Advogado autuado por ataque racista a cabeleireira é solto após pagar fiança em BH

Reprodução/Facebook

Um advogado de 70 anos foi detido, na tarde de segunda-feira (20), após puxar o cabelo de uma mulher e a agredir com um tapa no rosto dentro de um ônibus no Centro de Belo Horizonte. O idoso também chamou a cabeleireira de macaca e gerou revolta entre passageiros do coletivo da linha 3503, que faz o trajeto entre os bairros Santa Terezinha e São Gabriel. Testemunhas relataram às autoridades que o homem tentou fugir, mas foi contido por pessoas que presenciaram a cena. Ele acabou sendo autuado em flagrante por injúria racial. No entanto, saiu pela porta da frente da delegacia depois de pagar fiança de R$ 1 mil.

De acordo com a Polícia Militar (PM), Taciana Cristina Souza Pires, de 28 anos, contou ter sido agredida por Walter Roberto do Amaral logo após embarcar no ônibus. Ela disse que subiu os degraus e, de repente, sentiu um puxão no cabelo. A cabeleireira ainda relatou que, ao se virar para tentar identificar o autor da agressão, foi surpreendida por um tapa no rosto. O idoso também teria a chamado de macaca por diversas vezes.

Ocupantes do coletivo intervieram e o advogado tentou fugir em um táxi. Ao ser impedido de embarcar no carro, Walter correu em direção à Praça Sete. No local, militares foram acionados pelas testemunhas. Todos os envolvidos seguiram para a Central de Flagrantes (Ceflan), no bairro Floresta.

O caso gerou comoção entre amigos da cabeleireira e viralizou nas redes sociais. Nesta terça-feira (21), o salão onde Taciana trabalha, o “Todo Black é Power”, promoveu um café da manhã com o intuito de apoiar a profissional em uma ação de repúdio às agressões sofridas. Ao Bhaz, ela relatou ter se sentido humilhada com a situação.

Segundo a cabeleireira, o idoso a ofendeu falando alto sem se importar que outros passageiros do coletivo ouvissem. “Questionei o que estava acontecendo e ele disse não gostar do meu cabelo, me chamou de macaca”, disse.

Taciana contou que, mesmo após ser perseguido por testemunhas, o advogado não parou de a ofender. “Quando chegamos perto de policiais, ele continuou me chamando de macaca e debochando de mim. Disse que é advogado e que, por isso, não daria em nada chamar a polícia”, relata. “Os policiais me questionaram se eu queria mesmo fazer o boletim de ocorrência. Decidi fazer aconselhada por amigos e conhecidos, já que não tinha noção do que poderia acontecer. Eu achei que fosse apenas perder meu tempo, mas entendo a importância”, disse.

A cabeleireira ainda contou ter se espantado com a quantidade de advogados do idoso na delegacia. “Não paravam de chegar advogados dele na delegacia, muita gente mesmo. Uma delas disse aos policiais que eu o empurrei, que tinha acontecido uma confusão. Mas não foi isso e as pessoas que estavam no ônibus foram testemunhar”, conta.

Na saída do advogado da delegacia, dezenas de pessoas se manifestaram contra a agressão. “O pessoal começou a gritar e a cercar o carro em que ele entrou após pagar a fiança. Assim como no momento da agressão, eu não queria que ninguém tocasse nele. O que ele fez foi errado, mas ele é idoso”, continua. “As pessoas queriam que ele me pedisse desculpas pelo que fez, mas isso nunca vai acontecer”, completa.

Taciana ainda relata ter sido a primeira vez que sofreu preconceito por causa do cabelo e da cor da pele. “Já escutei no salão que algumas clientes têm medo de fazer um cabelo com trança ou diferente por causa da reação das pessoas na rua. E, infelizmente, é uma realidade. Eu achava que era coisa da cabeça das pessoas, mas é real”, explica. “Fiz exame de corpo de delito e analiso a possibilidade de processá-lo. O que ele fez não foi só uma simples agressão”, finaliza.

Walter foi liberado da delegacia após pagar fiança. As autoridades levaram em consideração o fato do advogado já ter 70 anos e não possuir antecedentes criminais.

OAB

Procurada pelo Bhaz, a OAB-MG (Ordem dos Advogados do Brasil seção Minas Gerais) informou, por meio de sua assessoria, que o idoso chamou de forma equivocada membros da Comissão de Defesa de Prerrogativa da entidade. Os profissionais atuam com o objetivo de auxilar advogados que tenham direitos violados no exercício da profissão. No entanto, neste caso, Walter foi apontado como autor e autuado em flagrante por injúria racial. Agora, a Comissão de Direitos Humanos também acompanha o caso a fim de assegurar os direitos da vítima.

A reportagem também ligou diversas vezes para o escritório de Walter Roberto do Amaral na tentativa de conversar com o idoso ou com seus advogados. Duas funcionárias da empresa apenas informaram que ele não irá se pronunciar sobre o ocorrido.

Injúria racial x Racismo

A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível. Clique aqui para saber mais.

Roberth Costa
Roberth Costaroberth.costa@bhaz.com.br

Editor do BHAZ desde junho de 2018 e repórter desde 2014. Participou do processo de criação do portal em 2012. É formado em Publicidade e Propaganda pela Faculdade Promove. Participou de reportagens premiadas pela CDL/BH em 2018 e 2019, além de figurar entre os finalistas do prêmio Sindibel, também em 2019.