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Violência nas escolas é problema grave, mas aparece pouco nos planos dos candidatos ao governo de MG

29/09/2026 às 16h59
Violência nas escolas é preocupante, mas aparece pouco nos planos dos candidatos ao governo de MG
Violência nas escolas aparece pouco nos planos dos candidatos ao governo de MG. (Foto ilustrativa feita com auxílio da IA)

Dia sim, dia não, recebemos notícias preocupantes vindas das escolas brasileiras. Só em 2026, já li e acessei registros sobre vários casos: brigas entre colegas, uma professora chorando ao encontrar um caco de vidro no copo de água, estudantes agredindo e sendo agredidos por causa do uso do celular, e uma diretora coagida por policiais por causa de uma atividade pedagógica com conteúdo religioso. Ou seja, a primeira pergunta que me ocorre é por que a violência nas escolas está crescendo?

Penso que, se eu fosse hoje a uma escola e fizesse essa pergunta a professoras(es), diretoras(es), coordenadoras(es) pedagógicas(os), pais, mães, outros profissionais da escola e, claro, aos estudantes, teria uma lista inicial com os seguintes tópicos:

  • Adultos, crianças, adolescentes e jovens sofrem com muitos problemas, como a violência fora da escola e a fragilidade da saúde mental. Apesar desse diagnóstico, professores e gestão escolar não encontram suporte para encaminhar essas dificuldades.
  • Há professores que apontam certo desinteresse e falta de compromisso dos estudantes. Segundo os professores, para os jovens, investir em educação deixou de parecer uma boa opção para garantir um futuro tranquilo.
  • Por outro lado, há docentes que se queixam do oposto: dizem que os colegas que reclamam não se envolvem na construção de uma escola mais inovadora, capaz de se aproximar das demandas dos estudantes.
  • As famílias também parecem ocupar um lugar novo. A escola se queixa da ausência dos responsáveis, ou de que eles não aceitam quando os filhos são advertidos por problemas de convivência ou desrespeito às normas. Há também muitos casos de pais ou responsáveis que apontam uma postura leniente da escola, que invisibiliza questões como racismo e homofobia.
  • O salário dos professores não é alto o suficiente para o número de tarefas que lhes são atribuídas. A pressão por resultados em avaliações externas e outros compromissos administrativos geram mais demandas. É uma tensão que os cursos de formação de professores não ensinam a administrar.
  • A gestão da sala de aula é outro desafio. Turmas heterogêneas, escolas com desafios estruturais e equipes pedagógicas nem sempre no tamanho ideal fazem com que questões disciplinares se transformem em problemas graves, pois falta a intervenção certa no momento adequado.

Se o problema é grande, ele demanda uma grande intervenção. No Brasil, a maior parte dos estudantes matriculados desde a educação infantil até o ensino médio frequenta escolas públicas, em sua maioria estaduais e municipais. Por isso, entendo que esse é um desafio de política pública, que deveria ser contemplado por nossos candidatos a cargos no Executivo. Estamos em Minas Gerais, e é do estado a responsabilidade constitucional pela oferta e pela gestão dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. Vamos conversar, então, sobre o que nossos candidatos a governador estão propondo sobre a violência nas escolas.

Antes de prosseguir, um pouco da minha história com os planos de governo

Sempre gostei muito de eleições. Quando criança, fazia coleção de “santinhos” dos candidatos e frequentava showmícios com meus pais. No Ensino Médio, já me preparando para votar na minha primeira eleição, acompanhei ativamente o horário eleitoral gratuito da campanha presidencial de 1998. Vivíamos um momento de otimismo no Brasil, com o Plano Real consolidado e o presidente Fernando Henrique buscando a reeleição. Ainda assim, questionávamos o tamanho da dívida externa, e eu já sabia bem o que significava a sigla FMI. Um amigo me contou que, se a gente ligasse para a campanha do candidato à reeleição, poderíamos pedir uma cópia do plano de governo.

