Celebração se torna tortura: Cães ficam presos e fogem durante fogos

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Vários tutores de BH precisam de ajuda para tentar reencontrar os bichinhos (Camila Gomes + Fransuelen Silva + Mithale dos Santos/Arquivo pessoal)

O ano pode até ser novo, mas o sofrimento é o mesmo. Com a tradicional queima de fogos do Réveillon, muitos cães vivem uma verdadeira tortura e as famílias rapidamente veem o que deveria ser um momento agradável se transformar em transtorno. Desta vez, não foi diferente: assustados com o barulho dos fogos de artifício, vários cães fugiram e estão desaparecidos ou se machucaram. Perdidos pelas ruas de BH, os animaizinhos mobilizaram bombeiros, policiais e vários moradores solidários que se esforçam para dar um fim a esse sofrimento.

Apenas neste período de celebrações de fim de ano, foram vários os casos de animais que fugiram ou que acabaram em situações perigosas por causa do medo. Tanto o Corpo de Bombeiros como a Polícia Militar foram acionados para resgatar cães que se assustaram e ficaram presos em locais de difícil alcance. É o caso de dois cães resgatados pela PM logo no primeiro dia do ano – um em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e outro em Lagoa Santa, na região metropolitana. Assustados, os dois acabaram ficando presos entre os muros das casas em que viviam.

A mesma coisa aconteceu com o cãozinho Bolinha, que deu trabalho para os bombeiros após cair e ficar preso em um vão. “Durante a virada do ano, o Bolinha se assustou com o barulho dos fogos de artifício e saiu correndo em desespero. Ele pulou o muro de casa e acabou caindo em um vão entre dois muros”, disse a corporação. A profundidade do local em que ele estava era de 2,5 metros e, depois de cair, Bolinha ainda avançou cerca de três metros, dificultando ainda mais o trabalho.

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Bolinha ficou preso após fugir, mas foi resgatado e está bem (Corpo de Bombeiros de Minas Gerais/Divulgação)

No final, os militares conseguiram resgatá-lo sem precisar quebrar o muro, mas reforçaram o alerta: “Os cães têm ouvidos muito sensíveis, capazes de ouvir timbres inaudíveis para os humanos. Se para nós o espetáculo já é bem barulhento, para eles é um enorme estrondo”. A corporação ainda explicou que o barulho pode causar dores nos animais e até danificar a audição dos filhotes. “Por isso, seja consciente, não solte fogos de artifício”, finalizou.

Transtorno não acabou

Para os cãezinhos resgatados pelas autoridades, o final foi feliz. Mas, infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre os vários outros que, transtornados pelo barulho, fugiram de casa e se perderam nas ruas da capital. No caso deles, os primeiros dias do ano já são solitários e trazem muita preocupação para os donos.

É exatamente esse o transtorno vivido pela família da Kika, uma cachorrinha que ainda está perdida desde que se assustou com os fogos na última quinta (31). Os donos tomaram todos os cuidados possíveis e chegaram a ficar com ela no colo para evitar uma fuga, mas o transtorno foi tanto que ela escapou mesmo assim, conforme conta Mithale dos Santos ao BHAZ.

“Aqui perto soltam muitos fogos e ela tem muito medo. Aí a minha sobrinha que tá gravida foi passar no portão e a cachorrinha saiu”, lembra. Ela explica que o dono da cachorrinha conseguiu pegá-la da primeira vez, mas ela continuou assustada e fugiu novamente. “Meu cunhado pegou ela e deu para minha sobrinha. Só que ela [Kika] ficou assustada com os barulhos, pulou do colo da minha sobrinha e fugiu”, conta.

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Cachorrinha escapou duas vezes por medo dos fogos (Mithale dos Santos/Arquivo pessoal)

Mithale afirma ainda que a família tentou encomendar cartazes para divulgar o desaparecimento de Kika – que precisa tomar remédios controlados – pela cidade, mas encontrou todas as gráficas fechadas por causa do feriado. Agora, eles contam com a colaboração de outros moradores para conseguir encontrar a cachorrinha. Quem tiver informações sobre o paradeiro de Kika pode entrar em contato pelos telefones (31) 99361-4263, (31) 99407-6514 ou (31) 99374-881.

À procura de um dono

Ainda que sejam diretamente afetados pela falta de cuidado dos que insistem em soltar fogos de artifício nesta época, alguns animais dão a sorte de encontrar moradores solidários que tentam ajudá-los a voltar para casa. Quem deu exemplo neste quesito foi um casal que mora no bairro Ouro Preto, na região da Pampulha. Cássio Pedrosa estava saindo de casa quando se deparou com um cãozinho perdido e assustado. Depois de pegá-lo e passar quase duas horas procurando o dono pela região, ele e a esposa, Fransuelen Silva, resolveram abrigar o cão na própria casa até conseguirem achar o tutor.

