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‘Pra gente adiar o fim do mundo’: Ciência ancestral e inteligência artificial são alternativas contra o El Niño em MG

30/09/2026 às 17h09 - Atualizado em 30/09/2026 às 17h15
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Preservação de sementes crioulas e agricultura regenerativa são alternativas às mudanças climáticas (Arquivo/CTA; Reprodução/Sistema Faemg Senar)

“A chuva que molha a terra / A chuva que molha a terra / Para germinar a semente / Para germinar a semente / Para nos dar o alimento / Para nos dar o alimento / A chuva que molha a terra… Salve as guardiãs de semente do nosso povo! Salve os saberes do povo Puri, das nossas matriarcas! Salve as crianças e a juventude que escreverão uma nova história”.

Em meio aos fenômenos climáticos que atingem Minas Gerais neste ano, o canto entoado por Helenice Maria Gomes (Xapuko Txori Puri), liderança indígena da Zona da Mata mineira, de 52 anos, agradece pela água que infiltra no solo e ajuda na germinação da horta da comunidade em Palmital, na zona rural de Viçosa. Apesar de grandes volumes de chuva terem atingido a região em fevereiro deste ano, a guardiã de sementes garante que a preservação de variedades tradicionais, conhecidas como crioulas, é uma opção para garantir a segurança e a soberania alimentar frente às mudanças no clima.

@portalbhaz PREJUÍZOS | Uma nova chuva de granizo provocou estragos em áreas rurais de São João da Mata, no Sul de Minas, na tarde dessa segunda-feira (28). Segundo a Secretaria de Agricultura, o fenômeno começou por volta das 14h28 e durou cerca de 20 minutos. As regiões mais atingidas foram Pico Agudo, Dourado da Ponte, Paredão e Serra dos Coutinhos. A ocorrência afetou principalmente plantações de café, que estão no período de formação da próxima safra. O granizo também foi registrado em comunidades rurais de Campestre, principalmente nos bairro Capituvas e Caxambu. O problema já havia sido registrado em outra oportunidade neste mês, quando uma chuva de granizo atingiu plantações de café em Muzambinho, Nova Resende e Guaxupé, além de áreas de Caconde, no estado de São Paulo. Na ocasião, no último dia 20, produtores relataram danos em folhas, ramos e plantas novas. Segundo o especialista em café Michell Diniz, o período em que as lavouras estão sendo atingidas aumenta a preocupação porque as plantas começam a entrar na fase de formação da próxima safra, com abertura de flores e desenvolvimento dos primeiros frutos. O granizo pode derrubar flores e botões florais que dariam origem aos frutos a serem colhidos a partir de junho do ano que vem. Em lavouras novas, os danos podem atingir folhas e ramos e comprometer o desenvolvimento das plantas. Além da perda imediata, os ferimentos provocados pelo granizo podem aumentar a possibilidade de doenças nas plantas. Por isso, nas áreas atingidas, os produtores precisam adotar medidas de proteção para reduzir os impactos e evitar o avanço de fungos nas partes lesionadas. O excesso de chuva também tem dificultado o recolhimento do café que já caiu no chão durante a colheita deste ano. 📲 Acesse bhaz.com.br para ler a matéria completa. ✏️: Fábio Galdino 📸: Reprodução/Redes Sociais #Chuva #Granizo #SulDeMinas ♬ so original – Portal BHAZ

Sob domínio do El Niño, impulsionado pelo aquecimento atípico das águas do Oceano Pacífico Equatorial, a agropecuária mineira vem enfrentando episódios climáticos cada vez mais intensos. Neste mês, tempestades de granizo em Muzambinho, Nova Resende e Guaxupé, no Sul de Minas, prejudicaram a formação da próxima safra de café. Municípios da região Centro-Oeste e do Triângulo Mineiro também tiveram a paisagem transformada em verdadeiros tapetes de gelo.