Achei bem curiosa essa história de receber em casa, de graça, alguma coisa só por fazer uma ligação. Liguei e chegou: um livro de capa verde, com a foto do candidato e, ao fundo, uma bandeira do Brasil. Era um livro vistoso, com muitas páginas. Claro que não li tudo, e entendi bem pouco do que li. Mas até hoje guardo esse documento em um armário na casa da minha mãe.

Fato é que, ao pensar no conteúdo desta coluna, às vésperas de novas eleições, decidi buscar os planos de governo dos candidatos ao governo do estado. Queria saber o que eles propõem para resolver o que temos chamado de violência nas escolas. Minha surpresa foi que, qualquer que seja o nosso futuro governador, ele fala muito pouco sobre isso. Na verdade, em geral, fala pouco sobre quase tudo.

Os planos

Com exceção do candidato Alexandre Kalil, não encontramos muitos detalhes nos planos de governo dos cinco candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto (sempre sonhei dizer isso, como mediadora dos debates imaginários que eu conduzia quando era aquela adolescente apaixonada por política). Cleitinho, Patrus Ananias, Gabriel Azevedo e Mateus Simões apresentam documentos enxutos, organizados em tópicos, com descrições gerais sobre suas principais intenções. Essa parece ser também uma tendência descrita na campanha presidencial. Não faz muito tempo, ouvi um candidato à presidência afirmar que não dá detalhes sobre sua possível política econômica para que ela não seja copiada pelos adversários.

Mesmo surpresa com o número de páginas dos documentos, segui buscando informação sobre a violência em escolas. Descobri o seguinte: na educação, o foco passa longe da segurança e do bem-estar de adultos, crianças e adolescentes em unidades de ensino. Há muitas referências ao ensino médio e à expectativa de, nos próximos quatro anos, melhorar os indicadores de evasão e aprendizado, além de aumentar o número de estudantes em tempo integral.

O líder nas pesquisas, Cleitinho, propõe o videomonitoramento das escolas, que é uma proposta pouco inovadora. Em 2023, o estado dava conta de que mais de 3.000 escolas estaduais já tinham sistema de videomonitoramento. Talvez o dilema esteja na discussão sobre a segurança das imagens de crianças e adolescentes e o respeito à Lei Geral de Proteção de Dados. Porém, câmeras de segurança estão por toda parte e não significam, necessariamente, que não há violência. Prova disso é que muitos dos principais ataques a escolas foram registrados.

Sobre a relação entre escolas, segurança e convivência, o atual governador, Mateus Simões, é apenas silêncio. Considerando o que diz seu plano, ele parece ter abandonado o Programa de Convivência Democrática, principal política da área, em curso desde 2018 e bastante mobilizada em 2023, após a onda de ataques a escolas no país. Apesar disso, o programa não está entre as prioridades de sua carta de intenções, que apenas cita que, na gestão, houve programas de convivência escolar e mediação de conflitos. Será que podemos assumir que essas iniciativas serão abandonadas em uma nova gestão, em caso de vitória? Chama a atenção também a ausência do tema da expansão das escolas cívico-militares no estado. Talvez ele tenha evitado esse assunto polêmico, pouco popular em período de campanha. Afinal, o processo de militarização de escolas estaduais é alvo de disputa judicial entre o estado e o Tribunal de Contas do Estado, além da resistência de escolas, sindicatos e de parte da sociedade civil.

Se esse tema é uma lacuna no plano de Mateus Simões, ele aparece na carta de intenções de Patrus Ananias como uma promessa de encerramento do programa de militarização de escolas estaduais, no que ele chama de reestatização. Patrus e Kalil compartilham proposta semelhante: a construção de um modelo intersetorial de convivência em escolas, articulando a educação com áreas como saúde, assistência social e a própria segurança. A mesma ênfase na prevenção aparece no plano de Gabriel Azevedo, que traz o acompanhamento psicossocial dos atores escolares como diferencial.

