A Avenida Álvares Cabral é uma das tradicionais vias do núcleo histórico de Belo Horizonte e ainda abriga importantes exemplares da arquitetura das primeiras décadas da sua urbanização. Dois de seus quarteirões, entre as ruas Rio de Janeiro e dos Guajajaras, conservam várias casas antigas que, por sua importância arquitetônica e histórica, foram tombadas como patrimônio cultural. Três delas, construídas no início do século XX e concentradas num trecho de apenas 150 metros, guardam um valioso conjunto de memórias, que incluem laços familiares e a trajetória de importantes personagens da vida política da cidade.
A mais antiga delas é a casa que pertenceu a José Oswaldo de Araújo, que foi prefeito de Belo Horizonte entre 1938 e 1940, quando deixou o cargo, sendo sucedido por Juscelino Kubitschek. O imóvel foi projetado em estilo eclético de influência neoclássica pelo renomado arquiteto Edgard Nascentes Coelho, em 1903. Em 1917, o ilustre proprietário — que se destacou como poeta, professor, escritor, advogado, jornalista e político, além de membro da Academia Mineira de Letras — casou-se com Clélia Campos Continentino.

A arquitetura desse imóvel, situado no número 414 da avenida, revela várias características das residências ligadas à primeira fase do ecletismo de Belo Horizonte, entre elas a fachada alinhada ao passeio; o porão alto; a varanda lateral voltada para um jardim; e elementos em ferro fundido rendilhado, como portões, guarda-corpos, pilares e lambrequins.
Desde 1973, a casa é o local de trabalho do neto de José Oswaldo, Gustavo Penna, um dos mais importantes arquitetos em atividade no Brasil. O escritório de Gustavo Penna foi responsável por projetos de grande destaque, como a Escola Guignard, o novo Mineirão, o Parque Ecológico da Pampulha, o Anexo da Academia Mineira de Letras, o Expominas, o Museu de Congonhas e o Memorial Brumadinho, entre outros.
No quarteirão seguinte, construídas lado a lado, temos as outras duas casas de destaque nesse curto trecho da Avenida Álvares Cabral: os imóveis que pertenceram aos casais Balbino Ribeiro e Maria José Resende e Oscar Negrão de Lima e Evangelina Resende — ambos construídos em estilo eclético, porém com influências distintas.

O imóvel que abrigou a família Balbino Ribeiro e Maria José Resende, localizado no número 560 da avenida, foi projetado em 1927 pelo arquiteto Luiz Signorelli e possui dois pavimentos. A moradia foi delineada seguindo o estilo eclético de influência normanda, destacado pelo telhado inclinado e pelos relevos que imitam os engradamentos aparentes das casas medievais (enxaiméis).
Balbino era médico e, conforme o projeto original da casa, no andar de baixo funcionava o seu consultório, com sala de espera e laboratório. Desde 2014, esse imóvel abriga o Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte (MIS BH).

Por fim, destacamos o imóvel que fica na Avenida Álvares Cabral, n. 534, onde hoje funciona o restaurante Porks Casarão Lourdes. Essa casa pertenceu a Oscar Negrão de Lima e foi projetada em 1923, em estilo eclético de influência neoclássica. Embora não siga a estética normalmente observada nas obras do arquiteto Octaviano Lapertosa, o projeto é atribuído a ele. De qualquer forma, a obra é um extraordinário exemplar, que se destaca na paisagem por sua torre frontal, tendo uma grande janela termal na base. Lembrando que esse tipo de abertura, também conhecida como janela de Diocleciano, se assemelha às janelas das termas romanas, cuja verga é arqueada e o vão é subdividido em três partes.
Oscar Negrão de Lima foi casado com Evangelina Resende, cunhada de Balbino Ribeiro e residente na casa ao lado. Negrão de Lima foi catedrático de Medicina Legal da Universidade de Minas Gerais (UMG) e escritor memorialista. Seu irmão, Octacílio Negrão de Lima, foi prefeito de Belo Horizonte entre 1935 e 1938 e entre 1947 e 1951. Por sua proximidade com as famílias, é muito provável que tenha estado muitas vezes nas duas casas.











