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Pessoas terapêuticas: por que algumas presenças fazem tão bem? 

28/09/2026 às 12h38
Pessoas terapêuticas: por que algumas presenças fazem tão bem? 
Foto gerada por IA

Você já teve aquela sensação de que um programa simples se transformou em uma memória que vai ficar para sempre? Há alguns dias, fui ao cinema assistir ao filme Minha Melhor Amiga, estrelado pelas maravilhosas Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, acompanhada, justamente, da minha melhor amiga. E talvez o mais bonito daquela experiência não tenha acontecido apenas na tela.

Nós nos identificamos com a história, com os personagens e com questões envolvendo maternidade, divórcio, vínculos familiares e, principalmente, amizade. Dividimos a pipoca, o riso e o choro. Comentamos cenas, reconhecemos experiências e compartilhamos muito mais do que um filme.

Saí do cinema pensando em uma coisa simples, mas que às vezes esquecemos: ter com quem viver a vida também faz parte de viver bem.

Quando falamos em saúde mental, costumamos pensar em terapia, ansiedade, depressão, autoestima, autocuidado e emoções. Tudo isso é importante. Mas saúde mental não acontece isoladamente dentro de cada pessoa. Também somos constituídos pelos vínculos que estabelecemos, pelos lugares onde vivemos e pelas experiências que compartilhamos.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) amplia essa compreensão ao falar sobre qualidade de vida. Para a OMS, qualidade de vida envolve a percepção que cada pessoa tem de sua posição na vida, considerando sua cultura, seus valores, seus objetivos, expectativas e preocupações. Essa percepção envolve diferentes dimensões, entre elas o bem-estar físico e psicológico, as relações sociais e as condições do ambiente em que se vive.

E vínculos de amizade atravessam todas elas.

No aspecto físico, qualidade de vida envolve energia, descanso, sono e a possibilidade de realizar atividades cotidianas. Isso nos lembra que cuidar da saúde também significa ter espaço para lazer, movimento e experiências prazerosas. Foi o que aconteceu naquela tarde de cinema: não estávamos ali para produzir ou cumprir uma tarefa. Estávamos simplesmente vivendo um momento juntas.

No aspecto psicológico, entram sentimentos, autoestima, pensamentos e outras experiências que influenciam nossa relação conosco e com o mundo. E quantas vezes uma amizade não é justamente o lugar onde conseguimos rir, chorar e falar sobre aquilo que não conseguimos dizer para qualquer pessoa?

Ter alguém que conhece nossa história e, ainda assim, continua escolhendo estar por perto pode ser uma experiência profundamente significativa.

É, porém, nas relações sociais que a importância da amizade aparece de maneira mais evidente. Ter muitos amigos não é sinônimo de ter bons vínculos. Não existe um número ideal de pessoas capaz de garantir qualidade de vida. Às vezes, temos muitos conhecidos e poucas pessoas com quem realmente podemos contar.

Uma amizade significativa pode sobreviver à distância, às mudanças de rotina e aos períodos de silêncio. O que importa é a possibilidade de existir confiança, reciprocidade, pertencimento e apoio. É ter alguém para quem podemos mandar uma mensagem dizendo: “preciso conversar”; alguém que celebra nossas conquistas sem transformá-las em competição e que permanece por perto quando a vida não está bonita.

Além disso, a qualidade de vida também depende das condições concretas em que vivemos. Segurança, moradia, recursos financeiros, acesso à saúde, oportunidades de lazer e condições do ambiente também fazem parte dessa equação.

Por isso, não basta dizer a alguém “cuide mais de si” quando essa pessoa não tem tempo para descansar, enfrenta dificuldades financeiras ou não consegue acessar os cuidados de que necessita. Saúde mental e qualidade de vida também são atravessadas pelo contexto.

Para mais, falar sobre amizade não significa romantizar os vínculos.

Amizades também podem terminar, decepcionar, gerar conflitos e causar sofrimento. Nem toda relação é saudável simplesmente porque é uma amizade. Ter vínculos de qualidade não significa estar cercado de pessoas o tempo inteiro, mas poder construir relações nas quais exista espaço para respeito, liberdade, cuidado e reciprocidade.

Talvez seja por isso que experiências aparentemente pequenas ganhem tanta importância quando olhamos para trás: uma conversa demorada, um café, uma caminhada, uma viagem, uma mensagem no momento certo ou uma sessão de cinema.

São momentos que nem sempre aparecem em uma agenda de autocuidado, mas que também podem sustentar uma vida com sentido.

Naquela tarde, enquanto dividíamos a pipoca, o riso e o choro, talvez estivéssemos fazendo algo muito mais importante do que simplesmente assistir a um filme.

Estávamos cuidando do vínculo.

E vínculos também precisam de tempo, presença e encontros. Precisam ser cultivados.

Por isso, talvez valha a pena perguntar: como estão as minhas relações? Tenho alguém com quem posso contar? Tenho permitido que as pessoas estejam próximas? Tenho cultivado as amizades que considero importantes? Tenho conseguido pedir ajuda quando preciso?

Porque cuidar da saúde mental não significa apenas olhar para dentro. Às vezes, cuidar de si também significa olhar para os lados e perceber quem está caminhando com você.

E algumas pessoas parecem ter um lugar ainda mais especial nessa caminhada. São aquelas que nos fazem bem, com quem conseguimos ser nós mesmos, que nos escutam sem julgamento e que estão presentes tanto nas nossas conquistas quanto nos momentos difíceis.

São as chamadas pessoas terapêuticas.

Não porque sejam terapeutas ou tenham a função de resolver nossos problemas, mas porque determinados vínculos podem oferecer acolhimento, segurança, pertencimento e esperança. Uma conversa com alguém assim pode não solucionar um problema, mas pode nos ajudar a enxergá-lo de outra maneira. Um abraço pode não eliminar a dor, mas pode fazer com que ela seja atravessada com menos solidão.

Uma amizade não substitui o cuidado profissional, mas pode oferecer um contexto de apoio que favoreça o enfrentamento das dificuldades e sustente os efeitos de um processo psicoterapêutico.

Isso também não significa transformar amigos, parceiros ou familiares em terapeutas. Cada relação tem seus limites e existem sofrimentos que precisam de acompanhamento especializado.

Se você está enfrentando sofrimento intenso, sintomas persistentes ou dificuldades que estão comprometendo sua vida, seus relacionamentos, seu trabalho ou sua capacidade de cuidar de si, procure ajuda profissional. Os vínculos são importantes, mas não precisam carregar sozinhos aquilo que está sendo difícil demais.

Não precisamos ter uma vida sem problemas para ter qualidade de vida. Nem precisamos estar felizes o tempo inteiro.

Qualidade de vida também tem a ver com atravessar os dias difíceis sabendo que existe alguém com quem podemos dividir o peso e também alguém com quem podemos dividir a pipoca.

No fim, algumas das melhores coisas da vida não acontecem sozinhas. Acontecem entre nós.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265
Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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