Você conhece alguém que começou apostando “só de brincadeira” e, quando percebeu, já estava endividado? Ou alguém que dizia ter tudo sob controle, mas passou a mentir, esconder gastos, pedir dinheiro emprestado ou apostar cada vez mais para tentar recuperar o que perdeu?
Nos últimos meses, notícias envolvendo dívidas com apostas, conflitos familiares, crimes e suicídios têm chamado atenção para um problema que não pode ser tratado apenas como falta de limite, irresponsabilidade ou fraqueza de caráter.
O crescimento das bets, dos cassinos on-line e dos jogos de azar digitais colocou a aposta dentro do celular. Hoje, é possível apostar a qualquer hora, de qualquer lugar, em poucos segundos. E isso aumenta muito o risco para pessoas mais vulneráveis.
Mas é importante começar por um ponto essencial: nem toda pessoa que aposta desenvolverá um transtorno. Assim como nem toda pessoa que bebe desenvolve dependência de álcool, nem todo apostador terá uma relação adoecida com o jogo.
O problema começa quando a aposta deixa de ser eventual e passa a ocupar um lugar central na vida: nos pensamentos, no dinheiro, no tempo, no trabalho, nas relações e na saúde mental.
Na CID-11, Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), esse quadro é chamado de Transtorno do Jogo e envolve perda de controle sobre as apostas, prioridade crescente dada ao jogo e continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos importantes. Segundo a OMS, estima-se que 1,2% da população adulta mundial apresenta esse transtorno, um número que representa milhões de pessoas e cujos impactos também alcançam familiares, parceiros, filhos, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas próximas.
Mas por que algumas pessoas desenvolvem este transtorno e outras não?
Não existe uma única resposta. Geralmente, o problema surge da combinação de vários fatores: sofrimento emocional, estresse, solidão, ansiedade, depressão, endividamento, busca por alívio rápido, facilidade de acesso aos aplicativos, dificuldade de lidar com frustrações, predisposição genética e alterações neuroquímicas ligadas ao circuito de recompensa do cérebro. Para algumas pessoas, a aposta ativa uma sensação intensa de expectativa, prazer e esperança, criando um ciclo difícil de interromper: “só mais uma vez”, “agora eu recupero”, “dessa vez vai dar certo”.
E é aí que mora uma das grandes armadilhas.
Muitos apostadores acreditam que têm mais controle do que realmente têm. Pensam que estudaram bem o jogo, que conhecem o time, que entenderam o padrão, que sabem a hora certa de parar. Quando alguém demonstra preocupação, é comum ouvirmos frases como: “eu paro quando quiser”, “eu sei o que estou fazendo” ou “é só até recuperar o dinheiro”.
O problema é que, no transtorno do jogo, a sensação de controle vai diminuindo justamente quando a pessoa mais acredita estar no comando. A aposta passa a organizar o dia. A pessoa confere resultados escondida, mente sobre valores gastos, pega empréstimos, usa cartão de crédito, compromete contas básicas, aposta no trabalho, durante reuniões, de madrugada ou em momentos que deveriam ser de descanso e convivência.
O sofrimento produzido por esse ciclo pode ser muito intenso. Há vergonha, culpa, irritabilidade, ansiedade, insônia, medo de ser descoberto, sensação de fracasso e desespero diante das dívidas. Em situações graves, podem aparecer pensamentos de morte e, em alguns casos, a tentativa de conseguir dinheiro ou esconder prejuízos pode levar a comportamentos de risco, conflitos, fraudes, furtos ou outros crimes.
Por isso, precisamos tirar esse tema do campo da moral e levá-lo também para o campo da saúde. Isso não significa retirar a responsabilidade da pessoa. Significa compreender que ninguém se recupera melhor porque foi humilhado, ameaçado ou julgado. A recuperação precisa de limite, informação, tratamento, rede de apoio e políticas públicas.
No Brasil, houve avanços recentes na regulação das apostas, com regras sobre publicidade, deveres das empresas, direitos dos apostadores e ações de jogo responsável. Ainda assim, a existência de normas não significa proteção suficiente. É preciso fiscalização efetiva, redução da publicidade abusiva, proteção de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis, além de mais acesso ao cuidado em saúde mental.
As empresas também precisam entrar nessa conversa. Em muitos casos, o ambiente de trabalho é um dos primeiros lugares onde os sinais aparecem: queda de produtividade, atrasos, irritabilidade, isolamento, pedidos frequentes de adiantamento, conflitos ou uso excessivo do celular. Entretanto, quando existe uma cultura de cuidado no ambiente organizacional, esses sinais podem ser acolhidos com responsabilidade, sigilo e respeito.
E há tratamento.
As possibilidades incluem psicoterapia individual ou em grupo, acompanhamento psiquiátrico, apoio familiar, reorganização financeira, estratégias de bloqueio de acesso às plataformas e cuidado com outros sofrimentos associados, como ansiedade, depressão e uso abusivo de álcool ou outras substâncias.
Também é importante lembrar que a família precisa de apoio. Conviver com alguém que perdeu o controle sobre as apostas pode gerar medo, raiva, insegurança, exaustão e sofrimento. Quem está ao redor também precisa ser escutado.
Se você se reconheceu neste texto, talvez seja um bom momento para buscar apoio psicológico e, quando indicado, avaliação psiquiátrica. Se você percebe que alguém próximo está sofrendo com apostas, tente substituir acusações por conversa, presença e encaminhamento.
Frases como “é só parar” ou “você acabou com a família” podem aumentar a vergonha e dificultar o pedido de ajuda. Em situações de risco de suicídio, procure ajuda imediatamente. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
O transtorno do jogo pode destruir silenciosamente, mas não precisa ser o fim da história. Com cuidado, tratamento e rede de apoio, é possível interromper o ciclo, reconstruir vínculos e retomar a própria vida.
Quando o jogo deixa de ocupar todo o espaço, a vida pode voltar a caber dentro da pessoa.
Com afeto,
Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265