Já em Janaúba, no Norte de Minas, a gravidade da estiagem levou o chefe do Executivo a decretar situação de emergência econômica no setor agropecuário por 180 dias. Segundo relatório da Defesa Civil do município, rios e açudes secaram e poços artesianos perderam a vazão, comprometendo os projetos de irrigação do Gorutuba e do Jaíba. Além disso, o texto menciona que o El Niño e a La Niña causaram “prejuízos à produção, à produtividade, à qualidade dos produtos e à renda dos produtores rurais”.

Além da ciência ancestral, que permanece viva ao longo de gerações de pequenos produtores no interior de Minas, o campo também passa por uma revolução digital para enfrentar fenômenos climáticos cada vez mais recorrentes. Atualmente, as diferentes adaptações às mudanças repentinas do clima são impulsionadas por startups de visão computacional, algoritmos de inteligência artificial e pela agricultura regenerativa.

Para a analista de agronegócio do Sistema Faemg/Senar, Mariana Marota, a atual realidade do campo exige respostas práticas e gestão contínua de riscos. “A gente sempre fala que a plantação é uma empresa a céu aberto, porque o produtor está sujeito ao que o clima proporcionar para ele”, compara. Ela também pontua que a variação térmica e a escassez de água aumentam drasticamente a pressão fitossanitária nas lavouras, exigindo maior monitoramento contra pragas e doenças. Apesar dos desafios, a especialista destaca que o setor está preparado para ‘driblar’ as alterações no clima.

Algoritmos no curral

De acordo com boletim do Painel El Niño, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em agosto deste ano, a seca já atinge 89% da região Sudeste, com 2% da área classificada na categoria grave. Com a estiagem, o relatório alerta que as temperaturas tendem a permanecer acima da média, o que pode provocar a perda de umidade do solo e dificultar as culturas de verão em grande parte de Minas Gerais. Essas condições também afetam a pecuária, causando a degradação das pastagens e a consequente perda de peso do rebanho.

(Reprodução/Sistema Faemg/Senar)

É nesse cenário que startups mineiras do agronegócio, conhecidas como agtechs, desenvolvem ferramentas digitais para antecipar cenários de crise e adaptar a produção. Na pecuária de corte e de leite, a Tech FAY, acelerada pelo Fiemg Labs e desenvolvida em parceria com o Senai, criou uma plataforma baseada em visão computacional e inteligência artificial para identificar as necessidades do rebanho individualmente.

Em conversa com o BHAZ, o engenheiro Adolfo Oviedo, de 66 anos, responsável pelo empreendimento, contou que a ideia surgiu depois que ouviu as dores de cerca de 15 pecuaristas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. “Eles nos disseram: ‘existem muitas soluções individuais para abordar o desempenho da pecuária, porém nenhuma é integrada'”, relembra. De acordo com ele, a plataforma une vetores de nutrição, pastagem e sanidade animal com a previsibilidade do clima.

Arquivo Pessoal/Adolfo Oviedo
“Se os modelos indicam seca prolongada por causa do El Niño, a IA indica o momento exato de ajustar a irrigação, aplicar nutrientes na pastagem ou fazer a transição pontual do manejo extensivo ao pasto para o confinamento intensivo com ração”.

Segundo o engenheiro, a plataforma faz muito mais que “prever o El Niño”, ela direciona as ações que o pequeno produtor deve tomar considerando o contexto climático em que ele está inserido. A inteligência artificial, então, analisa “como o clima associado ao El Niño altera o peso, o comportamento, o consumo de água, a disponibilidade de pastagem e o risco sanitário de cada lote”, detalha.

De acordo com Adolfo, o modelo de inteligência também auxilia na tomada de decisão considerando as previsões climáticas. Um exemplo citado por ele é a escolha do tipo de pecuária: extensiva, criando o gado no pasto, ou intensiva, em locais confinados com uso de ração. Conforme o engenheiro, o sistema já está em funcionamento em uma fazenda focada na criação de gado de melhoramento genético, em Santa Rita do Jacutinga, na Zona da Mata mineira. Além disso, outros dez pequenos e médios pecuaristas do Rio de Janeiro também utilizam a plataforma.

