O desejo de voltar a ter uma casa com quintal é o ponto de partida do documentário ‘Meu Interior’, dirigido pela cineasta e fotógrafa mineira Luisa Macedo. O curta acompanha a história de Wanusa, cozinheira do Aglomerado Santa Lúcia, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, que perdeu a casa em um deslizamento de terra e luta para reconstruir a vida sem abrir mão da relação com a terra e o cultivo de alimentos.
Com 25 minutos de duração, o filme terá uma exibição online gratuita e única no dia 4 de novembro, quarta-feira, às 19h, pela plataforma Zoom. A programação inclui uma oficina com a diretora e o diretor de fotografia do curta, Ciro Thielmann. Para participar, é necessário fazer inscrição prévia pela internet.
A história acompanha Wanusa em uma viagem a Bom Jesus da Boa Vista, distrito de Virginópolis, na região do Vale do Rio Doce, onde passou a infância e aprendeu a cozinhar com os pais, a irmã mais velha e outras pessoas próximas.
O retorno ao lugar onde cresceu é também uma oportunidade de reencontrar pessoas e memórias que ajudam a protagonista a encontrar forças para seguir em busca de uma moradia que permita manter seus hábitos e projetos.
Depois de perder a casa no Aglomerado Santa Lúcia, Wanusa recusou um apartamento oferecido pela Prefeitura de Belo Horizonte. A cozinheira queria uma residência com quintal, espaço que considera fundamental para sua relação com a cozinha e com o cultivo de alimentos.
Cozinha, memória e direito à moradia
No quintal da antiga casa, Wanusa cultivava ingredientes como couve, ora-pro-nóbis e caule de mamão. Algumas mudas vieram justamente do interior de Minas Gerais, mantendo viva a ligação com o lugar onde passou a infância. Conhecida na comunidade pelas combinações que prepara na cozinha, ela também chegou a servir refeições no próprio quintal.
“O quintal para ela é um organismo vivo, pulsante, um modo de existir”, explica Luisa Macedo.
Essa relação aparece em diferentes momentos do documentário, como na preparação de uma receita de carne de lata, feita em um fogão instalado na parte externa da casa. Mesmo após perder a moradia, Wanusa continuou cultivando ora-pro-nóbis, agora em vasos.
Atualmente, ela vive em uma casa cedida pelo irmão, também no Aglomerado Santa Lúcia. Após uma longa disputa, chegou a um acordo para receber uma indenização pela perda da antiga residência. A busca por um imóvel com quintal, no entanto, continua entre seus projetos.
Filme foi construído em parceria com protagonista
A relação entre a diretora e Wanusa começou ainda na infância de Luisa, quando a cozinheira se mudou para perto de sua casa. Anos depois, a convivência se transformou em uma pesquisa sobre quintais urbanos.
Em 2021, Luisa desenvolveu projetos sobre o tema, incluindo um curta documental que marcou sua estreia na direção. Ao convidar Wanusa para participar, descobriu que a casa que guardava tantas lembranças havia sido destruída pelas chuvas.
A ideia de ‘Meu Interior’ surgiu posteriormente, a partir de uma proposta da própria protagonista: produzir um filme sobre o retorno ao lugar onde cresceu e o reencontro com pessoas de seu passado.
Durante a pesquisa e a elaboração do roteiro, Wanusa enviou mais de 30 áudios com lembranças e sonhos. Ela também participou da construção de cenas e das escolhas musicais.
“Construímos juntas algumas cenas, inclusive as trilhas que entraram em duas delas foram trazidas por ela, a partir de memórias”, conta a diretora.
Para Luisa, a intenção foi abordar a perda da moradia a partir da perspectiva de luta da protagonista e da importância do direito à moradia.
“Quando ela relata o processo de perda da casa é sempre em tom de luta e de querer trazer para o debate a importância do direito à moradia e foi essa voz que eu quis reverberar”, afirma.
Exibição gratuita e oficina
Viabilizado pelo edital BH nas Telas – Edição Paulo Gustavo, da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio de recursos do Ministério da Cultura, o documentário integrou a programação do Matula Film Festival, dedicado às relações entre cinema e comida.
A sessão do dia 4 de novembro será acompanhada de uma oficina com Luisa Macedo e Ciro Thielmann. Os participantes poderão conhecer mais sobre o processo de pesquisa, as escolhas de direção e fotografia e os aspectos estéticos e conceituais da produção.











