerária, por ter uma estrutura que poderia receber, até os trabalhadores, inicialmente foi utilizado aquele espaço. Inicialmente era um espaço provisório, para gente ganhar um tempo”, diz.

“Por mais que Contagem tenha um tamanho importante, locais que a gente possa avaliar, não é tão simples definir um local da noite para o dia. Então foi feito essa estrutura transitória para que agora a gente definisse um lugar mais reservado para que possa ser feito esse atendimento”, explica.

Questionado se o aproveitamento do espaço para esse fim não traria problemas para a comunidade, o secretário negou. “Do ponto de vista sanitário não, tem toda uma tramitação com estratégias sanitárias internacionais”. Ele ainda tranquilizou os moradores, que se assustaram com a nova função da UPA, desativada há dez anos. “Não há essa possibilidade de risco, a gente não faria isso jamais com a população da região”, afirma.

“Não é nenhuma novidade para nenhum município esse fluxo funerário, infelizmente, estamos passando por essa situação. Mas o que a gente fez ali foi totalmente acompanhado pela vigilância, pelo grupo sanitário, então não traz nenhum tipo de risco de contaminação a população naquele local”, completa.

Comunicação

Moradores também reclamaram da falta de comunicação com a comunidade, visto que a população não foi avisada sobre a nova utilização do espaço. Ao BHAZ, na sexta-feira, Elisangela Santos, que mora em frente à UPA, relatou sobre o fato. “Fomos deparados com guardas municipais na frente da nossa casa, com caminhão frigorífico, carros de várias funerárias e os guardas”, disse.

Segundo ela, os moradores foram surpreendidos com a movimentação, que se estendeu por toda a manhã, e chegaram a questionar os agentes que estavam no local. Fabrício concordou com o receio da população. “Muito compreensível essa apreensão da população. Não é uma ação positiva, então a forma de comunicação disso é um desafio, principalmente em um momento de pandemia, você não pode chamar a comunidade para conversar [presencialmente]”, pontua.

“Nem todas as coisas que a gente consegue fazer a gente consegue realmente fazer uma comunicação prévia antes. A comunidade é muito descentralizada. O que a gente tem tentado fazer é esclarecer para todos agora a necessidade e urgência que a prefeitura teve que tomar essa decisão. A gente não sabe o momento certo que vai precisar. Fica esse desafio, que a gente tem, mas que estamos tentando minimizar agora”, justifica.

Ele diz que a ação foi necessária para evitar uma tragédia maior. “O único objetivo foi se antecipar a uma situação que temos visto em outro município, como acúmulos de corpos nas unidades. Naquele momento, pensando em uma série de variáveis, foi escolhido aquele espaço, de imediato, até a gente conseguir um espaço mais definitivo”, explica.

‘Mausoléu’

A moradora Elisangela Santos também relatou que com o tempo, a unidade desativada foi depredada e acabou ficando abandonada. “Ela ficou fechada e foi servindo para os andarilhos tirarem tudo que tinha nela. Era como se fosse um mausoléu, ela ficou um lugar assombrado”, conta.

O secretário, contudo, explica que o edifício abandonado não foi usado, apenas o espaço de fora. “Na verdade não foi utilizado a UPA, o que está posicionado é o estacionamento da UPA, um caminhão com uma câmara fria”, esclarece.

“A UPA, a parede, essas estruturas, definitivamente não foi utilizada, o que a gente utilizou foi o espaço pra que esse caminhão com essa câmara fria pudesse ser utilizado de forma temporária até que a gente conseguir dar todo o suporte pra família, que ela precisa, e o tempo que ela precisa pra resolver a tramitação, e dessa forma os corpos ficarem da melhor maneira possível, da maneira mais digna possível”, completa.

Plano de Contigência

A ação faz parte de um plano de contingência da Prefeitura de Contagem. “Já tinha o plano de contingência da funerária que envolve a secretaria, e dentro desse plano foram traçadas estratégias caso a gente começasse a perceber que realmente os necrotérios das unidades não estavam em condição de dar o atendimento adequado as famílias”, relata.

Com a situação crítica de necrotérios e cartórios na última semana, a prefeitura recorreu ao planejamento. “O administrativo dos cartórios não estava com a mesma velocidade, isso estava causando um represamento dentro dos necrotérios, preocupou muito a gente para dar mais dignidade as famílias, condicionar esses corpos de forma adequada. Contagem se adiantou com esse plano”, explica.

A prefeita Marília Campos também explica que a medida foi necessária devido ao aumento do número de mortes na cidade, que sobrecarregou a estrutura de necrotérios. “Cada unidade de saúde tem necrotérios que cabem duas ou três pessoas. A demanda está maior e não podemos deixar essas vítimas ao relento ou em qualquer lugar. São pessoas que têm histórias, famílias e merecem ser respeitadas”.

“Este novo espaço respeita todas as medidas sanitárias, para abrigar caminhões com refrigeração que conservam os corpos até o enterro, enquanto os cartórios e funerárias estiverem sobrecarregados”.

Edição: Roberth Costa

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