Waze do campo

No segmento de análise de risco no campo, a startup ESGscan, com sede em BH, desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial que utiliza dados abertos do Inpe, de satélites e portais públicos. O software traduz dados socioambientais e climáticos para tomada de decisão em instituições financeiras e indústrias do agronegócio.

“O que a gente faz é juntar tudo num formato inteligível para que as pessoas possam tomar decisões baseadas em dados. A gente funciona como uma espécie de ‘Waze’ do campo, onde a pessoa utiliza o caminho para entender os problemas da rota”, compara Junio Magela, de 42 anos, CEO e cofundador da ESGscan.

Junio Magela destaca que já existem modelos matemáticos que mapeiam a queda na produtividade do café e leite provocadas por ondas de calor em anos de El Niño. No entanto, segundo ele, o desafio é evitar que o produtor rural seja pego de surpresa na hora de se capitalizar.

Arquivo Pessoal/Junio Magela
“O produtor muitas vezes não toma a decisão antecipada, ele toma um susto. O que a gente quer é que as pessoas já enxerguem essas projeções como uma realidade previsível para mudarem essa perspectiva”.

Na prática, ao usar inteligência artificial para analisar dados socioambientais, o sistema permite que produtores, bancos e indústrias consigam ler os cenários do El Niño como uma realidade previsível. Com isso, é possível ajustar o manejo, calcular o volume de investimento e negociar o crédito rural antes que as perdas aconteçam.

Além de agroindústrias, a tecnologia da ESGscan é utilizada pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para analisar os riscos climáticos e socioambientais antes de concederem crédito aos produtores. Empresas também pode usar o software para acompanhar as boas práticas dos produtores.

Imagem ilustrativa (Reprodução/Sistema Faemg, Senar)

“Suponhamos, uma empresa que vai comprar café, ela pode monitorar o produtor a partir do nosso dado. Ela vai conseguir enxergar se aquele produtor de café está cumprindo as leis, se ele está desmatando, se ele está em uma área com um risco climático um pouco mais severo ou não”, explica Junio.

Manejo regenerativo no cafezal

No Prognóstico de Primavera, o Inmet e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) alertaram para uma atuação do El Niño “muito forte”, com previsão de excesso de chuvas na região Centro-Sul de Minas Gerais. Segundo os órgãos, as condições podem favorecer plantações de soja e milho. Contudo, para a produção de café o cenário é sinônimo de prejuízo.

Na Fazenda dos Tachos, em Varginha, no Sul de Minas Gerais, o enfrentamento aos temporais repentinos e à longa estiagem acontece de forma mais simples, sem o uso de tecnologia.

Café secando na Fazenda dos Tachos (Reprodução/Redes Sociais)

De acordo com o cafeicultor Thiago Rezende, de 45 anos, o segredo está em aplicar técnicas de agricultura regenerativa na lavoura, com manejo que envolve o cultivo de plantas de cobertura entre os pés de café, como crotalária, girassol e feijão. No entanto, segundo o produtor, “não é só plantar mato, é necessário fazer um micro ambiente, o solo, ter vida”, destaca.

Conforme explicou o cafeicultor, esse tipo de plantação reduz a compactação do solo, permitindo que as raízes do café se desenvolvam sem dificuldades. Além disso, a otimização no manejo do solo também ajuda na retenção de umidade. “O mínimo de água que cair, eu tento deixar dentro do nosso solo”, contou. No fim, o cafezal se transforma em um pequeno ecossistema. “Ao invés de comprar esterco de galinha ou de gado de fora, a própria lavoura produz sua matéria orgânica, como se fosse uma mata natural”, comenta.

Outro benefício da agricultura regenerativa é a proteção da qualidade dos grãos na colheita. Segundo Thiago, quando tempestades atípicas ocorrem na região, os grãos que caem da planta não entram em contato direto com a terra úmida, podendo ser comercializados posteriormente.

