Pode parecer loucura tirar um domingo, dia que até mesmo Deus escolheu descansar, segundo a Bíblia, para ir visitar um cemitério – lugar do qual a maioria das pessoas espera passar longe. Às vésperas do Halloween, a repórter que vos fala encarou o medo de assombração e visitou o verdadeiro museu a céu aberto que é o Cemitério do Bonfim, local que foi inaugurado antes mesmo de Belo Horizonte e que guarda grande parte das histórias que narram o começo de tudo o que conhecemos hoje sobre a cidade.
Localizado no bairro do Bonfim, a poucos quilômetros do Centro da capital mineira, um império de mausoléus espalhados por 160 mil metros quadrados chama a atenção até mesmo dos olhares mais desatentos. Por lá, estão enterrados desde os sobrenomes mais poderosos que já passaram por aqui, como os Giannetti, Savassi e Soares, até aqueles que, literalmente, colocaram a mão na massa e fizeram Belo Horizonte se erguer.
Para contar a história desse importante personagem belo-horizontino, o BHAZ convida os leitores a mergulharem no olhar de pessoas que são apaixonadas por ele. Uma delas é a escritora mineira Paloma Bernardino Braga, que desde cedo aprendeu a ver o lugar com olhos de curiosidade ao em vez de medo.
“Sempre achei fascinante o cemitério justamente por ser esse lugar de memória, de tantas histórias. A gente vê os túmulos, as simbologias, as ‘fotinhas’ das pessoas e aí você começa a pensar nas histórias. Quem foram essas pessoas? O que aconteceu na vida delas?”, pondera.
O interesse de Paloma pelo lugar vem de berço e foi alimentado pelos inúmeros “causos” contados pela família dela, que possui uma relação bastante próxima com o Cemitério do Bonfim.
“Eu tenho uma relação afetiva com o Cemitério do Bonfim porque meu bisavô foi coveiro aqui. Minha avó, junto com seus irmãos, cresceram brincando entre as lápides do cemitério. Inclusive minha avó e meu bisavô estão enterrados aqui e desde sempre eu tive essa conexão”, explica ela.
A Loira do Bonfim
É Paloma que nos conta uma das lendas mais populares de BH e que certamente vive no imaginário de boa parte da população da cidade: a Loira do Bonfim. Essa é a história de uma moça loira, magra e bonita que pedia carona a taxistas da capital para ir “para casa”.
Quando os motoristas chegavam ao destino final, contudo, percebiam que estavam na porta do Cemitério do Bonfim. Ao olharem para o banco de trás, viam que a mulher misteriosa havia “sumido no mapa”.
“Em 2017 mais ou menos, eu comecei a escrever um romance chamado ‘Noiva Entre Túmulos’, que é ambientado no Cemitério do Bonfim. Ele é inspirado na lenda da Loira do Bonfim, que é a minha lenda urbana preferida”, conta Paloma.
No livro, Paloma se dedica a contar menos sobre a morte e mais sobre a vida da Loira do Bonfim. Apesar de ser ambientado na Belo Horizonte de 1940, o romance retrata temáticas bastante atuais e importantes de serem debatidas.
“No meu livro, a loira se chama Amélia e ela sofre diversas violências impostas a mulher. Essa é uma forma da gente associar tudo isso: a questão do cemitério, da lenda urbana, da violência contra mulher, do próprio horror em relação ao feminino. Esses tipos de violência acontecem, não é uma história da ficção, não é uma lenda. É o que acontece hoje com tantas mulheres”, disse ela.
‘Belo Horizonte é uma cidade cheia de lendas’
A historiadora Marcelina Almeida é outra apaixonada pelo Cemitério do Bonfim. Ela trabalha no local como guia há 11 anos e pesquisa sobre o espaço há quase 30. A professora é uma verdadeira guardiã das lendas e simbologias que fazem parte daquele lugar.
“Belo Horizonte é uma cidade cheia de lendas, né? E, volta e meia, a gente consegue recuperar alguma. Existem muitas versões sobre essa essa figura [Loira do Bonfim] que habita imaginária que do cemitério, mas a gente também pode correlacionar outras lendas que são contadas na cidade com personalidades que moram aqui [no cemitério]”, diz a professora.
A quadra 18 do cemitério, segundo Marcelina, é especialmente associada a outra figura mística de Belo Horizonte: a Maria Papuda. Por lá, estão enterrados políticos importantes que atuaram na cidade, como o ex-governador de Minas Gerais, Raul Soares, e o seu vice-governador, Olegário Maciel.
“As pessoas conhecem como Dona Maria Papuda uma mulher que habitava ali a região onde hoje é Praça da Liberdade. Ali se chamava Alto da Boa Vista e ela tinha uma casinha muito modesta nas imediações de onde foi construído o palácio [da liberdade]. Ela resistiu muito, porque não queria sair da casa dela. A lenda diz que ela rogou uma praga dizendo que ninguém ia ser feliz ali. Que as pessoas que morassem ali, morreriam”, explica a historiadora.
Coincidência ou não, ao menos dois governadores de Minas já morreram dentro do palácio. Um deles foi o próprio Raul Soares, governador entre 1922 e 1924, que sofreu um ataque cardíaco enquanto tomava banho.
“A gente vem hoje até trabalhando com essa ideia de trazer a Dona Maria de volta. Porque ela é uma mulher preta pobre que resiste. Para além do bócio, a gente quer resgatar a Dona Maria resistência”, analisou a historiadora.
Para além das lendas, Bonfim é o berço do metal brasileiro
É impossível caminhar pelas quadras do cemitério e não se imaginar em algum filme sombrio ou algum disco de metal. Foi pensando nisso que a banda mineira Sarcófago, em julho de 1987, lançou o álbum I.N.R.I. cuja capa mostra a banda reunida em frente a um dos mausoléus do Bonfim.
O lançamento do disco influenciou a cena do metal brasileiro e virou até inspiração para bandas europeias. Desde então, o local se tornou um verdadeiro ponto turístico para os metaleiros, como o mineiro Lucas Chaves, que agora é frequentador assíduo do Cemitério do Bonfim.
“Eu vim pela primeira vez por causa da Sarcófago e, desde então, me aprofundei na história do cemitério. Acabei descobrindo outras curiosidades sobre ele, sobre os artistas internacionais que fizeram várias esculturas aqui, políticos enterrados, pessoas famosas. O Bonfim é um museu aberto”, disse ele.
Se depois de conhecer todas essas histórias você também ficou curioso para conhecer esse verdadeiro ícone belo-horizontino, pegue a dica: O Cemitério do Bonfim é aberto para visitações públicas de segunda a segunda, das 7h às 17h. Nos vemos lá?




















