Normalmente nos reunimos em volta da comida. Ela é o motivo de estarmos ali. Podemos aturar com falsidade pessoas e situações, só para não nos privarmos de um prazer alimentício. Além de cumprir seus propósitos básicos mais necessários à condição humana, a comida conecta e desperta interesse como poucas coisas no mundo.
Por vezes a comida não é o motivo central da reunião, mas ela sempre está ali. Porque não existe nada mais certo de que a fome chegará. Por isso um bar sem comida não costuma durar muito. Após algumas cervejas o ronco estomacal é certo e, se você não puder petiscar absolutamente nada, vai precisar caçar seu rumo.
Recentemente postamos como foi nossa experiência no Bar do Careca, no Salgado Filho. Confira aqui a resenha. Nossa página poucas vezes rompeu fronteiras mineiras. Nosso público sempre esteve mais concentrado por aqui, mas essa resenha deu uma passeada pelo Brasil. Menos de 30% dos mais de 500 mil espectadores estão de fato em Minas. Recebemos então enxurradas de comentários como: “Esse vídeo é a mais pura descrição do porque a fama de minas gerais é tão boa”, “ai, queria ser adotado por BH” e até “O Bar do Careca só dá certo porque está em Minas Gerais”. Tento responder à pergunta do título, mas antes, um pouco do que é o Bar do Careca para quem não assistiu o vídeo:
Um pequeno estabelecimento de esquina, no bairro Salgado Filho, zona oeste de BH. Distante do que podemos chamar de “rota”, concentração ou zona boêmia. Conduzido por Edson Vander, o Careca, é daqueles bares que você parece ver sempre as mesmas pessoas. E é isso mesmo. De acordo com o próprio Edson, o público é familiar e assíduo, estão por ali todos os dias. O compromisso do Edson com sua clientela é abrir e servir cerveja gelada. A comida não é o principal motivo da reunião. Embora, ironicamente, ela também seja: A proposta do bar é dividir a responsa do rango com os clientes.

Na segunda feira, o Careca presenteia a galera com um kit churrasco, adquirido no açougue da esquina. O pessoal ali se vira para ajudar a fazer e todos se servem no balcão. Às sextas rola uma venda de espetinhos com valor em conta. E às terças, quartas e quintas, a decisão do que comer está do lado de cá do balcão: Os clientes se juntam, fazem uma vaquinha e compram coisas para que Edson prepare na chapa. Nesses dias ele não acende a churrasqueira, mas se propõe a grelhar as carnes na chapa caso a galera queira churrasquear.
Imagine só: Com a exceção da sexta feira, o rango no Bar do Careca não traz qualquer margem de lucro para o proprietário. Ele existe para que as pessoas continuem querendo reunir ali. A comida não é um diferencial do estabelecimento. A magia da coisa é contraditória e reside no fato de que, por não ser um diferencial, acaba sendo o diferencial.
O rango não traz lucro, mas também não traz prejuízo: Edson não precisa de estruturas complexas de cozinha, da mão de obra mais escassa do mercado atualmente e nem se preocupa em preparar, porcionar ou armazenar devidamente seus petiscos. A comida pode não ser uma vantagem, mas está longe de ser um problema.
E acho sim que coisas como essa só funcionam em Minas. O mineiro não parece se importar em ser parte da solução do seu próprio conforto. Tudo dá certo aqui: Auto serviço, levar sua panela para o restaurante colocar seu almoço, levar canga pra sentar na grama e até fazer vaquinha para ter o que comer no bar. Sempre achei que quem não é de Minas não entenderia esse comportamentos, mas o retorno desse vídeo me mostrou o contrário: Muitos não só entendem como se identificam com a gente.
Fica na R. Campo Formoso, 166 – Salgado Filho.
