“Eu fiquei com ele e trouxe pra casa principalmente porque tem um indicativo muito forte de que ele tem um dono”, contou Cássio ao BHAZ. Ele explica que o cão estava muito bem cuidado e que, apesar de não ter conseguido achar o dono, várias pessoas da região afirmaram que havia uma mulher procurando pelo cão. “Aí a gente decidiu ficar com ele para tentar achar essa pessoa. Quando a gente se coloca no lugar, pensa que, caso fosse a nossa cadela, a gente certamente seria muito grato a quem quer que ajudasse”, pontua.

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Cãozinho foi encontrado em um cruzamento na avenida Fleming (Arquivo Pessoal/Fransuelen Silva)

Eles levaram o cãozinho para casa e, desde então, ele convive com os dois animais de estimação do casal – uma cachorrinha e um gato. O casal já divulgou o caso em várias redes sociais e espera encontrar um dono em breve, já que não têm como manter o bichinho em casa. “A gente está tentando fazer de tudo para manter ele bem. É importante sempre imaginar que ele poderia estar na rua agora”, lembra Fransuelen.

Enquanto o dono não aparece, o casal cuida do cão com a mesma atenção dedicada aos próprios bichos: “Estamos na espera do dono aparecer e que isso tenha um final feliz. A gente não tem condições de ficar com ele aqui, mas, por enquanto, vamos ficar e ele está recebendo todo o amor e carinho que um cachorrinho merece”, diz Fransuelen. Quem tiver informações sobre o dono do cão pode entrar em contato com ela pelo Instagram @fransuelen.s.

Mais um cão perdido

E não é só no Réveillon que os cãezinhos se perdem. Para uma família de Betim, na região metropolitana de BH, o pesadelo começou mais cedo. A cachorrinha deles fugiu na véspera de Natal, também assustada com fogos de artifício. “Eu tinha ido ao supermercado e estavam soltando foguetes. Acredito que ela tenha fugido quando entramos na garagem com o carro”, conta Camila Gomes ao BHAZ.

Camila conta que a cachorrinha Pitucha sempre ia ao encontro dos donos quando eles chegavam em casa e, quando isso não aconteceu no dia 24, eles já se preocuparam. “Andamos pelo bairro procurando ela, tentamos de tudo, cartazes, divulgações nos grupos de cachorros, mas infelizmente não temos notícias ainda”, conta. Quem tiver informações que possam ajudar a localizar Pitucha pode entrar em contato pelo telefone (31) 98807-8963.

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Cachorrinha fugiu na véspera de Natal no bairro Imbiruçu, em Betim (Arquivo Pessoal/Camila Gomes)

Como os fogos afetam os cães

Os efeitos dos estímulos dos fogos de artifício nos cachorros já são um pouco mais conhecidos e compartilhados. Em entrevista anterior ao BHAZ, Paula Mayer Costa, médica veterinária neurologista da UFMG, explicou que o animal escuta melhor que os seres humanos: “Eles têm esse sentido mais aguçado. Com isso, provoca-se uma excitação no animal e, com o barulho dos fogos, desencadeia diversas alterações”.

“O animal pode ter convulsões e problemas cardíacos, por exemplo. Eles ficam com muito medo, tentam se defender, sair daquele lugar que está com muito barulho. O primeiro instinto dele é fugir. Por isso, nesses momentos, não é recomendável abrir portas ou janelas da casa, para que o animal não saia”, contou Paula.

Para evitar uma crise, a recomendação básica é colocar tampões de algodão nos ouvidos dos animais, colocar faixas para protegê-los e tocar música clássica para acalmá-los. “Tentar manter o ambiente o mais tranquilo possível, ficar perto deles nesse momento”, completou a médica veterinária.

Não prejudica só os animais

Animais domésticos, como cães e gatos, não são os únicos que a sofrer com os estímulos dos fogos de artifício disparados, principalmente, no fim do ano. Em 2019, o apresentador Marcos Mion fez questão de lembrar quem também está sujeito a entrar em crise diante da queima de fogos: as pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Neste ano, o apresentador – que é pai de Romeo Mion, adolescente portador do TEA – reforçou o recado neste ano. Ao lado dos filhos, ele lembrou as pessoas que devem ser lembradas antes da queima de fogos

O alerta do apresentador tem embasamento científico. Isso porque portadores de TEA podem apresentar hipersensibilidade a estímulos visuais e sonoros. Rosângela Gomes, professora do Departamento de Terapia Ocupacional da UFMG, conta que os foguetes podem afetá-los negativamente. Ela falou a respeito do assunto em uma reportagem da TV UFMG.

“Os fogos de artifício afetam de maneira bastante negativa as pessoas que têm autismo. Seja pelo estímulo auditivo ou visual, que são muito intensos na noite de ano-novo, as pessoas com autismo, seja um bebê, uma criança, um adolescente ou um adulto, vivenciam isso de maneira muito intensa e muito negativa”, explicou.

Edição: Thiago Ricci
Giovanna Fávero
Giovanna Fáverogiovanna.favero@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde outubro de 2019. Jornalista graduada pela PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e com atuação focada nas editorias de Cidades, Guia e Cultura.

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