“Se a gente tem previsão de muitas chuvas no período de colheita por causa do El Niño, eu corro menos risco de perder esse café por germinação ou baixa qualidade”, explicou. “O café cai em cima das folhas e fica sem contato direto com o solo úmido. Não vai ser um café ‘top’ de qualidade, mas nós não vamos perder tanto quanto o café caindo direto no chão”, completa.

Além de garantir conforto térmico e hídrico às lavouras, o produtor destacou que o manejo regenerativo também proporciona economia de insumos e potencializa a produção de cafés especiais em microlotes. Thiago explicou que o uso de plantas de cobertura contribui para a retenção de nutrientes essenciais no solo, como nitrogênio, fósforo e potássio, influenciando diretamente as características sensoriais dos grãos. Segundo ele, essa estratégia reduz significativamente os custos com adubação e diminui a dependência de fertilizantes sintéticos.

Arquivo pessoal/Thiago Rezende
“A gente trata do solo para ter uma planta sadia. O mato sempre está bonito na natureza porque a própria mata se aduba. É esse processo que a gente tem que fazer aqui: aproveitar todos os nutrientes disponíveis no nosso solo para ter o melhor resultado na florada e no pegamento dos frutos”.

Conforme explica Mariana Marota, tais práticas como plantio direto, cobertura de solo, consórcio de culturas e reserva de água são fundamentais para enfrentar os choques térmicos e hídricos provocados pelo El Niño. “Esses sistemas de produção auxiliam o produtor nesses momentos. É uma construção de adaptação contínua para transformar a gestão da água e da lavoura”, afirma.

Arroz verde contra a escassez hídrica

Se o café é prejudicado pelo excesso de chuvas, o cultivo de arroz também enfrenta dificuldades em meio às secas. Há mais de uma década, o programa Melhor Arroz, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), vem desenvolvendo o chamado “arroz verde”, plantado no sistema de sequeiro ou terras altas.

Divulgação/UFLA
“O arroz inundado consome muita água e também é um dos grandes responsáveis pela emissão de metano, um gás relacionado ao efeito estufa. O arroz de terras altas surge como uma alternativa mais sustentável”, explica Flávia Botelho, coordenadora do projeto.

Com a ameaça de perdas de safra por eventos climáticos extremos, o programa da Ufla, em conjunto com a Embrapa e a Epamig, busca desenvolver “genótipos produtivos, com qualidade de grão, precoces e tolerantes à seca”, destaca Flávia. A equipe também utiliza técnicas de edição gênica em parceria com a Universidade de Arkansas para modificar a resposta dos genes à seca.

De acordo com a Ufla, a proposta é que os produtores possam diversificar as formas de plantio, incluindo o arroz no mesmo sistema agrícola empregado em culturas de milho e soja. Segundo a instituição, essa diversificação também reduz problemas relacionados ao uso dos mesmos herbicidas, além de contribuir para o controle de plantas daninhas resistentes. “O arroz entra como mais uma opção para o produtor e ajuda a manter a sustentabilidade do sistema de produção”, afirma a pesquisadora.

Ciência ancestral “pra gente adiar o fim do mundo”

Em um momento em que a agropecuária mineira busca soluções digitais para enfrentar as mudanças climáticas, o saber ancestral mantido pelas mulheres guardiãs do povo Puri revela que a verdadeira inovação pode estar na conservação e seleção de sementes crioulas. Diante dos eventos climáticos extremos trazidos pelo El Niño, a preservação dessas variedades tradicionais, conhecidas também como sementes da paixão e de paiol, ganha relevância no debate sobre resiliência do campo e soberania alimentar.