Apesar de serem mais razoáveis na apresentação das propostas, mesmo Patrus, Kalil e Gabriel deixam escapar algo essencial: a intervenção sobre diferentes formas de violência na escola depende de uma boa gestão da educação em outras frentes. Ou seja, mesmo que o plano de governo fosse enxuto e organizado em tópicos, como a maioria dos apresentados pelos candidatos, entendo que precisaríamos de uma lista mais ampla do que a apresentada por eles. Por isso, encerro esta pequena discussão com minha própria proposta de ações para reduzir a violência e os demais problemas de convivência na escola.

Tópicos para um plano de governo para a prevenção da violência em escolas

Conhecer para proteger

  • Reativar sistemas de registro de violências e outros problemas de convivência nas escolas estaduais. Nem todo problema da escola vira registro policial, e sem informação é mais difícil saber como intervir;
  • Mobilizar toda a comunidade escolar (profissionais da educação, estudantes e familiares) para o registro dessas situações. Se todos souberem que esse instrumento está disponível, pode haver mais interesse em participar;
  • Criar unidades específicas, com tecnologia adequada, que garantam que a Secretaria de Estado de Educação, as secretarias regionais e as escolas recebam esses dados de forma sistematizada e rápida;
  • Elaborar protocolos para planos de intervenção específicos para cada escola, considerando seus principais tipos de violência e outros problemas de convivência escolar;

Atenção psicossocial aos estudantes, famílias e profissionais da educação

  • Desenhar projetos para criar uma rede de apoio psicológico a estudantes e profissionais da educação, para atendimento clínico continuado fora da escola;
  • Dar continuidade ao trabalho de profissionais de psicologia e assistência social nas escolas, ampliando a equipe para reduzir o número de escolas atendidas por cada grupo de profissionais;

Intersetorialidade e proteção a crianças e adolescentes

  • Fortalecer as parcerias com os órgãos de segurança pública e de justiça para o atendimento e a investigação dos crimes e atos infracionais ocorridos nas escolas. Essa atuação não deve substituir o trabalho pedagógico; deve ser pontual e conforme a demanda da escola;
  • Investir na rede de proteção à criança e ao adolescente da qual a escola faz parte. Serviços e equipamentos como os da saúde e da assistência social sempre estão presentes nos territórios, mas muitas vezes não têm as demandas atendidas no tempo necessário. Órgãos como o Conselho Tutelar e as unidades de saúde são parceiros essenciais para o acompanhamento dos casos de violência e outras violações de direitos identificadas nas escolas. A cultura do encaminhamento não tem se mostrado suficiente. O gestor da política ao lado, muitas vezes, não tem recursos suficientes para atender o grande fluxo de demandas. Entender o que ocorre na escola como resultado do funcionamento dessa rede é um passo essencial para o sucesso das políticas públicas de redução da violência nas escolas;
  • Reforçar a segurança pública no entorno das escolas de maneira a reduzir a insegurança no trajeto e contra o espaço escolar. A violência fora da escola afeta e muito a vida de estudantes e profissionais da educação. E isso é muito ruim porque ela tende a comprometer ainda mais as escolas que atendem os grupos sociais que mais precisam de boas escolas públicas: estudantes de baixo nível socioeconômico, negros e residentes em espaços periféricos. O foco deve ser a proteção da escola e seus atores e não a criminalização dos jovens;

Valorização profissional

  • Investir nos docentes, por meio da valorização profissional, que envolve principalmente o salário. Em Minas Gerais, ainda não está resolvida a discussão sobre o pagamento do piso salarial estabelecido pela Lei nº 11.738/2008. Também não está resolvido o tempo de reconhecimento dos títulos no plano de carreira;

Ressignificar o papel das avaliações externas

  • Aprimorar os processos de incentivo e divulgação de indicadores e outros resultados de avaliações externas. O foco na classificação das escolas tem gerado uma exposição vazia de números e, ao mesmo tempo, ampliado a tensão e a cobrança sobre os docentes.

Valéria Cristina de Oliveira

Professora adjunta do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG). Doutora e Mestre em Sociologia pela UFMG. Pesquisadora do NUPEDE/UFMG e da Rede FEMJUSP.

Valéria Cristina de Oliveira

Email: valcrisoli@gmail.com

Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG)

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