A guardiã Helenice Puri contou que as sementes de milho, feijão, abóbora e mamona, entre outros alimentos, são selecionadas e armazenadas usando uma técnica milenar mantida pelos povos originários. “Nós guardamos a semente dentro de um vidro com cinza de madeira e terra de formiga para conservar para o próximo ano. É a mesma técnica dos nossos ancestrais”, detalhou. Segundo ela, esse método preserva os grãos por até um ano sem o uso de defensivos químicos.

Horta de Helenice no Palmital, zona rural de Viçosa (Imagem cedida ao BHAZ)
“A resistência da semente crioula é muito maior para suportar essas mudanças climáticas. Conservar a semente e conservar as guardiãs é não deixar nossa cultura morrer”, defende Helenice.

No entanto, ela destacou que não basta só selecionar as variedades mais resistentes. Da mesma forma que ocorre na Fazenda dos Tachos, Helenice disse que também coloca em prática a agricultura regenerativa. “É claro que a gente trata o solo. Tem que fazer a cobertura com capim seco e folhas secas para a planta ganhar força, o que já é da nossa cultura”, comenta.

Além disso, a liderança indígena contou que o plantio é feito integrando diversas espécies, como diferentes tipos de couve no mesmo canteiro. “Meus avós falavam que [plantar] uma qualidade só dá muita doença. Quando você mistura, ela ganha uma resistência”, explicou. Helenice também disse que cultiva girassóis e ‘margaridões’ “para chamar as abelhas, porque é importante para a polinização”.

Para o povo Puri, as sementes crioulas são sinônimo de “autonomia, liberdade e ancestralidade alimentar”. Por isso, segundo Helenice, preservar esses modos de cultivo, bem como as guardiãs dessas técnicas, é fundamental diante da crise ecológica global.

Arquivo Pessoal/Helenice Puri
“Nós podemos dizer que a semente crioula faz parte dessa construção pra gente adiar o fim do mundo, porque semente crioula é sustentabilidade. A ancestralidade e a identidade são formas da gente driblar o sistema, ir na contramão de querer destruir tudo. Construir sem destruir”.

E para que a ciência ancestral permaneça viva na Zona da Mata mineira, as guardiãs e os guardiões se reúnem em momentos de celebração e troca, como o Kanduna Puri, realizado anualmente em parceria com a Prefeitura de Viçosa, e a Troca de Saberes, promovida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) durante a tradicional Semana do Fazendeiro.

Helenice no 2º Kanduna Puri (Divulgação/Prefeitura de Viçosa)
“Todo ano a gente trabalha isso com as crianças e os jovens: a questão da semente, da nossa alimentação, de onde vem o que a gente come. Acho isso fundamental para deixar essa memória e dar continuidade aos saberes”, comenta Helenice.

Contudo, Helenice destacou que a preservação dessa biodiversidade está intimamente ligada “à luta pela terra e por uma distribuição justa do território”. “Não adianta também ter a semente crioula e não ter solo, onde você vai plantar? Se a semente não me dá onde brotar, o que adianta guardar? A semente precisa cair em solo fértil, senão ela não produz”, refletiu a liderança indígena.

Mais de 70 guardiões

Essa ciência ancestral dialoga diretamente com o trabalho socioambiental desenvolvido pelo Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM). A engenheira agrônoma, pesquisadora e técnica do Programa Sociobiodiversidade, Luana Dayrell, de 38 anos, contou que o local estruturou o mapeamento e reconhecimento direto dos guardiões da região, identificando inicialmente 50 famílias. Atualmente, o trabalho acompanha cerca de 70 guardiões e guardiãs, embora o número real seja muito maior.

Para a pesquisadora, as sementes crioulas vão além da preservação do material genético: são patrimônios bioculturais que carregam a história, o conhecimento e a identidade de cada família.

Arquivo Pessoal/Luana Dayrell
“Elas levam conhecimento, são adaptadas àquele local e carregam os próprios guardiões. Você só consegue ter a semente por causa daquele guardião que sabe como plantar, cuidar, colher e multiplicar”, comentou.

Ela citou como exemplo um casal que é conhecido na região por guardar a variedade do milho palha roxa há cerca de 40 anos. “Isso traz o reconhecimento da família e os aspectos culturais do território”, completou.

Diante das incertezas trazidas pelo El Niño, pelas secas severas e tempestades repentinas, Luana ressaltou que a agrobiodiversidade mantida pelos povos originários, quilombolas e agricultores familiares é uma reserva biológica fundamental para o futuro agrícola. E vão muito além de sementes, como o feijão, a mandioca e as raças de animais crioulas.

Diferentes tipos de milhos crioulos (Acervo/CTA)
“Essas variedades locais são importantes porque são bancos genéticos de possibilidades para a gente ter plantas adaptadas num processo de transição climática”, explica Luana.

Para resguardar esse patrimônio, além de catalogar os guardiões, o CTA-ZM realiza testes de transgenia nas sementes e guarda lotes de segurança em bancos de germoplasma em universidades parceiras, como a UFV e a Universidade Federal de Juiz de Fora, além da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Segundo Luana, a iniciativa garante que os produtores consigam resgatar o material mesmo diante de perdas. “O pessoal nunca planta tudo. Sempre deixa um litro em casa reservado, mas algumas variedades se perdem. Então, é muito importante o trabalho desses bancos conectados com os agricultores para proteção do material genético”.

Apesar da importância estratégica dos guardiões locais, Luana enfatizou a necessidade de apoio institucional, recursos para extensão e políticas públicas voltadas aos agricultores familiares. “Existe uma frase que a gente usa muito: ‘Aqueles que guardam precisam ser guardados’. As famílias que guardam as sementes precisam ser protegidas contra a contaminação transgênica, a perda de hábitos alimentares e a falta de mão de obra no campo. É preciso apoio, principalmente institucional”, defende.

Proteção das sementes crioulas em Minas Gerais

As variedades crioulas foram oficialmente reconhecidas em 2003, por meio da Lei Federal nº 10.711, que dispõe sobre Sistema Nacional de Sementes e Mudas. O texto garante aos agricultores familiares, assentados da reforma agrária e indígenas o direito de guardar, multiplicar, trocar e vender sementes tradicionais.

Em Minas Gerais, o debate ganhou força com a Política Estadual de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAAFamiliar), alterada em 2021 para incentivar a preservação de plantas e sementes nativas nos territórios mineiros. Naquele mesmo ano, foi instituída a Política Estadual de Sementes de Cultivares e Mudas Crioulas (PL 3.053/2021), estabelecendo o apoio a Casas Comunitárias de Sementes, a exigência de pesquisas para conter a contaminação por transgênicos e a destinação progressiva de 30% a 50% das verbas estaduais de compra de sementes para variedades crioulas.

A preservação desse modo de cultivo vai muito além da Zona da Mata mineira. No Alto Jequitinhonha, o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV) e a Cáritas catalogaram, em 2019, pelo menos 132 espécies de sementes crioulas. As variedades são mantidas por 28 famílias nos municípios de Turmalina, Veredinha e Minas Novas. Entre os materiais catalogados estão diferentes variedades de milho, feijão, mandioca e hortaliças.

No Norte do estado, a Rede de Famílias Guardiãs da Agrobiodiversidade realiza um trabalho de resgate, avaliação, seleção e armazenamento de sementes crioulas com apoio do Centro de Agricultura Alternativa (CAA-NM) desde 1990. Já a Casa de Sementes “Mãe Terra”, instalada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS), mantém cerca de 380 variedades catalogadas em acervo virtual.

Tomates colhidos da horta de Helenice (Arquivo Pessoal)
“Os bancos de sementes são muito necessários para que todo mundo possa comer uma comida sem veneno e ter essa autonomia [alimentar]”, finaliza Helenice.

Vinícius Sampaio

Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa. Foi repórter da Fundação Rádio e Televisão Educativa e Cultural de Viçosa (Fratevi). Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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Vinícius Sampaio

Email: vinicius.sampaio@bhaz.com.br

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